Jogos do Amor





Sinopse

Carly tem uma meta para este vero: arrumar um namorado... para a sua melhor amiga, Heather. E Heather no  nada feia: tem um corpo perfeito, cabelos sedosos, olhos 
cinza e penetrantes que conquistam qualquer garoto. O nico problema  que ela no se interessa por qualquer cara: na verdade, ela s se apaixona pelos namorados 
de Carly! Eis que surge Jack Ryder, um gato que parece ser o par perfeito para Heather. Ele  inteligente, divertido e, para completar, superbonito! Parece que o 
plano de Carly dar certo: Heather se apaixonar por Jack e vai deixar o caminho livre... mas ento por que Carly est se sentindo to infeliz?
Um

        A placa na porta da Shoppers Express dizia: "No  permitida a entrada de pessoas sem camisa e descalas". Dei uma olhada para minha roupa: eu usava sapatos 
de salto com tiras que se enrolavam ao redor dos meus tornozelos como cobras cintilantes e um vestido
com babados, armado e engomado o suficiente para danar sozinho. Era a coisa mais horrvel que eu j havia visto na vida. Tentei entender por que estava vestindo 
aquilo e o que estava fazendo na Shoppers Express. Foi quando vi a placa da liquidao: "Compre um, leve dois".
        Entrei na loja, agarrei uma cesta e fui para o primeiro corredor. Suas prateleiras estavam cheias de rapazes. Assim como as prateleiras ao longo do segundo, 
do terceiro e do quarto corredor
- rapazes de todos os tipos e tamanhos, loiros, negros e morenos, musculosos e magrinhos; expostos como se fossem caixas de cereal, rapazes lindos em smokings, estticos 
como se fossem bonecos, todos sorrindo para mim.
        - Obrigada por me convidar pra vir com voc - disse minha amiga Heather.
        Olhei pra ela por cima do ombro. Estava com um vestido vermelho bem curto e sexy,empurrando um enorme carrinho de compras.
        - Disponha - respondi. Ento, me estiquei e peguei um lindo garoto da prateleira, colocando-o em minha cesta. Rpida como um raio, Heather pegou-o e o ps 
em seu carrinho.
        Peguei outro rapaz. Heather arrancou-o da minha cesta. Peguei mais um. E Heather tambm o roubou. Ento sa em disparada pelos corredores, arrancando rapazes 
das prateleiras. Heather acompanhava o meu ritmo. Logo, eu estava correndo e nem conseguia mais ver os rostos deles. Eu ainda estava com aquele vestido detestvel, 
mas agora deslizava sobre os meus patins, me esticando e colocando um rapaz aps o outro em minha cesta. Mas ela sempre terminava vazia. E o carrinho de Heather 
no parava de encher. Enfurecida, comecei a patinar cada vez mais rpido, manejando meu antigo basto de hquei, esvaziando as prateleiras. Heather continuava atrs 
de mim.
        - Eu no agento mais isso! - gritei de repente. - Leve todos eles. So todos seus, Heather!
        Joguei a cesta e o basto de hquei em um canto e corri para a porta. Heather continuava atrs de mim, talvez esperando por mais alguma promoo. Ela no 
havia pagado. Heather nunca se preocupava com o preo das coisas. Um alarme da loja disparou. Parecia estar tocando para mim, soava como se estivesse a poucos centmetros 
do meu ouvido.
        E estava. Sem abrir os olhos, ergui a cabea, apertei o boto do despertador e o joguei sobre a lateral da cama. Estava com o corpo todo mole. Que pesadelo 
horrvel!
        Senti uma pontada de culpa. Pesadelo? Heather era a minha amiga.
        - Quantas vezes voc vai deixar essa coisa disparar? - resmungou minha irm.
        Abri um olho e a fitei atravs do desfiladeiro que existia entre as nossas duas camas iguais. Acabea de Joelle, a alguns centmetros do travesseiro, tinha 
o cabelo curto e sedoso todo desgrenhado. Era da mesma cor que o meu, ruivo, mas o corte a fazia parecer mais jovem - muito jovem para estar grvida. S que era 
essa a situao dela: em casa no seu primeiro ano de faculdade e grvida. Eu tenho 17 anos, dois a menos que ela, mas com mais juzo agora do que minha "grande" 
irm ter quando tiver 47.
        - Quantas vezes? - resmungou Joelle novamente.
        - Quantas vezes isso j disparou?- perguntei.
        - Quatro.
        - Quatro!
        Isso significava que j eram pelo menos oito horas. E a minha reunio era s oito e meia. Sa da cama e pisei com tudo na borda de metal do despertador. 
Fui gemendo e pulando num p s at a cadeira, onde uma pilha de roupas limpas havia sido colocada. Vasculhei entre elas para achar a combinao certa para hoje. 
No era bem desse jeito que eu queria comear o meu emprego de vero no acampamento Sunburst.
        - No esquea de fechar o zper - gritou minha irm quando sa apressada do quarto ainda vestindo o short.
Fiquei no banheiro apenas o tempo suficiente para ver que os meus olhos, que so castanhos, pareciam duas lagoas sujas, e meus longos cabelos ruivos estavam desgrenhados 
e oleosos. No p da escada, peguei a mochila, que havia sido arrumada na noite anterior, e tirei o capacete da bicicleta do armrio. Enquanto torcia o cabelo no 
alto da cabea, pensava se no seria uma boa idia ficar com o capacete durante toda a reunio.
        Eu conhecia cada curva do trajeto para a Faculdade Kirbysmith, onde ficava o acampamento Sunburst, e onde minha me lecionava desde que eu tinha 4 anos. 
Pedalei o mais rpido possvel, me desviando de um cachorro, um esquilo e um corredor, o que, segundo meus clculos, dava uma mdia de apenas um "quase acidente" 
a cada dois quilmetros. Estava um dia superquente. O suor escorria pelo meu corpo. Tanto que nem me importei quando um homem ligou os irriga dores do jardim ao 
me ver pedalando sobre o seu gramado. Alm do mais, esse era o melhor caminho para se chegar ao buraco na cerca, a minha entrada particular na faculdade.
        Mas, mesmo pedalando to rapidamente, eu no conseguia me livrar da lembrana do pesadelo. Cenas dele, assim como momentos memorveis do passeio  tarde 
e do encontro duplo da noite anterior - que eu gostaria de esquecer - faiscavam diante dos meus olhos.
        Na noite passada, tinha sido Tim e Heather, e no passeio  tarde, Taylor e Heather, e no torneio de basquete, Bo e Heather, e na lanchonete... bem, era sempre 
a mesma histria, apenas com um garoto diferente. Voc j deve ter entendido: qualquer um que sasse comigo, logo saa com Heather.
        E como eu podia culp-Ios? Heather  delicada, tem olhos cinza,  loira. Tem um lindo sorriso, as pernas longas e o pescoo esguio de uma bailarina. De alguma 
maneira, a minha alegre e tmida amiguinha de colgio havia se transformado num cisne na faculdade. E eu, bem, eu sempre pareci mais um simptico pica-pau, com o 
meu cabelo vermelho.
Estava pensando sobre isso, a injustia de ser um pica-pau, enquanto quicava com a minha bicicleta pelos infinitos degraus que levavam at o centro acadmico da 
faculdade. No pedalava por aqueles degraus desde a minha infncia e j havia me esquecido como a velocidade aumentava e a bicicleta sacudia. De repente, me vi mergulhando 
em direo a uma garota e um rapaz que segurava um violo. Ambos se viraram para mim, ento, a garota se jogou contra uma parede e o rapaz pulou nos arbustos agarrando 
o violo como se fosse um beb.
        Passei por eles, apertando os freios, ento virei a cabea para ter certeza de que estavam bem. Dois rostos furiosos me fitaram.
        - Desculpe - disse ofegante. - Desculpe! Eu me esqueci da ltima curva. Acho que perdi a prtica...
        - Bem - disse a garota -, talvez voc devesse ir pro shopping. Eles tambm tm escadas rolantes l.
        Ela era negra, com bochechas proeminentes e olhos amendoados como os de Clepatra - um rosto muito extico e absolutamente lindo. Eu no me importei com 
o seu tom de voz; at porque se os reflexos deles no tivessem sido to bons, ns trs teramos nos transformado numa paoca. Mas eu no gostei do modo como o rapaz 
me olhou, de cima a baixo. Seus olhos eram azul-escuros. E achei estranho quando ele fez uma pausa e deu um sorrisinho de canto de boca.
        Timidamente, olhei para o meu short. Eu havia me esquecido
de fechar o zper.
        - Estou atrasada. Qual  a sua desculpa? - resmunguei, enquanto puxava o meu zper.
        - Eu no preciso de uma - respondeu ele.
        Pedalando, me afastei deles o mais rpido que pude e prendi minha bicicleta com cadeado no poste que ficava em frente ao centro acadmico. Meu relgio indicava 
oito e trinta e cinco. "Pelo menos", tentava me consolar, "j que eu estou atrasada para a reunio da equipe, nenhum dos outros monitores presenciou a minha chegada." 
Tirei a carta da minha mochila para checar o nmero da sala e pisquei fortemente. Nove e meia! A reunio s iria comear s nove e meia! Desmoronei sobre o assento 
da minha bicicleta.
        Felizmente, um cheiro maravilhoso de po de queijo, saindo da janela do centro acadmico, trouxe a vida de volta ao meu corpo. Faminta, com tempo suficiente 
para tomar um bom caf da manh e dar um jeito na minha aparncia, entrei na lanchonete.
        Estava na fila, olhando o cardpio, quando escutei uma voz que me fez esquecer de todas as coisas chatas daquela manh. Era uma voz que eu, Heather e vrias 
outras garotas gravramos em nossa memria como uma das lembranas mais importantes. Era a voz de Luke Hartly, uma espcie de deus grego que tinha aparecido na nossa 
escola.
        Corriam boatos de que Luke Hartly estava treinando para as Olimpadas. Tudo o que eu sabia era que, quando ele fazia exerccios na barra fixa, os coraes 
das meninas davam saltos mortais. Mas ele no estava namorando ningum: dedicava-se tanto  ginstica olmpica que no percebia todas aquelas garotas babando por 
ele. At mesmo MegJarvis, que na ltima temporada de jogos estudantis havia sido lder de time em cada modalidade esportiva, esperava ter uma chance com ele. "O 
gato inatingvel", pensei, "o medalha de ouro dos lindos!"
        - J achou alguma coisa que voc gosta? - perguntou um garoto que tinha entrado na fila logo atrs de mim.
        Imaginei que estava empacando a fila.
        - Estou decidindo.
        - Enquanto isso - disse ele -, voc no acha que a gente poderia ir comendo algo?
        Virei. Era o garoto que eu quase havia atropelado - desta vez, sem o violo. Estava sorrindo. Sempre sorrindo.
        - No posso deixar de perguntar, mas para que voc estava to atrasada, pro caf da manh ou pra ele? - disse, indicando Luke com a cabea.
        - Eu tenho uma reunio - respondi irritada - Achei que era s oito e meia, mas s vai comear s nove e meia.
        - Mesmo? - disse, como se estivesse realmente interessado.
        - Mesmo - falei zombando. - Dois pes de queijo e um suco de laranja, por favor - pedi, tentando escapar do garoto.
        - Um queijo quente - ele pediu para o atendente. - Voc vai se sentar com ele?
        - Por acaso, isso  da sua conta? - perguntei.
        - Acho que no - admitiu. - Mas, se for se sentar com ele,  melhor ajeitar a sua camisa primeiro. A menos que voc tenha feito isso de propsito.
        Olhei para baixo. Os botes estavam nas casas trocadas. Como se no bastasse a aparncia da minha camisa, era possvel ver atravs do tecido a sombra de 
um cetim roxo escuro. Sim, tinha colocado um suti berrante da minha irm. Minhas bochechas comearam a queimar. Enquanto eu arrumava os botes da camisa, o garoto 
olhou discretamente para o outro lado da fila, mas pude
reparar o modo como escondia um sorriso entre os lbios. 
        Felizmente Luke no me havia notado. Alis, no havia notado nada alm da comida que era colocada em seu prato. Reclamava que a lanchonete no servia ovos 
mexidos com baixo colesterol e suco de laranja espremido na hora. As pessoas na fila comearam a ficar impacientes. Um gerente foi chamado para conversar com ele.
        - Parece que ele se preocupa bastante com o corpo - disse o rapaz atrs de mim.
        - Voc tambm se preocuparia, se tivesse um como o dele.
        - Talvez - disse, pegando umas moedas do bolso.
        Coloquei as mos nos meus bolsos. Fiz isso duas vezes, ainda que logo depois da primeira j tivesse percebido que no havia trazido um centavo comigo.
        - Talvez voc devesse checar dentro da sua meia - sugeriu ele. - A rosa.
        Eu realmente no sei por que eu ainda me importei em olhar para baixo e ver que estava vestindo uma meia rosa e uma branca. Acho que foi para ter certeza 
de que realmente calava o sapato esquerdo no p esquerdo.
        - Voc tem tempo suficiente pra lavar loua antes da sua reunio? - perguntou.
        - Eles vo colocar isso na minha conta - falei, procurando soar confiante. Na verdade, estava tentada a dar uma mordida antes que o meu caf da manh fosse 
confiscado.
        Quando chegamos  caixa registradora, abri um sorriso sem graa para a menina.
        - Voc no vai acreditar, mas...
        - Eu pago pra ela - disse o rapaz atrs de mim.
        Peguei minha bandeja e andei rapidamente em direo  mesa.
        - Quer sentar comigo?
        - Eu acho que no tenho outra escolha.
        Ele parou.
        - No - disse friamente. - Voc no  obrigada. Foi apenas um convite. - Ento, ele se adiantou, achou uma mesa e se sentou de costas para mim.
        Cheguei por trs e perguntei docemente se poderia me sentar ali. Ele hesitou, mas fez que sim com a cabea. E, assim que me acomodei, ele me olhou.
        - Meu nome  Jack.
        - Carly - repliquei, ainda de maneira doce.
        Ele me deu um sorriso. Seus olhos eram to azuis que me faziam pensar no mar de alguma ilha tropical. Os clios eram grossos e castanhos, como seus cabelos.
        Fitei os meus pes de queijo, e olhei para o lado quando Luke passou carregando a bandeja. Jack acompanhou o meu olhar. Comemos em silncio por alguns minutos.
        - Voc gosta muito de usar o seu capacete, no ? - perguntou finalmente.
        Eu acordei atrasada. No tive tempo de fazer uma trana. E o meu cabelo fica um tanto rebelde quando o tempo est mido.
        -  vermelho? - perguntou alto.
        Olhei surpresa para ele.
        - Suas sobrancelhas so vermelhas.
        - Ruivo - eu o corrigi. No gostava de me imaginar da cor de um tomate.
        - Posso ver?
        - O qu?
        - Posso ver o seu cabelo ruivo?- ele perguntou inocentemente.
        - Voc j viu o suti roxo da minha irm, minha meia rosa e meu zper aberto! - exclamei. - No  suficiente?
        As conversas nas mesas ao nosso redor pararam.
        Luke, que tinha sentado vrias mesas a nossa frente, deu uma olhada sobre o ombro, voltando-se em seguida para o seu caf. Os cotovelos de Jack estavam sobre 
a mesa e ele ria segurando o rosto com as duas mos.
        Mas, quando eu abri repentinamente a fivela sob o meu queixo e tirei o capacete, ele parou de gargalhar. Um estranho olhar tomou conta de seu rosto e sua 
boca ficou entreaberta.
        Olhei para ele, ento puxei e torci rapidamente o cabelo em um coque frouxo e descuidado, retomando a comer. No conseguia pensar em nada interessante para 
falar. Eu mastigava e admirava os ombros largos e as costas fortes de Luke Hartly, imaginando por que ele deveria estar ali.
        - O seu amigo Ovos Mexidos - disse Jack - est se preparando com o treinador de ginstica olmpica da faculdade neste vero? Ouvi dizer que esse treinador 
 o melhor da regio.
        - Ele est? - perguntei. - Voc quer dizer que Luke deve ficar aqui durante o vero? - "Aqui, durante o vero, como eu?", pensei. Luke e eu no mesmo campus 
- e Heather bem longe, danando com alguma companhia. Logo que esse pensamento passou pela minha cabea, a velha culpa apareceu.
        - Voc est ficando vermelha - observou Jack.
        Esfreguei minhas bochechas.
        Ele sorriu, mas no teve muito mais o que falar enquanto comamos. E eu no me importei nem um pouco. Minha cabea no parava de funcionar: precisava de 
algumas informaes, fazer um pequeno plano e passar algumas horas sonhando.

Dois

        Enquanto atravessava o corredor a passos largos, procurando pela sala 212, que tinha sido transformada em um escritrio para o acampamento Sunburst, eu me 
sentia totalmente confiante. O zper da minha cala estava fechado, a camisa abotoada, o cabelo cuidadosamente preso em uma longa trana que caa pelas minhas costas; 
e, na loja do centro acadmico, comprei um par de meias brancas na conta da minha me, diretora do departamento de ingls da faculdade. Estava pronta para enfrentar 
todo mundo, principalmente as crianas. Brincadeira: adoro trabalhar com crianas pequenas e cheias de energia.
        - Voc deve ser Carly McFarlane.
        Um rapaz alto e sardento, com o cabelo loiro e as mos to largas quanto uma luva de cozinha, estava em p na entrada do escritrio.
        - Harry Klein? - perguntei.
        - Isso- respondeu o chefe dos monitores.- Entre e conhea a galera. Pessoal, esta  a nossa monitora de esportes.
        Entrei na sala e parei. A garota de visual extico que eu quase
havia atropelado com minha bicicleta sorriu calmamente para
        - Eu sou a Anna - disse ela.
        - Pamela - falou uma menina novinha com um cabelo cheio de mechas coloridas e uma maquiagem bastante pesada.
        - Hau - um garoto magrelo com pequenos olhos pretos acenou para mim.
        - Agente j se conhece - disse o monitor ao lado dele.
        - Oi, Jack - falei, tentando esconder a minha surpresa.
        Ele estava sorrindo, sempre sorrindo.
        - Demais, gente! Excelente! - disse Harry, batendo palmas como se tivssemos acabado de fazer algo muito extraordinrio ao nos apresentarmos. - Agora, vamos 
nos divertir um pouco.
        Comeamos a reunio conversando sobre as crianas. O Sunburst era um acampamento gratuito para alunos da primeira  terceira srie que eram trazidos dos 
bairros da periferia. Harry, recm-formado na faculdade Kirbysmith, tinha gastado boa parte do semestre passado na vizinhana das crianas e nos falou sobre suas 
casas, escolas e ruas; era tudo bastante desolador.
        Como todas as crianas, elas querem diverso - disse, com o olhar distante por um momento, como se estivesse de volta aos bairros da periferia. - Mas so 
desesperadas por ateno. E j presenciaram coisas nas ruas e em suas prprias casas que nenhum de ns gostaria de saber.
        Discutimos quais eram os nossos objetivos para as quatro semanas de acampamento e alguns procedimentos gerais. Nosso dia seria dividido em dois perodos 
antes do almoo, e dois aps o almoo. Anna, que estava no ltimo ano da faculdade e era uma aluna da Educao como Harry, havia sido contratada como monitora de 
leitura e de matemtica. Jack era o monitor de msica e artes. Descobri que ele tinha acabado de se mudar para Baltimore e que iria comear a faculdade, assim como 
eu.
        Pmela, de 15 anos, era irm mais nova de Harry e estava como voluntria. Iria monitorar as atividades livres. Eu fiquei responsvel pelos esportes,  claro. 
E Hau, um calouro da faculdade, era o monitor de ingls; iria praticar ingls o dia inteiro com dez crianas vietnamitas que ficariam sob sua responsabilidade.
        Assim que a reunio terminou, Harry, que andava balanando os braos ao lado do corpo como um chefe de escoteiros, nos acompanhou at o estacionamento onde 
as crianas seriam deixadas todos os dias. Alguns minutos depois, um grande nibus amarelo, repleto de braos que acenavam para fora das janelas, chegou sacudindo 
ao som de diversas vozes e encostou prximo ao meio-fio.
        Levou um certo tempo para agrupar as crianas no ginsio. Posso estar enganada, mas acho que alguns ces pastores teriam ajudado. Filas para o banheiro foram 
formadas. Depois disso, crachs com nomes foram entregues. Harry acalmou as crianas e falou sobre as regras. Ento, os grupos foram levados para almoar no refeitrio.
        - Ainda bem que tomamos caf - observou Jack vinte minutos mais tarde.
        Dos seis monitores, somente Harry ainda tinha apetite. Eu j havia trabalhado antes como baby-sitter e professora de educao fsica e estava acostumada 
a ficar rodeada por crianas. Mas ali eu descobri que algo acontece quando cinqenta e oito delas se juntam. Elas descobrem inmeras maneiras de destroar os seus 
sanduches.
        Depois do almoo, dividimos as crianas em quatro grupos - primeira, segunda e terceira sries e os estudantes vietnamitas. Cada lder ficou com um grupo 
por um turno. Eu me dei bem com o grupo da primeira srie, que, ao se separar das outras crianas, ficara repentinamente tmido. Brincamos de "batatinha 1,2,3" de 
modo bem civilizado e, depois disso, a terceira srie chegou num
alvoroo. 
        Muitas crianas j tinham perdido ou rasgado o crach, e algumas decidiram que seria melhor no me falar quem eram.
        - Tudo bem, moada - disse - Darei um nmero para cada um. Voc  cem. Voc  trs. Voc, dezoito. E voc, setenta. No esqueam.
        - Eu sei o nome deles - se ofereceu uma garota com o cabelo da mesma cor que o meu, preso no alto da cabea com duas fitas espalhafatosas. Janet. O seu crach 
estava em perfeito estado e provavelmente continuaria assim por mais quatro semanas.
        - Aquele  o Eugene - denunciou, apontando para um menino com a pele morena e um cabelo preto quase todo raspado.
        - No sou.
        -  sim.
        - No sou!
        -  sim!
        - Ele  o setenta - eu disse firmemente.
        Mas Janet estava determinada a entregar todos:
        - Aquela  a Maria, o Jackson e o Keith.
        As crianas a encararam com raiva. Senti uma vontade enorme de cham-la de dedo-duro, mas me lembrei que a adulta ali era eu.
        Comecei a organizar as crianas para um jogo de "polcia e ladro". Eu pensei que se comeassem a perseguir uns aos outros em um grande campo iriam gastar 
aquela energia toda. Avistei Harry vindo do centro acadmico com uma grande caixa. Uma senhora alta e magra o acompanhava segurando outra caixa. Meus dezesseis amorzinhos, 
reconhecendo Harry como o chefe do acampamento, repentinamente pararam de girar em crculos, arrancar a grama com as mos e amarrar os cabelos e cadaros dos coleguinhas. 
Sim, por um momento eles se tornaram anjos.
        Harry me apresentou  senhora Mulhaney, membro da igreja que patrocinava o acampamento. Dirigiu-se s crianas, explicando que havia trazido algo para elas 
brincarem. Olhei para a caixa e depois para Harry, achando que ele estava maluco. Era um conjunto de arcos e flechas. Obviamente, as flechas possuam uma proteo 
de borracha nas pontas, mas qualquer um que conhece uma turma de terceira srie sabe que basta um objeto diferente para surgirem diversas maneiras de us-lo.
        -  por pouco tempo - Harry cochichou em meu ouvido ao sair. - Use uma vez e depois ns guardamos tudo no armrio.
        Bem, ningum conseguiu acertar o centro do alvo naquele dia. Mas um menino - eu sei que isso  difcil de acreditar - pegou um esquilo, e eu levei duas flecha 
das na bunda. Querido setenta.
        O arco e flecha deve ter impressionado bastante as crianas. Quando eu retomei para o escritrio do acampamento no final da tarde, Hau, Pmela, Anna e Jack 
estavam sentados no cho olhando os desenhos feitos pela turma da terceira srie. Eles olharam para mim e sorriram ironicamente.
        - Eu estava com medo de ver as mesmas coisas de sempre, avies e flores - disse Jack.
        Mas no. Ele tinha recebido vrios desenhos repetidos de uma garota com uma trana vermelha e uma flecha fincada na testa.
        - Obrigado por ser uma grande instrutora de esportes - elogiou Harry, colocando suas grandes mos em meus ombros.
        - Claro, claro - repliquei, sorrindo. Queria matar Jack.
        Naquela tarde, fiz o longo caminho de volta para casa, pedalando lentamente pela faculdade, relaxando um pouco e aproveitando o frescor das rvores. A praa 
com prdios antigos de tijolos sempre me pareceu muito sossegada. Mais adiante, Kirbysmith se expandia de uma maneira meio desordenada. Prdios novos com uma arquitetura 
moderna foram sendo dispostos em ngulos esquisitos conforme a faculdade comprava novos terrenos. A maioria deles era feia. Mas, escondido num dos cantos da faculdade, 
havia um pequeno bosque de carvalhos cortado por um crrego com uma ponte. Foi ali que eu parei.
        Queria pensar sobre Luke. Imaginar como ele olharia para mim com aqueles olhos verdes maravilhosos. Quando vi o seu corpo esticado sobre a ponte de madeira, 
no estava certa se havia imaginado aquilo tambm. Ele estava to imvel que parecia morto. Entrei em pnico.
        - Socorro! Algum me ajude! -larguei a bicicleta e corri em sua direo.
        Luke levantou a cabea e olhou rapidamente ao redor.
        - Oh! Desculpe - disse. - Eu me enganei - comecei a recuar.
        Ele se virou e me fitou com olhos curiosos.
        - Eu... eu pensei que voc estava machucado - expliquei.
        Um sorriso iluminou seu rosto e ele se levantou. Olhei fixamente para ele como se nunca tivesse visto um garoto antes.
        - Eu no conheo voc? - perguntou, inclinando levemente a cabea. - Voc no estudou no colgio Eisenhower? Era chefe de uma torcida, no era?
        Eu, que sempre havia dito que as garotas que organizam torcidas deviam ter espremido o crebro para fora de suas cabeas quando crianas, estava completamente 
desarmada com aquele elogio.
        - No - respondi timidamente. - Eu... h... jogo basquete. E hquei.
        -Uau!
        - Uau! - repeti.
        - Eu acho que j vi voc antes. Est trabalhando no campus neste vero? - perguntou ele.
        - Sim. Quer dizer, no. Estou trabalhando temporariamente. Sou uma monitora.
         -Uau!
        Parecia que essa era a palavra "do momento".
        -E voc, Luke? - falei, antes de me lembrar que ele ainda no havia se apresentado. Mas, pelo jeito, ele no percebeu nada ou j esperava que eu soubesse 
o seu nome.
        - Estou treinando com o instrutor Inyart. Ele  excelente em ginstica olmpica.
         - Ua... demais!        
        - Qual o seu nome? - perguntou.
        - Carly. E o seu?
        Ele sorriu gentilmente
        - Fico feliz em encontrar voc voc, Carly. No conheo ningum no campus.
        - Mesmo?
        "Muito obrigado, muito obrigado, estrelas da sorte", pensei. - Bem, o nosso escritrio fica no centro acadmico - falei alto - Acampamento Sunburst. Sala 
212.
        Ele sorriu e acenou com a cabea.
        - Espero encontrar voc de novo. 
        - ... - disse, enquanto subia em minha bicicleta.
        -Espero encontrar voc bem em breve- ele acrescentou.
        Meu corao disparou. Por um momento silenciei toda a minha excitao, todas as frases bobas que atravessavam a minha mente. "Acorde, Carly, seja interessante 
e divertida." 
        - Cuidado com o que voc deseja - eu o preveni. - Hoje, eu j encontrei e quase matei duas pessoas.
        Ele riu e eu sa com minha bicicleta. Estava me sentindo o prprio garoto do E.T., pedalando no cu.
        Ao chegar na garagem de casa, desci rapidamente da bicicleta. Joelle, na cozinha, amassava estranhos montes de carne moda semicongelada e colocava-os em 
um prato.
        -  Hummm - eu disse, entrando pela porta.
        - No precisa debochar - retrucou ela. 
        O suor escorria pelo canto de sua testa. Nossos pais, que organizam caprichosamente a nossa vida como se fossem planos de aula, estavam nos fazendo suar 
at exatamente o dia 21 de julho; s ento, quando Joelle entraria no quarto ms de gravidez, poderamos ligar o ar condicionado na potncia mxima.
        - No estava debochando. Eu no almocei.
        - Como foi o acampamento?
        - Acampamento?
        Minha irm me olhou intrigada.
        - Ah, o acampamento! Legal.
        - Heather ligou - disse.
        - E?- eu roubei um pedao de carne crua.
        - Voc vai pegar verme - avisou.
        - A voc me leva pro veterinrio. E...?
        - Ela quer que voc a encontre no shopping.
        -E?
        - Ela quer lhe dar uma roupa. Pra se desculpar pelo garoto que ela roubou de voc ontem  noite.
        - O qu?
        - Brincadeirinha - falou Joelle.
        No havia sido nada engraado.
        - Ela vai estar no Tanzini's. s seis horas. Sabe o que eu tenho me perguntado? - Joelle disse enquanto cobria o hambrguer com papel alumnio e o colocava 
no refrigerador. - Eu tenho me perguntado se a Heather escolhe os seus namorados.
        - Sobre o que voc est falando, Joelle?
        Ela pegou um punhado de alface e comeou a lav-Ias.
        - Por acaso, a Heather fica sugerindo com quem voc deve sair? Afinal, ela  sempre a prxima da fila.
        Eu fitei minha irm, esperando que ela levantasse os olhos novamente. Joelle fingiu um ar de inocncia.
        - Voc nunca gostou da Heather.
        - No  esse o caso, Carly. A questo : por que voc gosta dela? Ela usa voc.
        - No usa! - gritei, me arrependendo agora por todas aquelas cartas cheias de sinceridade que havia escrito para Joelle enquanto ela estava na faculdade, 
longe o suficiente para que ficasse prxima. - Heather  tmida e isso acaba se refletindo nessas situaes.
        - "Leve todos eles! Eles so todos seus, Heather!" - disse minha irm. - Isso deve ter sido de algum sonho da noite passada. Por que voc  to otria, Carly?
        Eu podia sentir um calor subindo dentro de mim. -  uma sorte pra voc e pro Camarada que eu seja assim - Camarada era o modo como eu chamava o beb de Joelle. 
- Maldita
sorte sua e do Camarada que eu seja do tipo que divide!
        Aquilo terminou com a conversa. Minha irm sabia sobre o que eu estava falando. Alm de roubar um espao que havia se tornado meu depois que ela foi para 
a faculdade, ela e o Camarada  estavam exigindo um dinheiro que havia sido poupado para a minha formao. Graas ao seu erro estpido, eu e ela estvamos confinadas 
a permanecer em casa e cursar a faculdade Kirbysmith.
        - Acho que voc vai querer o seu hambrguer mais cedo hoje  noite - disse com o rosto plido. - O que mais vai querer comer? - Nada, vou comer no shopping- 
sa da cozinha e subi a escada pisando duro nos degraus, desejando que ns no tivssemos que brigar toda vez que conversssemos, e que, quando brigssemos, no 
dissssemos tantas verdades que machucam.

Trs

        Assim que meu pai chegou em casa, peguei o carro dele e fui para o shopping. Eu e Heather sempre nos encontrvamos no Tanzini's. Aloja vende malhas, meias-calas 
e sapatilhas para bailarinas. No ltimo inverno, Heather me convenceu a experimentar um minsculo collant.
        - Querida, como voc  forte! - comentou a vendedora naquele dia. De fato, ao lado de Heather, parece que eu sou o bailarino que tem a funo de levantar 
a parceira. .
        Quando cheguei, avistei Heather em p no meio da loja, parecendo bastante indecisa. Ela nem percebeu a minha chegada, estava muito preocupada para notar 
que eu a estava seguindo em direo ao balco.
        - Eu gostaria de troc-las, por favor - ela disse com uma voz rouca.
        - Troc-las?!- disparei. - Por qu?
        Ela e a vendedora viraram-se rapidamente. Os olhos cinza de Heather se arregalaram de surpresa e suas bochechas chegaram a ficar vermelhas.
        - Quer dizer... Heather, ns gastamos duas horas aqui semana passada escolhendo essas malhas.
        Ela confirmou com a cabea e desviou o olhar.
        - Eu sei - disse baixinho. - Mas quando vou poder us-Ias?
        - Quando voc danar.
        - Eu no consegui - ela disse, ainda sem me olhar.
        - No conseguiu... a companhia Krapov? - senti um aperto no corao. Eu sabia quanto ela queria entrar para aquela companhia de dana.
        Ela baixou os olhos e se virou para o balco.
        - Queria troc-las - disse para a vendedora.
        - Desculpe, mas ela no vai trocar nada - interrompi, retirando as malhas da mo da mulher.         - Escute, Heather, voc ainda vai precisar delas. Voc 
no vai parar de danar.
        Seus dedos se enroscaram em uma mecha dos longos cabelos loiros.
        - Eu no sou boa suficiente. Tenho de aceitar isso - disse e pegou a sacola de novo. - Eu gostaria de trocar...
        - Obrigada - impedi, puxando a sacola. - Mas acho que ela no vai trocar.
        - Bem, quando vocs duas se decidirem, me avisem - a vendedora resmungou e se afastou. .
        Agarrei o ombro de Heather e a empurrei para fora da loja em direo  praa de alimentao. Andamos em silncio. Toda vez que eu olhava para o lado, ela 
estava piscando os olhos que no paravam de se encher de lgrimas. Entrar para a Krapov era o sonho de sua vida e ela, desde o vero passado, vinha se preparando 
para isso. Eu s esperava conseguir dizer as coisas certas naquele momento.
        - Heather, eu vejo voc danar h dez anos - disse depois que j estvamos sentadas, atacando um calzone. - Voc  uma bailarina incrivelmente talentosa. 
Voc  boa o suficiente. Acredite em mim.
        - Mas voc sempre me disse que no entendia nada de bal -lembrou ela.
        - Realmente,no entendo - admiti -, mas eu sei tudo sobre voc. E sei que voc no  do tipo que desiste facilmente. Voc s  muito teimosa. Quer dizer, 
persistente.
        Seu lbio inferior comeou a tremer e ela cobriu a boca com o punho.
        - Ser persistente no  a mesma coisa que ser talentos a - afirmou.
        - No.  muito mais difcil.
        Heather abriu um pequeno sorriso.
        - Tudo o que voc precisa agora  um pouco mais de confiana - continuei. - E da professora certa. Precisa achar a professora certa que vai aumentar a sua 
confiana neste vero.
        - Talvez- eu vi uma ponta de esperana em seus olhos.
        - Est tudo aqui - falei, batendo de leve com a mo na cabea. - Voc pode conseguir. Se acreditar que pode, os outros tambm acreditaro.
        Os seus olhos me disseram que ela queria que isso se tornasse verdade.
        - Como voc sabe essas coisas, Carly?
        Soltei uma gargalhada.
        - No se lembra do grande sermo que voc me deu no ano passado, quando eu perdi aquele lance livre nos segundos finais do jogo de basquete do torneio? No 
se lembra de quando eu decidi tentar ser lanadora? E dos bilhetes que me escreveu depois de todos aqueles miserveis jogos de hquei em que voc e mais quatro parentes 
foram assistir? Eu guardei aquelas cartas, sabe?
        Ela esticou o brao por cima da mesa, colocando seus dedos macios sobre a minha mo sardenta.
        - Se voc no continuar tentando - argumentei -, como ]eu vou ter fora para continuar na prxima vez em que me sentir uma fracassada?
        Ela balanou a cabea, concordando.
        - Acho que eu vou ter de continuar, ento. Falando em fracasso... - disse docemente - sobre o Tim...
        Eu fiz que no me importava, enquanto comia um fio de queijo derretido que saa do meu calzone.
        - No, escuta - ela insistiu. - Eu liguei pra ele esta manh e desfiz o meu convite. Noite passada, quando eu o convidei para ir at a minha casa, achei 
que poderia ser divertido para ns trs
passar o sbado na piscina. Mas falei com ele hoje e disse que seria um programa s para garotas.
        - Mas ele vai ficar to desapontado! - protestei.
        Ela olhou surpresa para mim. No, eu no havia enlouquecido, mas passou pela minha cabea que se Heather corresse atrs de Tim, eu ficaria livre para investir 
em Luke.
        - Bem,ele realmente parecia desapontado - admitiu, encolhendo um pouco os ombros.
        Como se existisse algum garoto na face da terra que no ficaria! A piscina de Heather no chega a ser grande, mas  linda.  l onde o seu padrasto diverte 
os clientes dele, e as amigas da sua me se renem para fofocar. No deck existe um grande aparelho de som e um frigobar cheio de bebidas. E Heather sempre usa um 
biquni minsculo.
        - Ento, convide ele novamente - insisti. - Joelle tem outra consulta mdica no sbado e eu preciso lev-la. Pelo menos voc vai ter algum com quem passar 
o dia. 
        Heather me fitava com curiosidade.
        - Voc ainda gosta do Tim?
        Uma pergunta traioeira. Se eu dissesse que no, ela perderia o interesse. Ao mesmo tempo em que precisava deix-la livre para agir, eu tinha de convenc-la 
de que ainda o queria. Nada assustava mais Heather do que um rapaz realmente livre.
        - Claro que sim. Inclusive, acho que vamos ao cinema no sbado  noite.
        De repente, ela pareceu estar realmente satisfeita.
        - Bem, se voc insiste...
        Quando cheguei em casa naquela noite, estava to bemhumorada que at a minha irm percebeu.
        - Com licena, mas voc no pra de sorrir e est com vrias peninhas amarelas saindo de sua boca.
        - Como o gato que engoliu o canrio? - perguntei, tirando os meus sapatos.
        - Na verdade, talvez seja cabelo amarelo - Joelle observou.
        - Como est Heather?
        Eu me esparramei na cama.
        - Bem. Super bem! Fazendo o que ela sabe fazer melhor!
        - Todos os dezesseis precisam mesmo voltar? - perguntei ao Harry na manh seguinte, enquanto as crianas da terceira srie, que naquele dia tinham trazido 
roupa de banho e toalha, entravam de volta no nibus que havia acabado de deix-los em Kirbysmith havia apenas quinze minutos.
        A piscina da faculdade era muito funda para as crianas e Harry tinha conseguido uma piscina no Willowbrook Country Clube. Imaginei que o clube devia ter 
oferecido um enorme desconto ou o Harry conseguia milagres. Principalmente porque os membros do clube Willowbrook no eram famosos por sua preocupao social.
        - Hau ficar fora com o grupo dele durante o segundo turno.
        Se o nibus atrasar, deixe as crianas jogando golfe por um tempo - ele disse, sorrindo para mim. - Tem tudo o que precisa? O que  isso? - apontou para 
a garrafa de caf que eu carregava.
        -  um coletor de chicletes. Ns no queremos ver um monte de coisas grudentas flutuando entre as pessoas do clube, no ?
        Harry concordou com a cabea.
        - Uma monitora que est preparada para tudo.
        Bem, no para tudo. Eu no estava preparada para o silncio provocado pelo espanto das crianas assim que entramos no estacionamento do clube.
        - Eu s quero rolar e rolar e rolar e rolar naqueles montes de grama verde - disse April, uma gordinha de pele morena que usava uma dzia de presilhas brilhantes 
no cabelo. No pouco tempo que j havia passado no acampamento, April tinha estabelecido que era a "me" da terceira srie. Eu gostaria muito que ela pudesse ficar 
uma hora l fora, rolando na grama verde.
        E estava ainda menos preparada para a posio estratgica de duas grandes bolas de chiclete grudadas na esttua de uma sereia peituda que ficava ao lado 
da piscina. Dei a garrafa de caf e um pedao de papel para Janet, a minha dedo-duro favorita, pedindo que ela tivesse certeza de que no havia mais nenhum chiclete 
por l.
        Eu tambm no estava preparada para Kevin, um garoto plido e magrinho que me fitou desafiadoramente quando eu pedi a todos que tirassem a roupa.
        - Kevin,voc ouviu o que eu disse?- perguntei baixinho.
        - Por favor, tire.
        Ele no se moveu. Nem piscou.
        "Ser que ele esqueceu de vestir a sunga?", imaginei. "Ser que  muito pobre para comprar uma? Talvez s esteja com medo da gua."
        Eu me agachei perto dele.
        - Kevin, voc est usando uma sunga por baixo?
        Ele encolheu os ombros.
        Ser que teria algum problema se desse uma espiada?
        Alguns metros adiante, um rapaz que havia sido indicado como nosso salva-vidas estava tomando uns goles de caf de uma garrafa trmica. Fui em sua direo.
        - Com licena, acho que eu tenho um probleminha aqui - disse e sussurrei o meu pedido.
        - Isso no  problema meu - respondeu calmamente. E saiu andando, ainda bebendo.
        - Eu pensei que talvez voc estivesse aqui para ajudar - gritei atrs dele.
        Ele continuou andando.
        - O que voc precisa? - perguntou uma voz mais atenciosa.
        Um cara alto e moreno estava ao meu lado. Ele era um tipo bem interessante, forte e elegante em suas roupas de jogador de tnis. Fiquei surpresa com sua 
preocupao.
        Depois que expliquei o problema, ele foi com Kevin para o outro lado da piscina. Enquanto isso, eu levei as outras crianas para a gua. Harry havia me contado 
que a maioria delas estava mais acostumada com extintores de incndio do que com piscinas. Obviamente que o setenta, que nessa manh queria ser chamado de Eugene, 
e insistiu em me chamar de "tia", imediatamente tentou nadar para o lado mais fundo. No foi difcil peg-lo; ele mal conseguia nadar cachorrinho. O resto do grupo 
permaneceu obediente perto da borda, com os olhos brilhando e os dentes batendo de frio. Dez minutos depois, Kevin juntou-se a ns.
        O bonito do clube se agachou ao meu lado perto da piscina. Seu cabelo queimado de sol caiu sobre a testa. Seu olhar percorreu o meu rosto e parou abaixo 
dos meus ombros.
        - Consegui uma sunga para ele no Achados e Perdidos, mas ficou um pouco grande.
        De fato, se enchssemos aquela sunga de ar pareceria que o Kevin estava enfiado em uma bia salva-vidas, mas fiquei muito agradecida pela ajuda.
        - Imagine! Obrigada. Muito obrigada.
        - Meu nome  Steve - disse ele. - E o seu... eu sei que voc tambm  scia daqui... voc parece to familiar...
        - No. Eu s estou aqui por causa do acampamento - disse, olhando para as crianas.
        - Ento, qual  o seu nome?
        - Carly - sorri por cima do ombro. - Muito prazer... eu tenho de fazer uma atividade com eles agora.
        Passamos o tempo fazendo diversos jogos, que era exatamente o que eu tinha planejado: uma atividade depois da outra. Diverso suficiente para que mesmo a 
mais tmida das crianas no percebesse que a gua tocava os seus lbios e espirrava sobre o nariz.
        Agora, as crianas j estavam fora da piscina, enroladas em toalhas e sentadas em fileiras sobre dois bancos. Eu havia me esquecido completamente de Steve. 
At que vi Kevin acenando timidamente e senti uma mo sobre o meu brao.
        - Agora eu me lembro de voc - disse Steve. - Carly McFarlane. Voc era uma garotinha de rabo-de-cavalo. A lder do grupo durante o recreio na terceira srie.
        No consegui esconder o meu espanto. E as crianas do acampamento ficaram olhando com interesse.
        Ele tirou os culos escuros.
        - Meu sobrenome  Dulaney. Na quarta srie eu mudei de colgio, ento talvez voc no se lembre...
        -  Steve Dulaney? Eu me lembro.  s que...  s que voc est to... to diferente - eu gaguejei. "To melhor", pensei. Um milho de vezes melhor! Seu cabelo 
de rato tinha se transformado em longos cabelos dourados pelo sol. Miraculosamente, seu antigo rostinho tmido havia tomado forma. Os ombros ossudos agora estavam 
mais largos; as pernas e os braos magros, mais musculosos, provavelmente graas ao tnis. E, acima de tudo, ele no parecia que ia comear a chorar a qualquer momento. 
"As pessoas realmente crescem", pensei.
        - Voc est timo! - falei entusiasmada.
        Ele retribuiu o meu sorriso.
        - Voc continua a mesma.
        - Ah, obrigada.
        - Ela no est mais alta? - perguntou Eugene.
        - Eu estava tentando me lembrar - disse Steve, brincando com seus modernos culos escuros. Era possvel ver o meu reflexo neles: meu cabelo seco, apesar 
de preso, estava eriado como se estivesse em chamas. - Voc no era muito amiga de uma garota chamada Heather?
        - Sou. Ns ainda somos muito amigas.
        - So? Ser que eu a reconheceria hoje em dia?
        - Ela continua bonita - disse.
        Ento meu crebro comeou a trabalhar. Heather ficaria ocupada com o Tim durante toda a semana, e talvez na semana seguinte, caso ele demorasse a tomar uma 
iniciativa. Mas, e depois? Tim, que pensava que msica clssica era o tipo de coisa que a Celine Dion cantava, certamente no era o homem dos sonhos de Heather. 
Ela gostava dele apenas porque eu gostava. E se eu achasse o par perfeito para ela? Steve reunia todas as qualidades para isso: bonito, elegante e cheio de dinheiro. 
Realmente valia investigar melhor esse cara.
        - A gente podia se encontrar num dia desses - sugeri. - Voc, eu e a Heather - mas, antes que eu pudesse anotar o nmero do meu telefone, avistei Harry vindo 
em nossa direo. - Opa, a vem o acampamento Sunburst. Tenho de pegar o meu prximo grupo. Estou sempre aqui pela manh - disse rapidamente - E em Kirbysmith  
tarde.
        - A gente se fala - ele respondeu, enquanto colocava os culos escuros.
        
        E, na verdade, ele no perdeu tempo.
        - Tem um recado para voc - disse Jack, assim que o encontrei com Anna no refeitrio. Ns trs ramos uma equipe que alternava com Harry, Hau e Pamela na 
monitorao do almoo.
        - Um recado? - no consegui esconder a curiosidade.
        - Sim, deixei no quadro de avisos do escritrio.
        Nessa hora, tive de sair andando. Meus olhos no desgrudavam dos alunos da terceira srie: alguns deles estavam sentados com as cabeas juntas, como se fossem 
pequenos conspiradores.
        - De onde voc conhece SteveDulaney?- perguntou Jack, de longe.
        - O qu?
        - Steve Dulaney. Ele disse que espera que voc e Heather estejam livres na quinta  noite.
        - Voc leu o recado!? - exclamei.
        Pelo canto dos olhos pude ver duas inocentes crianas da primeira srie passando tubos de catchup  para o pessoal da terceira. srie, que j tinha mais do 
que o suficiente em sua mesa. Anna e eu pegamos um tubo cada uma e os colocamos de volta onde estavam.
        - Eu atendi o telefone - explicou Jack. - Steve vai dar uma festa. Quinta  noite. Ele disse para vocs irem depois das oito e meia. Vai ter um monte de 
gente l.
        - Estou surpresa que voc no tenha se convidado.
        - No preciso - ele replicou calmamente. - Ele j me convidou na semana passada.
        -Ah!
        - Somos vizinhos.
        -Ah!
        Depois disso, Jack ps a mo no ombro de um aluno da segunda srie que estava ameaando os coleguinhas da mesa com uma faca de plstico.
        - Franklin, se machucar os seus olhos com essa faca - avisou Jack - como voc vai continuar fazendo aqueles desenhos incrveis?
        - E ento virou-se para mim: - Quem  Heather?
        - Heather?
        "Bem, bem", pensei. Mais um para a lista: Tim, Steve e jack, e Jack era um msico, um verdadeiro artista. Ele poderia ser o par perfeito. O nico problema 
 que eu no queria ver Heather em lugar algum perto do ginsio onde Luke treinava. Mas, pensando bem, ela provavelmente ficaria o dia inteiro em um estdio de dana 
do outro lado da cidade. Talvez ela  e Jack s se encontrassem
 noite.
        - Eu vou apresentar voc a ela na festa - respondi.- Tenho certeza de que vocs vo se dar bem. Ela  linda.
        Ele soltou uma gargalhada e repentinamente ficou esttico.
        - Eugene!
        O nmero setenta estava armado com um elstico, atirando palitos de cenoura mergulhados em catchup. Ele j havia acertado diversas cabeas, quando a mesa 
da segunda srie resolveu organizar um contra-ataque. Eles no tinham muita coisa nas bandejas, apenas uns potinhos com molho de salada que comearam a voar na direo 
de um menino com bon. Eu corri ao redor da mesa da terceira srie recolhendo os palitos de cenoura de Eugene, certa de que os outros no teriam coragem de arremessar 
nada.
        Errada. Totalmente errada. Splat! Splat! Molho de salada comeou a escorrer pela minha testa e pelo meu brao.
        - Voc! Moleque! - gritou Eugene, que nunca perdia uma oportunidade. - Voc acertou a tia! - Ele segurava um  catchup, vido para se vingar em meu nome, 
mas Jack estava logo atrs dele, pronto para arrancar o tubo de sua mo.
        - Ooopa! - disse Jack. - Desculpe.
        - Ah!- eu desviei meu corpo um segundo atrasada. - Ahhh!
        Uma gosma gelada grudou em minhas bochechas. Cinqenta e oito crianas se calaram. O silncio foi se espalhando como uma onda por todos os cantos do refeitrio. 
Fiquei paralisada, sentindo o  catchup escorrer por um lado do meu rosto e o molho de salada caindo pelo outro. Jack afundou o queixo no peito e deu uma olhada em 
mim, se controlando para no rir. Mas pude notar os seus ombros se sacudindo.
        As crianas piscavam os olhos, sem acreditar na cena que viam. Mal conseguiam se segurar. Bastou que um menino da primeira srie soltasse uma gargalhada 
para que todos comeassem a se contorcer de tanto rir.
        Harry, que presenciara tudo da entrada, rapidamente acompanhou Eugene e Terry, o menino que tinha lanado o molho de salada, para fora do prdio.
        - Por que voc no leva o Jack tambm? - resmunguei, o que fez com que Harry desmanchasse a cara sria que estava tentando manter.
        - Desculpe, Carly. Escapou - falou Jack.
        Apenas Anna no riu, mas seus olhos no paravam de se mover.
        - Aqui - ofereceu Jack, com a voz trmula, tentando prender uma gargalhada.- Deixe que eu limpo isso.
        - Posso resolver isso sozinha.
        - No fique irritada comigo, Carly - sua voz era tranqila e suave, como se estivesse acalmando uma criana. - Tenho outra camiseta na mochila. Quer emprestada?
        - Obrigada. Prefiro passar a tarde inteira atraindo abelhas.
        - T bom. Faa do 'seu jeito - ele balanou os ombros e esticou a mo com um mao de guardanapos.
        Agarrei-os e sa andando a passos largos com toda a dignidade que consegui reunir. Mas no fui muito longe.
        - Carly, oi! - Luke me cumprimentou.
        Ah, no!!!
        - Como est? - perguntou, com seus olhos verdes brilhando.
        Os seus colegas da ginstica olmpica - eles s podiam ser uma equipe de atletas, seno por que setes corpos perfeitos com toalhinhas sexies ao redor dos 
pescoos suados estariam juntos em uma fila do refeitrio? - me olhavam de cima a baixo e soltavam risadinhas.
        - tima - disse. - E voc?
        - Bem. O treinador est me ajudando a ser o melhor que eu posso - disse ele, sorrindo.
        - Que bom ouvir isso.
        Do outro lado da mesa, Jack observava a minha conversa com curiosidade. Enquanto isso, o molho de salada e o  catchup comeavam a endurecer e a repuxar a 
minha pele. Queria fugir dali o mais rpido possvel.
        Ento, Luke me surpreendeu. Ele deu um passo em minha direo, hesitou um pouco e chegou mais perto. Devagar, tirou a toalha do pescoo.No pude deixar de 
admirar quando o seupeito e seus ombros apareceram por baixo da camiseta. E gentilmente, muito gentilmente,
Esfregou o meu rosto, meu pescoo e meus braos. Por um momento, desejei que as crianas tivessem jogado mais.
        - Pronto.Est melhor?
        - Ah- disse sem ar.- Obrigada.
        Ele dobrou a toalha cuidadosamente e colocou-a em minhas mos. Fiquei me perguntando se eu precisaria devolv-la.
        - A gente se v por a - falou Luke, sorrindo docemente para mim.
        Fiquei olhando enquanto ele voltava para a fila do refeitrio.
        Alguns minutos depois, Jack passou por mim com um sorriso malicioso.
        - Atraindo abelhas...- comentou.

Quatro


        Terry, o menino que tinha jogado o molho de salada, me inspirou. Naquela tarde, quando a segunda srie apareceu, dei um kit de beisebol para eles. As crianas 
adoraram as luvas antigas que a igreja havia separado. Alguns faziam poses como se fossem verdadeiros jogadores, outros preferiram usar as luvas como se fossem chapus. 
Logo, foram para as bases e comearam a girar os braos como moinhos de vento, lanando bolas para os batedores.
        Quando chegou a hora de recolher tudo, no encontrei uma bola, justamente a que eu havia rebatido. As crianas se espalharam para procurar, at que Miguel 
gritou atrs da terceira base. Ele estava bem alm do limite do campo, perto de uns pinheiros cheios de arbustos.
        - Tia Carly! - gritou, fazendo um lanamento com a bola que me deixou admirada.
        Quando retomei para o escritrio do acampamento ao final do dia, contei sobre o lanamento perfeito de Miguel para Anna e Hau.
        Eles se entreolharam.
        - Voc deveria dizer a ele que foi incrvel- falou Hau.
        Anna concordou.
        - Estvamos mesmo conversando sobre Miguel. Achamos que ele passa por uma situao difcil em casa. Provavelmente sofre algum tipo de abuso, apesar de no 
existir nenhuma evidncia fsica. De qualquer modo, seria muito bom para ele receber um elogio.
        - Para todos eles - Harry completou, atravessando a porta do escritrio. - At mesmo Eugene... se ele nos desse algum motivo para elogi-lo. Carly, aqui 
est uma mensagem de desculpas do seu colega.
Querida professora,
   Me desculpa. Eu jogueicatchup em voc.
   Eu quero pedir desculpa pelo molho da salada tambm.
   Eu prometo no rir alto de novo.
   Mas voc estava engrassada.
              Seu amigo,
              Eugene, 70
        - E aqui est um bilhete do Terry - acrescentou Harry.
        - E o do ]ack? - perguntei. Ele havia entrado com o Harry e estava descarregando um carrinho de mo abarrotado com livros, pincis, tintas, um toca-CD,pacotes 
de macarro e cereais.
        Um canto da boca de Jack se levantou.
        - Voc no  muito agradecida - observou. - Eu aposto que o Ovos Mexidos... 
        - O nome dele  Luke.
        - ...nem teria percebido que voc estava usando uma barba de molho de salada. Foi o catchup vermelho que fez com que ele notasse que voc estava suja.
        Com certeza, eu adoraria que ele tivesse me notado - suspirou Pamela, esparramada na cadeira, ajeitando uma unha que havia quebrado.
        - Bem, falando de rapazes que notam - Jack esticou o brao para o alto e apanhou um pedao de papel rosa do quadro de avisos -, seu recado. Eles esto fazendo 
fila, no  mesmo? Acho que at o seu amigo, Eugene, tem uma quedinha por voc.
        Peguei o papel sem dizer uma palavra. Sabia que ele s estava provocando, mas, nos ltimos dias, eu estava me sentindo um pouco sensvel em relao s minhas 
experincias com os garotos.
        - Bem- falei, enquanto pegava o capacete da bicicleta, tenho de ver uma amiga antes de chegar em casa, e preciso me livrar dessa camiseta antes que eu comece 
a cheirar como um monte
de adubo.
        Jack me agarrou suavemente pelo brao e colocou uma camiseta em minhas mos.
        - Vista. No seja to teimosa, Carly. Vai se sentir melhor.
        Bem, eu no queria aparecer na casa da Heather cheirando lixo e como eu nunca conseguia me enfiar em um dos tops dela, acabei aceitando a camiseta. Dez minutos 
mais tarde, depois de esfregar minhas bochechas e lavar algumas mechas pegajosas de cabelo, retomei para o escritrio. L, comecei a sentir um cheiro suave - um 
perfume de ervas, mas bem masculino. Um aroma muito gostoso. Levantei a gola da camiseta para perto do meu nariz.
        - Eu a vesti por apenas quarenta minutos e num lugar com ar-condicionado! - jack se defendeu.
        No havia visto que ele estava no escritrio. Todos j tinham ido embora. Abaixei a camiseta rapidamente.
        - ... h... macia. Obrigada por me emprestar.
        - De nada - Jack estava fitando o meu cabelo, que comeava a se arrepiar com a umidade.
        - No consigo evitar - falei, colocando as mos rapidamente na cabea, soando to defensiva quanto ele. -  assim que ele cresce.
        Jack ficou sorrindo at que eu desviei o olhar e, ento, recomeou a contar folhas de papel colorido. Assim que terminou, cheguei mais perto dele.
        - Percebi que voc no mostrou a ningum o que a turma da terceira srie pintou hoje  tarde. Aposto que sei qual foi o tema preferido deles.
        Ele soltou uma gargalhada.
        - As crianas so fascinadas por voc. Qual o problema disso?
        - Nenhum,  s que... - mordi a lngua.
        - O qu?
        - Nada no.
        - O qu? - perguntou de novo, suavemente.
        - Ah, no sei. s vezes, eu gostaria de ser um pouco diferente - murmurei. - Bem, tenho de ir.agora.
         - Diferente em qu?
        - Mais delicada.
        Jack tentou parar de gargalhar e acabou bufando.
        - Desculpe - disse e pigarreou para limpar a garganta. - Desculpe. Certo... delicada. - Como uma bailarina. E talvez loira.
        - Voc gostaria de ter cabelos loiros e lisos? - perguntou, olhando nos meus olhos.
        - Sim. Loiro, caindo como seda.
        - E talvez voc quisesse ser alguns centmetros mais baixa - sugeriu.
        - Com certeza. Assim, eu no seria mais alta do que a maioria dos garotos - coloquei o meu capacete.
        - E provavelmente voc gostaria de vestir collants e saias bem curtas.
        - Adivinhou - suspirei.
        - Carly, eu acho que tem algum procurando por voc. Talvez eu esteja errado, mas acho que  a Heather.
        Eu me virei para a porta.
        - Heather! O que voc est fazendo aqui?
        - Carly, eu tenho uma tima notcia! - disse ela, atravessando a sala em minha direo, vestindo um collante uma saia bem curta.
        - Espere s at ouvir. Voc no vai acreditar! Segui o seu conselho.
        -?
        - Conversei com algumas pessoas que entendem de dana - disse j no meio do escritrio. - E, ento, eu me matriculei.Estou tendo aulas com Franoise Bui. 
A Franoise Bui. Bem aqui no campus!
        - Bem aqui no campus? - repeti, sentindo um frio na barriga.
        - Sabe o prdio Hughes?
        Sim, eu o conhecia muito bem.
        - Fica ao lado do ginsio novo - continuou Heather. - E voc no vai acreditar quem eu vi l.
        - Deixe-me tentar - intrometeu-se Jack.
        Heather virou os seus grandes olhos cinza para ele, ento chegou mais perto de mim.
        - Quem  ele?
        -  o Jack.
        - Sei... Est preparada? Voc no vai acreditar.
        - Luke Hartly - falamos ao mesmo tempo.
        Ela me olhou desapontada.
        - Voc sabia que ele estava aqui? Carly, por que no me disse nada?
        Sentei numa cadeira e comecei a mexer nas canetas do Harry.
        - Eu... eu esqueci.
        Quando olhei para o lado, Jack estava virando os olhos para o alto. Felizmente, Heather no o viu fazendo isso. Eu nunca havia mentido para ela antes e agora 
j era a segunda vez em dois dias. Eu me senti como um rato.
        - No  engraado, como todos ns acabamos juntos no campus? - ela disse admirada.
        - ... engraado - repeti. - Fico feliz que tenha lhe dado um conselho to bom. - Escute, Heather, eu tambm tenho uma novidade. Voc se lembra do Steve 
Dulaney?
        - Steve Dulaney... - ela comeou a andar vagarosamente em crculos, dando oportunidade para Jack pregar os olhos em suas pernas perfeitas.
        - Ns o conhecemos na terceira srie - refresquei sua memria.
        Ela balanou a cabea e franziu as sobrancelhas.
        - De qualquer modo, ele nos convidou para uma festa.
        - Espera um minuto. Steve Dulaney, aquele ce-de-efe magrelo?
        - Bem...
        - Por que so boas notcias?
        - Ele mudou. E acho que est bem interessante. E se lembrou de voc.
        Heather se sentou graciosamente num banco alto. Jack no desgrudava os olhos dela.
        - Como ele poderia se esquecer de ns, Carly? - perguntou Heather. - Lembra-se do dia em que roubamos o cinto dele durante a aula de educao fsica? E ele 
ficou com tanto medo que no
disse nada. E depois as calas dele caram bem no meio da aula de histria!
        - Mas ele encorpou, sabe?
        Jack soltou uma de suas gargalhadas e eu o fuzilei com os olhos.
        - Ah, ele encorpou, sim! - Jack disse, rindo. - Quer dizer, acho que sim. Eu acabei de me mudar para c. Mas acho que ele  um cara de boa aparncia. Voc 
deveria ir  festa e checar pessoalmente.
        Heather olhou assustada para Jack.
        - Eu vou - acrescentou ele.
        Ela mordeu os lbios e me deu uma olhada. Jack sorriu e se levantou.
        - Prazer em conhec-la - disse para Heather. - At amanh, Carly - falou batendo duas vezes em meu capacete.
        Depois que ele saiu do escritrio, Heather me encarou.
        - Por que voc no me falou nada sobre o Luke? - perguntou.
        - J disse - gemi, sem querer repetir a mentira.
        - E por que - ela se virou para a porta pela qual Jack acabara de sair- voc no falou dele?
        Quinta-feira  noite, eu e Heather mal havamos chegado  festa de Steve Dulaney e comeamos a girar os nossos pescoos para todos os lados. Vendo aqueles 
gatinhos, devo confessar que quase me esqueci da minha misso: por trinta segundos, eu no pensei em Luke.
        Ento, Steve veio em nossa direo. Bastou que ele apertasse a mo de Heather para no desgrudar mais. Sorri, ignorando o olhar de pnico de minha amiga, 
e parti para a minha misso.
        Normalmente, eu teria me sentido deslocada em uma festa como aquela. Os amigos de Steve se encaixavam nos dois tipos de rapazes que eu costumo evitar. O 
primeiro  aquele que se veste como se fosse um clone do pai, com roupas esportivas que nunca foram usadas realmente para praticar algum esporte. O segundo tipo 
 o que se rebela gastando fortunas em roupas "largadas" - sendo que seu carro nunca  "largado". No entanto, naquela noite descobri que alguns deles podem ser realmente 
interessantes. Seguindo a minha misso, eu conheci diversos caras legais. Tnhamos os mesmos interesses - esportes e Heather.
        Depois de circular por uma hora e meia no primeiro andar, me lembrei que ainda no havia encontrado Jack. Tinha a sensao de que ele sabia o que eu estava 
tramando, mas at que estava com pacincia para provocaes naquela noite. Peguei um refrigerante e um punhado de amendoim e me sentei para observar um grupo de 
meninas ao redor de um cara.No conseguia enxerg-lo, apenas as suas pernas - pernas musculosas, incrveis, pernas que combinariam muito bem com Heather, se o resto 
do corpo fosse parecido.
        - Um gato, n? - disse uma garota que se sentou ao meu lado. Ela tinha um visual meio clubber  e usava um relgio digital com tantos botes e pinos que poderia 
navegar pelo plo Sul.
        - Tem umas pernas perfeitas - respondi.
        Ela soltou uma gargalhada.
        - O resto  melhor ainda. Ombros maravilhosos. Bunda maravilhosa. Olhos to azuis que fazem a gente tremer.
        - Ele est interessado em algum? - perguntei.
        - No que eu saiba. Acabou de se mudar para c, da Pensilvnia. O nome dele  Jack Ryder.
        Fiquei chocada. As bolhas do refrigerante subiram at o meu nariz, fazendo com que meus olhos ardessem.
        - Voc disse Jack?
        Ela confirmou com a cabea, mechas de cabelo pendiam sobre sua testa.
        - Acho que ele mora aqui do lado.
        Subitamente, como se tivessem combinado, todas as garotas saram juntas. Jack me viu olhando em sua direo e acenou.
        - Oi, Carly!
        - Oi, Jack!
        - Vocs se conhecem? - berrou a garota ao lado.
        As outras me fitaram e se entreolharam.
        Mais tarde, naquela mesma noite, eu ri quando me lembrei da cena. Tudo o que Jack fez foi dizer duas palavras de cumprimento e abrir um grande sorriso, e 
aquilo me coroou como a rainha da noite. De repente, todas as garotas da festa queriam conversar comigo.
        O resto da noite foi bem agitado. Enquanto eu tentava entrevistar rapazes para Heather, as meninas me faziam perguntas sobre Jack. Realmente  incrvel como 
basta ter as conexes certas para se tornar popular.
        - Parece que voc est se divertindo bastante - observou Jack, quando o encontrei na cozinha.
        - . E voc?
        - Bastante. Gosto de conhecer pessoas - disse, balanando a cabea.
        Percebi que ele olhava o meu cabelo. Em um momento de grande umidade e desespero eu recorri a um mtodo que minha me disse que usava quando era adolescente: 
passei o cabelo com
ferro. A idia  que assim ele parecesse macio e sedoso e eu ficasse com um aspecto glamouroso.
        - O que voc fez com o seu cabelo?
        - Usei spray - respondi bruscamente.
        - Voc usou uma caixa de ferramentas para que ele ficasse assim?
        - Eu passei com ferro, t bom?
        Isso foi tudo o que eu e Jack conversamos naquela noite, mas toda vez que nos encontrvamos, ele sorria para mim. Nos lbios, um pequeno, quase secreto sorriso; 
mas nos olhos um sorriso fascinante. Quer dizer,  assim que deve ter parecido aos olhos das outras garotas.

Cinco

        ltimo dia de acampamento da semana! As crianas estavam agitadssimas. A primeira srie cantou durante todo o caminho at a piscina do Country Clube, umas 
msicas absurdas que haviam sido ensinadas por Jack. Parecia que eu estava sendo transportada em uma gaiola de canrios.
        Naquela manh, Steve me encontrou na piscina e quis conversar sobre Heather, mas eu precisava dar ateno a cada um dos meus campistas.
        - Ligue pra mim - falei.
        Vinte minutos depois, um amigo do Steve apareceu, interessado no mesmo assunto. Tambm falei para ele me ligar, dando-lhe rapidamente o nmero do meu telefone. 
Mais tarde, enquanto colocava as crianas no nibus, duas morenas com biqunis minsculos e seios proeminentes vieram correndo em minha direo.
        - Carla! - chamou a mais alta.
        - Carol! - gritou a amiga, acenando para mim.
        No respondi. Estava ocupada vendo trs dos meus meninos, arrancando um canteiro de begnias do Country Clube. Corri at eles, mas antes que pudesse salvar 
as plantinhas as duas garotas entraram na minha frente.
        - Ns ouvimos dizer que voc e Jack so muito amigos - disse a mais alta.
        - E queramos saber se ele tem namorada - continuou a outra.
        Por um instante, pensei que fossem gmeas, apesar da diferena de altura entre elas. Ambas tinham as unhas das mos pintadas e umas borboletas azuis desenhadas 
nas unhas dos ps. Vestiam biqunis amarrados com lacinhos e tinham exatamente o mesmo modo de manter a cabea erguida.
        Ele tem uma namorada aqui em Baltimore? - perguntou a mais alta.
        - Ou na Pensilvnia? - ecoou a amiga.
        - Eu no sei... - balancei os ombros. - Franklin, Noelle e Shane, larguem as flores!
        - Ele est a fim de namorar? - perguntou a baixinha.
        - De que tipo de garota ele gosta?- quis saber a outra.
        - Alta?
        - Pequenininha?
        - No sei - respondi novamente. - J disse para largarem as begnias!
        - Bem, onde vocs costumam ir  noite? - perguntou a baixinha, passando os dedos pelo lao do biquni.
        - No samos  noite.
        - Pensei que fossem amigos.
        - Trabalhamos juntos.  s. Escutem, preciso ir agora.
        - Ns te ligamos - disse a mais alta. - Eu sou Sarah. Ela  a Sandra. Qual o seu telefone?
        - Eu realmente preciso ir.
        - O Stevetem o seu nmero? - insistiu.
        - Por favor, escutem. Estou falando pra vocs exatamente o que eu disse s outras. No sei nada sobre Jack Ryder.
        - Bem - falou Sandra -, talvez voc pudesse fazer umas perguntas...
        - Mas no tem nada sobre ele que eu queira saber - repliquei, ento dei as costas, terminando a conversa e colocando as crianas no nibus. No caminho, coloquei 
minha mo ao redor do ombro de uma das minhas exterminadoras de begnias, virando o rostinho dela para mim:
        - Noelle, queridinha, voc precisa respirar. Tire as ptalas da flor de dentro do seu nariz.

        Cheguei ao acampamento com o grupo da primeira srie dez minutos depois. A segunda srie estava me esperando, cheia de energia. Apostamos corridas, viramos 
cambalhotas e danamos no gramado.
         - Certo, agora somos coelhos- gritei,e todos comearam a pular.
        - Agora somos girafas,com longas,longas pernas...
        As crianas se esticavam.
        - Agora somos galinhas. Cisca, cisca, cisca, corre, corre, corre com os ps pequenininhos! Oh-oh, olhem, l vem a raposa!
        Foi desse modo que atravessamos o monte onde Jack e o seu grupo estavam sentados - um bando de galinhas e uma raposa galopante de cabelos vermelhos.
        - Ei! - gritou Terry. - Ns somos as raposas e voc  a galinha.
        - Tudo bem.
        Eles me atacaram de todos os lados.
        Estirada na grama, com um monte de raposas risonhas despencando sobre mim, olhei para o profundo azul do cu, ento, virei a cabea para a direita. Eugene 
e seus colegas da terceira srie, a gangue dos rebeldes, estavam espalhados sob as grandes rvores, concentrados nos desenhos. Uma msica clssica chegava at ns. 
Era um instrumento de cordas, como se uma harpa gigante estivesse no meio do bosque. Jack estava ajoelhado, conversando com dois meninos. April, a menininha rolia 
que usava um zilho de fivelinhas brilhantes, chegou por trs de mim e me deu um abrao.
        - Oi, fessora - Eugene me cumprimentou docemente.
        Do alto do monte, ]ack nos olhou. Olhei de volta. No sabia se o grande sorriso era para mim ou para as crianas.
        Por um momento, desejei ser uma criana. Queria estar sentada no alto daquele monte, ouvindo a msica de Jack, descobrindo maneiras de pintar a paisagem. 
Mas as minhas raposinhas estavam se contorcendo ao meu redor e eu precisava lev-las para o ptio.
        Naquele dia, Anna, Jack e eu fomos dispensados de monitorar o almoo. Comemos uma pizza na lanchonete, depois cada um se alojou na sua cadeira favorita em 
um dos cantos do escritrio. Anna comeou a ler um livro de Tolsti, Jack folheava uma National Geographic e eu dava uma olhada nas pginas de esportes. Entre os 
resultados dos jogos de futebol, espiava Jack por cima do jornal. Eu tinha um forte pressentimento de que as perguntas das meninas da festa no iriam acabar to 
cedo. E caso eu decidisse empurrar Jack para Heather, talvez alguma informao ajudasse.
        - Escute, Jack - comecei -, existem algumas coisas que preciso saber sobre voc.
        - ? O qu? - ele fitou os meus olhos e sorriu.
        - O que voc prefere: loiras ou morenas?
        - Perdo?- o sorriso desapareceu dos lbios dele.
        - O que voc prefere: garotas com cabelo loiro ou moreno?
        Anna ps o livro do lado por um momento.
         - E ento? - insisti.
        - As ruivas no so uma opo? - ele perguntou.
        - No - disse -, no havia nenhuma ruiva na festa ontem  noite.
        Ele me olhou de modo estranho.
        - Ao menos no alguma que, pelo que eu saiba, esteja interessada em voc. E ento?
        - No sei - murmurou. - Isso no importa.
        - Ah, vai - eu o desafiei. - No seja um desses que juram que aparncia no  importante. Eu odeio quando os caras falam isso.
        Anna fechou o livro, marcando a pgina com um guardanapo. Jack olhou para ela e depois para mim.
        -  claro que a aparncia importa - falou se defendendo. - Eu seria o primeiro a admitir que sim. S no sei dizer exatamente qual tipo prefiro. Depende: 
assim que eu olho, eu sei se me interessa ou no.
        - Baixa ou alta? - perguntei.
        - Meu limite  um metro e oitenta e trs.
        - Mesmo? Voc sairia com uma garota quatro centmetros mais alta que voc?
        - Trs - ele corrigiu.
        - Um metro e oitenta e trs, registrei mentalmente enquanto dava uma mordida em minha pizza.
        - Certo. Histrico familiar. Pai, me, irms, irmos, animais de estimao? E o que eles fazem?
        - Minha me  mdica e trabalha no hospital de Baltimore - ele disse um pouco incomodado. Comecei a achar que famlia era um assunto muito delicado.
        - Legal- disse encorajando-o. - S mais uma pergunta. Bem, talvez duas, primeira pergunta...
        - Sabe, Carly - ele interrompeu -, esse tipo de coisa normalmente surge aos poucos, conforme duas pessoas vo ficando mais amigas.
        - Como assim? - perguntei.
        - Deixa pra l - balanou a cabea.
        - Voc deixou alguma namorada na Pensilvnia?
        - Qual  a importncia disso? - retrucou, indignado.
        - Tudo bem. Vamos pular para a segunda - disse rapidamente.
        - Voc est interessado em algum?
        - Escute, isso  realmente importante pra voc? Seno, por que est me perguntando? - seus olhos escureceram. Ele estava definitivamente irritado.
        Com isso, eu acabei ficando furiosa:
        - Vou falar por que! Porque eu fiquei ontem a noite inteira, e hoje de manh tambm, cercada por um punhado de garotas idiotas que queriam saber todos os 
detalhes sobre a sua vida. O que voc acha que estava acontecendo naquela festa? Ou voc acha que eu ganhei o concurso de Miss Simpatia? Voc realmente acha que 
todas aquelas pessoas queriam ser minhas amigas? - respirei um pouco. No tinha percebido o quanto eu estava furiosa at aquele momento. - Tudo que elas queriam 
saber era sobre voc. Voc e Heather, Heather e voc! - Senti que estava prestes a explodir. - Vocs eram as estrelas!
        Anna permanecia nos assistindo, imvel. Jack se sentou calmamente. Sabia que ele estava tentando me entender, e eu no queria que isso acontecesse.
        - Deixa pra l - eu disse, tentando desfazer toda a baguna. - Voc est certo. Eu no deveria ter sido to intrometida.
        - Talvez- disse ele, aps passar um tempo pensando -, voc mesma tenha se convencido de que Heather  uma estrela. Eu ouvi o que voc conversava com um cara 
ontem  noite. S falava dela! Acho que voc no devia dar tanta importcia  Heather.
        Eu me curvei sobre um pedao de pizza.
        - Mas pensei que aquilo era parte de um plano - ele continuou. - Fiquei te observando e pensei que talvez voc estivesse tentando arranjar algum pra Heather. 
Pra ela no ficar correndo atrs do Ovos Mexidos.
        - O nome dele  Luke - resmunguei.
        - Voc estava querendo que isso acontecesse, assim teria... Luke... s para voc. Acertei? - perguntou.
        Se eu abaixasse mais o rosto em direo ao meu pedao de pizza, ficaria com um pedao de calabresa grudado no nariz.
        - Est certo. Absolutamente certo... Satisfeito?
        Jack soltou uma gargalhada, que mais parecia uma bufada, e saiu da sala.

        "Oi, Carly! Sou eu, Heather. Recadinho. Tem certeza de que tudo bem se o Tim vier aqui em casa hoje? (risadinha nervosa.) Provavelmente vamos ficar falando 
de voc o tempo todo. Ligue
pra mim."
        Beep. 
        "Ol, Carly.  o Steve. Sbado de manh. Queria falar com voc sobre a Heather. "
        Beep. 
        "Carly.  o Tim. Sbado. Onze horas. Podemos conversar?"
        Beep. 
        "Ah,  a Carly? Aqui quem fala  o Brent Coughlin. Encontrei voc na festa do Steve. Poderia me ligar de volta? 555-4639. Mas no diga nada ao Steve que 
eu liguei, OK?"
        Beep.
        "Oi. Aqui  a Jill. Estava na festa do Steve. Preciso muito falar contigo, Carly. Me ligue no 555-7654."
        Beep. 
        "Carly,  o Tim de novo. Onze e meia. Andei pensando. Acho... que ns devamos ser apenas amigos."
        Beep.
        "Al? Esta mensagem  para a Carly, amiga do Jack. Meu nome  Meredith. Por favor, me ligue no 555-6280. Obrigada."
        Beep. 
        - No! - eu disse para a secretria eletrnica. - Obrigada. Obrigada a todos vocs - joguei meu bloco de mensagens no cho.
        "Carly, aqui  o Luke. Eu sei que j est meio em cima da hora, mas queria saber se voc sairia comigo hoje  noite?"
        Mas essa mensagem no estava gravada.
        - O que voc est resmungando a? - perguntou Joelle, assim que eu apertei o boto de "apagar" da secretria.
        - Uma maneira milenar de xingar irms - respondi.
        Ela abriu um sorriso forado, ento largou uma enorme bolsa de lona sobre a cama.
        - Bem, eu acho que  mais fcil acreditar nisso do que na sua oferta de me levar de carro pro mdico.
        - D um tempo. Estava tentando ser legal, para variar.
        - Ou voc estava evitando alguns telefonemas - observou Joelle, enquanto retirava os livros de dentro da bolsa.
        Minha irm tinha o hbito de carregar bolsas gigantes cheias de livros desde que ramos pequenas. S que agora todos os ttulos continham a palavra "beb". 
Eu sentia falta dos velhos e misteriosos livros sobre sociedades antigas e culturas exticas, nos quais, quando era criana, eu realmente procurava modos de xingar 
irms mais velhas.
        - Por que voc no est nadando na casa da Heather? - perguntou Joelle.
        - Ela est com outra pessoa hoje - falei, enquanto comeava a dobrar a roupa lavada.
        - Com seu namorado, Carly! Ou pelo menos com algum ex-namorado seu.
        Desisti de dobrar, abri vrias gavetas e comecei a arremessar as roupas dentro delas.
        - Tim e eu no tnhamos nada a ver.
        - Nem voc e nenhum dos outros anteriores - observou Joelle. - Eles todos haviam sido feitos para a Heather.
        - No, sua grande atrapalhada - falei quando joguei o suti roxo no seu rosto. - Olhe para onde o amor levou voc.
        Ela piscou e, por um minuto, ficou muda. Depois se levantou e se curvou sobre a escrivaninha, que ficava ao lado da minha. Camas gmeas, escrivaninhas gmeas.
        - S no consigo entender, Carly. Voc  uma lutadora: nos esportes, na escola, em casa. Mas quando falamos da Heather...- ela balanou a cabea. - Isso 
me incomoda. No suporto ver uma pessoa maltratando a outra. No suporto ver a minha prpria irm sendo usada.
        - Ento arranje uma vida prpria, Joelle - sugeri, fechando as gavetas com fora. - Assim, voc no vai perder o seu tempo assistindo a minha.

Seis

        A primeira coisa que eu fiz no sbado  tarde foi pegar o telefone do Jack no auxlio  lista. Depois, passei o nmero para Meredith e para Jill, assim como 
para as trs outras garotas que me ligaram naquele fim de semana. Dei a todas elas o mesmo conselho: Jack  o tipo de cara aberto e direto. Telefone para ele e faapessoalmente 
todas as perguntas que quiser. No seja tmida. Jack adora responder perguntas sobre a sua vida.
        Levei um pouco mais de tempo para lidar com os telefonemas sobre Heather. Bati um papo com os rapazes e tomei algumas notas, assim poderia entender qual 
a melhor ordem para formar uma fila dos pretendentes de Heather. Disse a eles que ela estava saindo com um cara, mas que provavelmente no iria durar muito - o que 
era verdade. Dava uma semana para que ela descobrisse que no estava realmente interessada no Tim.
        Durante o fim de semana, esperei, sonhei, at mesmo rezei, mas no ouvi uma palavra sequer de Luke. bvio, afinal nem tinha certeza se ele se lembrava do 
meu nome. Depois daquela guerra de comida, a equipe de ginastas comeou a ir mais tarde para o refeitrio, talvez propositadamente, de modo que no conversei mais 
com ele. Decidi dar mais um dia de prazo para que nos cruzssemos por acaso no campus antes de usar minha nica desculpa para encontr-lo: a devoluo da toalhinha. 
Esperando que aquela segunda-feira fosse o meu dia de sorte, peguei o caminho mais longo para Kirbysmith, entrando pelo porto principal da faculdade. Para chegar 
ao centro acadmico, precisei passar em frente ao ginsio.
        Esticava o pescoo sobre o ombro, tentando enxergar as pessoas que saam dos carros no estacionamento do ginsio, quando, de repente, cambaleei para a frente. 
Minha bicicleta subiu no meio-fio. Apertei os freios com toda a fora e soltei um berro quando parei cara a cara com um enorme depsito de lixo. Aos poucos, soltei 
a minha respirao, desejando que ningum tivesse visto a cena.
        - Est bem, Carly?
        Virei o tronco. Era Jack, claro!
        - Aquele depsito de lixo devia ver por onde anda - brincou Jack. Ele manteve uma cara sria, mas o pequeno tremor em sua voz deixou escapar um comeo de 
gargalhada.
        Comecei a pedalar vagarosamente ao lado dele, pois, se sasse correndo do jeito que queria, as coisas s ficariam piores.
        - Como foi o seu final de semana? - perguntei educadamente.
        - Bem - ele respondeu. - E o seu? Fez alguma coisa interessante?
        - Ah. Gastei um tempo no telefone - falei, olhando para ele.
        - Eu tambm - ele disse, enquanto seus olhos escorregavam para encontrar os meus. Mas eu nunca admitiria que havia empurrado todas aquelas garotas ofegantes 
para cima dele. Com relutncia, desci de modo desajeitado da bicicleta e passei a andar, empurrando-a entre ns dois.
        - Escute, Carly - Jack levantou a mo e, por um instante, pensei que ele iria coloc-la sobre a minha. Ento, repousou-a sobre a outra extremidade do guido, 
passando a empurrar a bicicleta comigo. - Sinto muito pela sexta-feira  tarde. Sinto muito pelo que disse sobre voc, Heather e o Ovos Mexidos.No  da minha conta.
        - Tudo bem - disse calmamente. No estava mais com raiva dele. - Eu tambm sinto muito.
        - Pelo qu? - perguntou. E me pareceu uma pergunta sincera.
        - Por continuar fazendo perguntas quando voc j tinha deixado claro que no estava a fim de responder.
        - Ah - falou -, pensei que era por ter dado o meu telefone para todas aquelas garotas e dito a elas quanto eu adorava responder perguntas pessoais.
        Minha boca ficou ligeiramente entreaberta. Ele riu. Nessa hora, esticou o brao e colocou sua mo sobre a minha, apertando-a.
        -Amigos?
Fiquei um pouco surpresa. No imaginava que o fato de nos darmos bem ou no importava de alguma maneira para ele.
        - Claro. Amigos - apertei a mo dele. Abicicleta comeou a cambalear entre ns. Tentamos agarr-la ao mesmo tempo e demos uma cabeada. Quer dizer, eu bati 
com o meu capacete superduro na cabea de Jack.
        - Ai, desculpe! - eu me estiquei para esfregar a sua testa. Mas logo que percebi o que estava fazendo, parei e recuei. No entanto, havia chegado perto o 
suficiente para cheir-lo. Aquele mesmo perfume agradvel. - Que tipo de sabonete voc usa?
        - O qu? - falou, enquanto devolvia a bicicleta para mim.
        - Deixa pra l - disse rapidamente.
        timo. Trnhamos acabado de nos tornar amigos e eu j comeava com uma pergunta pessoal. Jack virou a cabea, me fitando com os olhos semicerrados.
        - Provavelmente, o mesmo sabonete que ele usa - disse sarcasticamente -, Macho Spring
        -Macho Spring.? - me voltei para ver quem Jack havia avistado.
        Era o meu dia de sorte! Luke estava em frente ao ginsio. Parecia que acabava de chegar de uma corrida, o corpo inteiro suado, brilhando sob o sol. Ele nos 
viu. Continuei afirmando para mim mesma que estava enxergando coisas, mas tenho certeza de que os seus olhos se iluminaram. Olhos verdes como o mar, com raios de 
sol sobre os seus cabelos. Luke caminhou em nossa direo.
        - Carly - sua voz era suave e rouca... ou talvez ele estivesse apenas sem flego. , tudo bem, devia ser isso.
        - Oi, oi - falei.Tivede me segurar para no repetir isso pela terceira vez. Todas as outras palavras haviam me abandonado.
        - Ol - disse ]ack. - ]ack Ryder.
        - Ah! Claro. Perdo - eu me desculpei. - Jack, este  o Ovs...-Mexidos. Quase falei isso, porque para Jack era assim que ele se
chamava.
        - Luke - Luke disse baixinho, como se eu tivesse esquecido o seu nome.
        - Luke - repeti bem alto. - Eu sei!
        Jack riu.
        - Parece que voc estava se exercitando - Jack comentou com Luke.
        - Corri s alguns quilmetros - respondeu Luke,balanando a cabea. - O treinador disse que vai pegar pesado hoje com a gente - virou-separamim.- E voc,Carly? 
Como vai indo?
        - tima.
        - Eu tambm. E o acampamento?
        - Eu adoro.As crianas no so fceis, mas  muito divertido - agora        eu estava flutuando. Havia conseguido formular duas frases completas. - Luke 
tambm  monitor l - disse.
        - Jack- Jack me corrigiu.- Ele  o Luke. Eu sou o Jack. Voc  a Carly.
        Dei uma rpida olhada para Jack e ele riu.
        - Voc est aprendendo muito com o seu treinador novo? - perguntei a Luke.
        - Estou!- respondeu, seus olhos fixos em mim como dois sis brilhantes. - Estou aprendendo que posso ser o melhor. Basta querer, Carly. Eu tenho talento. 
Sou o melhor e posso melhorar ainda mais. Posso conseguir tudo que quiser, se desejar o suficiente.
        - Desde quando autoconfiana tem sido um problema para voc? - perguntou Jack, inexpressivo.
        Lancei um outro olhar sobre ele, que fingiu no ter notado.
        - Ah, no sei - respondeu Luke.- Quer dizer, eu sempre achei que era melhor que os outros - ele cruzou os braos, contraindo inevitavelmente os msculos. 
- Mas eu acho que tinha uma pequena parte em mim que no estava totalmente certa disso.
        - Um bom treinador lhe d confiana para que voc seja o melhor possvel - sacudi a cabea, confirmando.
        Luke agarrou o meu brao.
        - Sabia que voc entenderia - disse Luke, com tanto calor e intensidade que eu poderia ter derretido como uma manteiga nos seusbraos.- Quer dizer, voc 
 praticamente uma atleta.
        - Ela  uma atleta - afirmou Jack, baixinho.
        - Carly, voc vai, h, ficar por a at mais tarde? - perguntou Luke.
        - Por aqui? - repeti, enquanto meu corao parava de bater. - No sei se voc vai ter de trabalhar at mais tarde. Mas tem um filme hoje  noite aqui no 
campus. Pensei que talvez... se voc fosse ficar por aqui at mais tarde... - inesperadamente, ele havia ficado tmido.
        - Que coincidncia! - disse. - Agente tem uma reunio hoje que vai at o final da tarde.
        - Temos?- perguntou Jack com surpresa.
        Deixei minha bicicleta cair sobre ele.
        - Ah! Que sutileza!- ele reclamou.
        Mas Luke no percebeu nada. Ele j estava se afastando.
        - Bem, se quiser me encontrar no centro acadmico, h... s seis horas?
        - Seis horas - confirmei.
        Eu mal podia acreditar naquilo. Continuei andando no asfalto, completamente aturdida, deixando que Jack empurrasse a bicicleta. "Seis horas", suspirei para 
mim. Estava louca para contar a Heather. Queria gritar e comemorar com minha melhor amiga. Mas  claro que a ltima pessoa para quem eu poderia falar algo era para 
minha velha amiga Heather.
        Olhei para o Jack:
        - Preciso que algum me belisque!
        Em vez disso ele me puxou da rua, me tirando da frente de um que carro estava vindo.

        Toda segunda-feira eu fao um turno duplo na piscina, trabalhando com a segunda srie primeiro, e depois com o Hau e as suas crianas estrangeiras. Hau e 
eu chamamos nossa maneira de ensinar em dupla de "fazendo pera". Existe um dilogo constante entre ns: enquanto eu falo as regras, ele traduz o que eu disse em 
palavras ou frases inteiras em vietnamita - e vamos nos comunicando por meio de gestos dramticos com os braos. Enquanto isso, as crianas ficam entre ns, balanando 
a cabea para a frente e para trs, como se estivessem na platia de uma pera acelerada.
        Mas, naquela manh, o show estava mais lento. No conseguia me concentrar no trabalho, e Hau teve de agir por ns dois. Nas aulas, Hau normalmente copiava 
todos os gestos que eu fazia. Assim, quando expliquei, do lado de fora da piscina, o nado crawl, andando e dizendo para as crianas observarem o movimento dos meus 
braos, ele fez o mesmo. Foi quando o meu melhor nadadorzinho, Tam, perguntou se eu podia demonstrar o nado de costas.
        - Lgico,  super divertido nadar de costas. Vou mostrar como que  - infelizmente, no me lembrei de olhar para trs. Girei os braos e andei de costas, 
caindo direto na piscina com os braos e as pernas esticados pelo susto.
        Hau no perdeu tempo. Rodando os braos, andou para trs e caiu na gua ao meu lado. As crianas desataram a rir. Depois, todas queriam experimentar aquilo.
        Eu ainda estava pisando nas nuvens, quando os monitores se reuniram  tarde no escritrio do acampamento.
        - Ento - disse Jack -, outra aula inspiradora com a lder esportiva, senhorita Carly.
        Ele estivera com as crianas do Hau, fazendo pinturas e trabalhando a linguagem. Anna deu uma espiada sobre o material para ver o que as crianas haviam 
desenhado. Eu mal olhei os papis
enrugados pela gua, mas deu para identificar uma srie de cabelos vermelhos envoltos por jatos de gua, piscinas azuis e braos estendidos de pnico.
        - Fico surpresa que voc ainda no os tenha convencido a escreverem msicas sobre mim - disse para Jack.
        - Ah, eles no precisam de incentivo algum - replicou ele.
        - Como foi o seu dia? - perguntou Harry, apoiando as mos suavemente na mesa; sua expresso era sorridente, gentil e amigvel.
        Mas ele estava me observando.
        - Bem- disse-, por que est perguntando isso?
        - Por nada - ele sorriu e levantou os ombros. - Parece que voc est um pouco area, hoje. Eh..., eu no estou reclamando, Carly - acrescentou, assim que 
eu franzi a testa. -  s curiosidade. Voc me chamou de Larry no almoo.
        Abri um sorriso de desculpas para ele.
        - Duas vezes.
        -Ah.
        - Larry.  Harry com um  L de Luke - falou Jack.
        Tenho a impresso de que ele se achou muito esperto ao elaborar aquela teoria.
        - Luke  um heri olmpico que a convidou para assistir a um filme no campus hoje  noite - ele continuou. - Isso explica alguns acontecimentos do dia?
        - Convidou, mesmo? - Pamela se entusiasmou. Amenina estava mexendo novamente nas unhas cor-de-rosa cintilantes. Agora, ela estava colando uma longa unha 
de plstico que era afiada o suficiente para fatiar uma cebola. - Demais!
        -  mesmo - disse, levantando da cadeira. -  melhor ir agora. Tenho que colocar umas roupas limpas. - Eu me dei conta de que estava prestes a encontrar 
Luke.
        - Mas voc no vai trabalhar at tarde? - Jack lembrou.- Pelo menos,  o que voc falou pra ele. No vai ser estranho ele perceber que trocou de roupa?
        - Eu vou lavar e secar esta roupa e vesti-la novamente encarei- o como se ele fosse completamente idiota.
        - Isso vale tanto a pena assim? - ele me fitou como se eu fosse completamente pirada.
        - Luke  um cara de sorte - Hau disse docemente. - Divirta-se, Car1y.
        - Vou, sim. Obrigada - disse e sai correndo.
        Obviamente, peguei o caminho que seguia por trs da faculdade.  No queria encontrar Luke ou Heather, ela freqentava o  estdio de dana logo ao lado do 
ginsio.  medida que pedalava para casa, eu me divertia explicando para Heather por que no havia contado a ela sobre Luke e eu, ainda que estivssemos namorando 
por trs quentes e intensos meses. Era um sonho maravilhoso e eu contava tudo a ela nos mnimos detalhes.
        Imagine, portanto, quanto eu fiquei confusa quando, no meio de um desses pensamentos, percebi que estava realmente olhando o rosto de Heather. Foi num cruzamento 
perto da minha casa e ela estava se esticando por cima de seu Honda.
        - Car1y,estou seguindo voc a cinco quadras!
        Sabia que era absurdo, mas eu tinha uma idia maluca, paranica mesmo: Heather havia grudado um bip invisvel em mim, que lhe enviava sinais sempre que eu 
encontrava algum cara interessante. De alguma maneira, ela sempre ficava sabendo.
        - Eles me falaram no escritrio do acampamento sobre as incrveis novidades - ela disse.
        - Eles quem? Jack? - Eele que me disse que ramos amigos. Traidor!
        - No - respondeu Heather -, o rapaz vietnamita e a garota com as unhas enormes. Jack estava at bem quieto.
        - Ah - "Desculpe, Jack", eu pensei.
        Os carros comearam a buzinar. A cor do semforo havia mudado.
        Pedalei at o cruzamento seguinte. Heather colocou uns culos de lentes amarelas e me seguiu.
        - Fico muito feliz por voc, Car1y - ela disse, quando paramos de novo.
        Eu me inclinei sobre o guido da bicicleta, assim podia enxergar melhor o rosto dela dentro do carro. Olhando para mim estavam os mesmos grandes olhos cinzas 
que tinham desejado boa sorte antes dos jogos de basquete, das entrevistas de emprego e dos testes de matemtica. Estava me comportando como uma idiota. Como eu 
me tornara to ciumenta e paranica?
        - Obrigada - disse delicadamente. - Precisava ouvir isso.
        - Fico muito feliz por voc. Mesmo! Queria que as coisas tambm tivessem dado certo para mim e para o Tim.
        Logo, j no existia mais nada entre ela e o Tim. Certamente, ficou muito feliz por mim. Meu encontro com Luke significava que ela estava mais perto do encontro 
dela com Luke.
        Tentei espantar um lamaal de pensamentos ruins que passavam pela minha cabea, enquanto seguamos pelos dois quarteires seguintes. Heather estacionou em 
frente a minha casa. Abaixei o descanso da minha bicicleta e andei at a janela do carro dela.
        -  uma pena sobre o Tim - eu disse -, mas tenho boas notcias. Metade dos rapazes daquela festa se interessaram por voc.
        -?
        Fiquei feliz de ver as bochechas rosadas.
        - , ! O Steve foi um deles.
        - Ah, o Steve - ela falou.
        - Qual o problema com o Steve? - reclamei.- Ele  lindo.  legal. Tem dinheiro. E um carro.
        Ela no lhe deu muita importncia. 
        - Est bem. E o Brent?
        Ela franziu a testa, tentando se lembrar.
        - Alto, olhos pretos lindos. Dizem que tem um quarto inteiro
s pra sua coleo de rock. Discos e ingressos de todos os shows que...
        Ela balanou a cabea.
        - Certo. E o que voc acha do Andr? Loiro. O pai tem um iate no clube Camdem. Acho que ele navega muito.
        - Voc sabe que eu enjo no mar, Carly.
        - Bem, vrios outros me ligaram, mas se voc vai continuar sendo to seletiva... - eu a repreendi.
        - No estou sendo seletiva - ela gemeu. - Mas os rapazes da festa do Steve no fazem nada da vida. No me importo se so ricos. Posso sustent-los. Quero 
um cara que realmente faa algo.
        "Como treinar ginstica olmpica", eu pensei.
        - Quero um cara que se importe com alguma coisa e saiba conversar. No algum que s queira sair  noite e se divertir o tempo todo.
        Meu crebro comeou a funcionar. Jack no ficava s saindo  noite. Ele trabalhava e se importava com as crianas. Amava arte e msica, assim como Heather. 
E era muito bom de papo.
        Jack iria me ajudar. Quer dizer, ramos amigos, no ramos? E, ainda que fssemos apenas amigos, eu sabia que ele possua um corpo e um cabelo que qualquer 
garota adoraria agarrar. E aqueles olhos de um azul intenso...
        - Carly? O que voc est pensando?
        De repente, a imagem dele se apagou da minha mente.
        - Tenho de pensar mais um pouco - disse, mas j tinha toda a certeza: era Jack, o primeiro cara da fila, o par perfeito.
        - Pensar sobre o qu? - perguntou Heather, frustrada.
        - Algum que pudesse ser um amor verdadeiro - disse.-
        Escute, Heather, eu preciso ir. - Mas...
        - Vou encontrar Luke s seis horas e ainda tenho de fazer algumas coisas.
        - Estou muito, muito feliz por voc - eu a ouvi gritar enquanto entrava com minha bicicleta no estacionamento.

Sete

        - Tudo o que eu estou pedindo  uma carona para voltar ao campus - disse para a minha irm uma hora e meia depois. - O que mais voc planejou pra hoje  
noite? Ler o captulo dois de
"Como trocar um beb"?
        - S estou falando pra voc ir dirigindo - argumentou Joelle, largando um prato em cima da mesa da cozinha. - Por que voc precisa de um chofer?
        - Ns temos dois carros, gatinha - interferiu meu pai.
        Odiava quando ele me chamava assim. Aquele apelido no combinava comigo nem quando eu tinha 4 anos de idade.
        - Sua me vai passar a noite inteira suspirando sobre os relatrios sofrveis dos alunos dela - ele continuou, dando palmadinhas em seu cabelo avermelhado, 
um hbito inconsciente que se desenvolveu depois que ele comeou a pentear o cabelo em direes estranhas para esconder os focos de calvcie. -.E eu estou preparando 
a conferncia de literatura. Os dois carros esto livres.
        - Ah, no importa - falei com raiva, saindo da cadeira. Como eu poderia explicar?
        J devia estar no campus. Pela manh, Luke havia visto que eu estava com minha bicicleta. Depois do filme, j tinha planejado dizer a ele que, mesmo tendo 
deixado a bicicleta no escritrio do acampamento, no queria pedalar de volta para casa no escuro. Ento pediria uma carona. Desse modo, se por acaso no trocssemos 
nmeros de telefone, ao menos ele saberia onde eu morava. Mas, se eu contasse o meu plano para Joelle, e as coisas no dessem certo com Luke, seria mais uma histria 
para ela me alfinetar.
        Subi as escadas e coloquei um pouco de rmel e um batom cor-de-pssego, ainda que tivesse certeza de que no haveria mais maquiagem alguma quando chegasse 
no campus. Pelo menos, meu cabelo estava bem ajeitado numa trana e eu no tinha mais as marcas das mos sujas de Eugene em minha barriga.
        J estava tirando a minha bicicleta da garagem quando Joelle surgiu do lado de fora, balanando as chaves do carro no ar.
        - Eu levo voc, se me contar o motivo.
        Coloquei a bicicleta de lado e fui com ela para Kirbysmith em silncio.
        - Aqui est timo - disse assim que chegamos na entrada da faculdade, ento pulei para fora do carro rapidamente.
        - Voc no vai me contar o motivo? - minha irm gritou, quando eu j estava de costas.
        - Vou contar... depois que voc me disser por que mudou de idia de repente e me ofereceu uma carona - retruquei e fechei a porta. - Voc no pode ser to 
curiosa, Joelle. E voc nunca foi to boazinha comigo. Devem ser os hormnios maternos comeando a agir.
        - Sua malcriada - ela rugiu.
        Luke estava esperando por mim do lado de fora do centro acadmico, sentado em um bloco de concreto que ladeava os degraus da entrada. Uma perna esticada, 
a outra dobrada, o brao musculoso apoiado sobre o joelho. Ele bem que poderia ser uma esttua, uma espcie de "deus grego protetor do templo estudantil". Seus olhos 
estavam fechados, de modo que no me viu enquanto eu fitava o seu corpo.
        - Luke... Luke? - chamei um pouco mais alto.
        - Ah, Carly?
        - Dia cansativo? - perguntei docemente.
        Ele sorriu. Seus olhos me lembraram um dia de vero.
        - Adivinhou. Treinamento dobrado. Quando a gente  o melhor, os instrutores so duros - ele saltou para o meu lado. - Alguns amigos meus esto guardando 
um lugar pra gente l dentro.
        O pequeno auditrio s tinha metade das cadeiras ocupadas. Acho que Guerreros do Vulco no era um grande sucesso. Um professor, que tinha um gosto para 
moda to deformado quanto o da minha me, dava uma palestra sobre filmes B de fico cientfica para uma platia formada basicamente por alunos de.cinema. Ele no 
parava de falar sobre todas as coisas do inconsciente que ns estvamos prestes a assistir saindo de dentro daquele vulco.
        Eu me sentei entre Luke e dois rapazes chamados Hank e Josh, ginastas olmpicos que estudavam em Kirbysmith. Ainda que meus olhos estivessem voltados para 
o professor, estava alerta para qualquer pequeno movimento que Luke fazia. Encostou seu brao no meu. Contraiu o dedo direito. Bocejou.
        - Voc gosta de cinema? - perguntou Hank, alto o suficiente para atrapalhar os alunos que tentavam ouvir a palestra.
        - Ou do Luke? - disse Josh, debochando de mim.
        - Na verdade, eu amo esportes - retruquei baixinho. - Mas  divertido ir ao cinema.
        - Voc ama "heris do esporte"? - perguntou Josh, ainda
debochando. Sua cabea enorme me lembrava uma abbora.
        - Por qu? Voc se considera um? - perguntei de volta.
        Hank, que tinha os cabelos pretos e provavelmente se achava bonito, virou-se e riu na cara de Josh.
        - Carly  praticamente uma atleta - interveio Luke. "Ela  uma atleta", eu me lembrei de Jack falando.
        - Mesmo? - disse Hank. - O que voc joga?
        - Hquei e basquete pela escola.Vlei em um time de recreao.
        - Seus times so bons? - perguntou Hank.
        "No, ns fedemos de to ruim que somos", foi o que me deu vontade de falar, mas ele era amigo do Luke.
        - Pergunte ao Luke - disse orgulhosa. Afinal, as garotas haviam vencido os torneios estudantis no hquei e no basquete. - Estudamos na mesma escola.
        Luke ficou sem expresso.
        - Eu, eh, realmente no acompanhei os jogos delas. O time de basquete masculino  muito bom.
        "O time masculino, para a sua informao, ganhou apenas quatro jogos nos ltimos trs anos."
        - Voc devia ter visto as meninas da equipe de ginstica da faculdade parando no ginsio hoje - falou o cabeudo Josh. - Luke fez uma verdadeira performance 
pra elas. Pensei que as garotas no iriam embora nunca.
        Quem era esse cara? O empresrio do Luke?
        - Ah, eu ouvi falar da equipe feminina de ginstica - disse. - Uma pena que vocs, rapazes, no puderam ir pro campeonato estadual com elas.
        Pelo canto do olho, olhei para Luke. Parecia que o meu comentrio "balde de gua fria" tinha acertado diretamente na cabea dele. No entanto, no surtiu 
efeito algum sobre os outros rapazes. Hank me lanou um olhar malicioso. Josh comeou a falar de leses esportivas.
        Os trs conversaram sobre as suas leses e os respectivos tratamentos com o mesmo entusiasmo e detalhe com que minha me discute experincias de gravidez 
com Joelle. De repente, eu me peguei olhando fixamente para partes do corpo de Luke conforme ele descrevia algum problema, e mais outro, e outro. Ele pareceu estar 
relutante em terminar aquela conversa, mesmo aps o incio do filme. Depois que vrias pessoas no auditrio pediram silncio, nos acalmamos para ver as tais coisas 
sarem de dentro de um vulco. Posso dizer que, para mim, elas no se pareciam nem um pouco com "formas obscuras do inconsciente". Lembravam mais um monte de gelatina 
mole. Para o Luke, elas no se pareciam com nada: ele dormiu durante toda a segunda metade do filme.
        Quando as luzes se acenderam, dei uma pequena chacoalhada nele.
        - Esto a fim de beber alguma coisa? - perguntou Hank, assim que samos do auditrio. - Querem bater um papo l na sala do alojamento?
        Ou os dois j esto prontos para ficar sozinhos? - disse Josh, com sua cara de lua brilhando.
        - Eu tomaria um refrigerante - respondi, recusando-me a
fisgar a isca.
        Luke concordou com a cabea. Na verdade, no estou certa se ele chegou a ver a isca pendurada na sua frente.
        A sala ficava no segundo andar de um alojamento misto. Era uma grande sala acarpetada com diversas cadeiras e almofadas agrupadas. As mesas estavam cobertas 
de p e farelos de po, e havia um forno de microondas, onde pareciam ter explodido bombas de molho de tomate. Uma garota estava sentada em um canto, ouvindo um 
CD e digitando em um laptop. Ela levantou o olhar para ns e depois voltou a trabalhar.
        Acho que eu deveria ter ficado mais feliz por ser uma garota sentada com trs gatos em uma sala de alojamento, mas estava cada vez mais entediada de ouvir 
histrias sobre leses esportivas
e desempenhos espetaculares no cavalo e nas barras paralelas. Quando Josh se levantou e saiu, eu me virei para Luke, esperanosa de que poderamos sair tambm.
        Ele sorriu para mim, olhando dentro dos meus olhos, e disse:
        - E teve tambm o campeonato de juniores, quando eu tinha 8 anos...
        Alguns minutos depois, Josh retomou com uma caixa de isopor. Ele sorriu e a abriu. Cerveja. Muitas latas de cerveja. No  de admirar que os rapazes de Kirbysmith 
no tenham ido para o campeonato estadual. Tirou duas latas e nos ofereceu.
        - No, obrigado. Eu no bebo - Luke disse.
        Mas, mesmo assim, uma lata gelada foi colocada na mo dele. E outra na minha. Como eu no a abri, Hank curvou-se sobre a mesa e o fez para mim. Deixei-a 
sobre a mesa. Enquanto isso, Luke deu um pequeno e cuidadoso gole na cerveja dele. E,depois, outro.
        Hank e Josh bebiam em grandes goles. Percebi que eles eram do tipo que se orgulhavam dos seus arrotos.
        - Ento, voc acha que os rapazes do tcnico Milani tm alguma chance contra agente? - perguntou Hank, afundando em sua cadeira.
        - Voc quer dizer as crianas do Milani? - respondeu Luke, dando um golinho em sua cerveja.
        - No, as garotas do Milani! - disse Josh.
        Os trs urraram de tanto gargalhar. A piada no tinha parecido to engraada para mim. Eles falavam sem parar sobre pessoas da ginstica olmpica, fofocando 
pior que mulheres. E, de golinho em golinho, Luke bebeu a sua cerveja.         Quando ele terminou, disse:
        - Preciso ir.
        Eu me levantei, achando que aquilo significava que estvamos indo embora. Mas Josh apontou o caminho do banheiro masculino para Luke.
        Quando Luke reapareceu, eu estava parada perto da porta da sala.
        - Desculpe, mas eu preciso trabalhar amanh - disse a ele.
        Luke assentiu com um movimento de cabea e dirigiu-se para as cadeiras onde Hank e Josh ainda estavam sentados. "Bem, estou indo embora sozinha", eu pensei. 
Ento, ele pegou a minha cerveja, acenou para os amigos e saiu comigo da sala.
        - Preciso de ar fresco - disse ele, inclinando o corpo sobre mim enquanto amos para o elevador do alojamento. Andei o mais reto que pude. Era difcil acreditar 
que Luke Hartly estava to prximo de mim, tocando o meu corpo, apoiado em mim.
        Assim que samos do prdio, o ar frio da noite pareceu reaviv-lo.
        - Voc gostaria de andar um pouco, Carly? - falou com aquela voz rouca e profunda.
        - Sim - quase sussurrei.
        Caminhamos em silncio por alguns minutos, ento comecei a contar-lhe sobre as crianas do acampamento: o endiabrado Eugene; o Tam, que adorava gua; e Miguel, 
o meu atleta. - Ele tem um bocado de talento para uma criana da segunda srie, mas precisa de estmulo - disse. - Todos os monitores esto tentando...
        - Eu tambm precisava de muito estmulo quando estava na segunda srie - interrompeu Luke. - E ainda preciso.
        - Mas o problema do Miguel  maior do que ir bem nos esportes - contei a ele. - A gente acha que ele sofre algum tipo de abuso em casa.
        - O meu tcnico acha que severidade  estmulo - disse Luke. - Eu nunca tinha sido to cobrado - ele tomou alguns bons goles da cerveja e voltou a falar 
sobre o que havia falado a noite inteira: ele.
        Atravessamos um caminho que levava at o riacho com a ponte de madeira. Quando chegamos mais perto das rvores, Luke se calou.
        - Voc gosta desse lugar, no  mesmo? - perguntei baixinho.
        -  legal estar com voc, Carly - retrucou com um sorriso. -  bom conversar com voc.
        Sentamos na beirada da ponte, deixando nossas pernas dependuradas, os dedos dos ps tocando a gua, os braos e os queixos apoiados na tbua inferior do 
corrimo. O claro da lua surgia por entre as rvores e criava reflexos prateados no riacho.
        Luke bebeu um pouco mais de cerveja.
        - Ento, o acampamento  divertido - falou.
        - , mas, de certo modo,  triste tambm - retruquei. Crianas como Miguel e Eugene nunca haviam entrado numa piscina antes. April acha que o gramado verde 
do campo de golfe  a coisa mais linda que ela j viu na vida.
        Luke escutava tudo silenciosamente. Eu sabia, sabia que se tirasse ele de perto daqueles dois maches tudo ficaria diferente. Contei a ele sobre outras crianas. 
Ele ouvia to atentamente que nem se movia.
        Ento, percebi que estava dormindo.
        - Luke. Luke? Luke!
        Ele murmurou alguma coisa.
        - Acorda, Luke!
        Ele levantou a cabea, sorriu angelicamente para mim e, ento, largou a cabea sobre o brao, fechando os olhos.
        Peguei sua latinha de cerveja. Estava vazia. Percebi que ele estava destrudo depois de um dia duro no ginsio, desidratado, e provavelmente falando a verdade 
quando disse que nunca bebe. No podia fazer nada alm de esperar. Espiei o meu relgio. 9:30. Quando olhei novamente era 9:45, 9:55, 10:05. E se ele passasse a 
noite inteira dormindo naquela ponte?
        - Luke!
        - Mmmm - disse, sorrindo.
        No podia larg-lo ali. Imaginava-o escorregando por debaixo do corrimo. J conseguia ver as manchetes dos jornais no dia seguinte: "Deus grego encontrado 
morto em crrego. Monitora de acampamento  procurada pela polcia."
        - Vamos l, Luke.Vamos- implorei. -Ovos Mexidos! - gritei em seus ouvidos. Levantei e puxei seus braos para o alto. Seu queixo despencou sobre o corrimo. 
Puxei, sacudi e arrastei seu corpo. Estava determinada a tir-lo da ponte. Quando finalmente consegui coloc-lo esparramado na margem do rio, j estava ensopada 
de suor. Desejando que no houvesse mais ningum passeando sob o luar perto daquele crrego, virei ele de lado e vasculhei em seus bolsos.
        Carteira, moedas, chicletes - sem chaves. Pensei sobre as minhas opes: os seguranas do campus ou o show de Hank e Josh. EJoelle.
        No queria colocar Luke em apuros na faculdade. E Hank e Josh no eram confiveis. No havia outra alternativa. Corri para o alojamento mais prximo e dei 
um telefonema do orelho no
primeiro andar.
        Vinte minutos mais tarde, calando sandlias de borracha e uma camiseta larga do papai, Joelle apareceu. Cabea erguida, olhando Luke.
        Ele tinha comeado a murmurar, o que era um bom sinal; provavelmente conseguiramos coloc-lo de p.
        - Com certeza, voc sabe como peg-lo - ela falou, balanando a cabea.
        - Bem, voc tem de admitir que ele  um gato.
        - Devia ter chamado a Heather - disse Joelle. - Deixe que ela fique com ele agora.
        Mordi os lbios.
        - Ela ficou te ligando. Deixou duas mensagens na secretria eletrnica. Est muito, muito feliz por voc.
        - S me ajude a lev-Io para casa, OK?- disse irritada.
        - Tudo bem, Belo Adormecido - ela debochou, levantando
um dos braos de Luke. - A grvida est aqui pra ajudar. 
        Gritando o tempo todo com ele, conseguimos coloc-lo sentado. Ele piscou para ns, como se tivesse estado sob um encantamento por uma centena de anos. Cada 
uma de ns agarrou um
de seus braos e, grunhindo como dois levantadores de peso, nos levantamos. Ento os trs despencaram no cho.
        Joelle acabou andando com o carro sobre o gramado do campus para estacion-Io mais prximo de ns. Se pegassem a gente ali, as duas filhas da diretora do 
departamento de ingls, teramos de encontrar uma nova casa. Mas a segurana estava relaxada naquela noite. Empurramos Luke para o banco de trs e fomos embora.

Oito

        Estava tentada a deixar Luke em frente  porta da casa dele, tocar a campainha e sair correndo. Mas, assim que chegamos, ele me olhou adoravelmente, tentando 
se desculpar. Sua me abriu a porta. Os braos dela eram to longos quanto os dele, e sua voz uma oitava mais grave que a minha. Em situaes como essa, eu sabia 
que a verdade era a melhor sada. S esperava que no dia seguinte, quando tudo j tivesse passado, Luke continuasse me olhando com
aqueles doces olhos verdes cheios de gratido.
        Joelle e eu chegamos em casa bem depois das onze.
        - Seu pai e eu j estvamos comeando a nos preocupar - minha me falou, em frente de uma pilha de relatrios de alunos. - Est tarde para uma segunda-feira 
 noite.
        - Bem, eu pensei que um amigo iria me dar uma carona - expliquei -, mas ele no se sentiu bem. Ento, Joelle e eu acabamos levando ele para casa.
        Mame olhou compreensiva.
        - Sabia que podia contar com vocs para que tomassem conta uma da outra - disse e voltou para o trabalho.  isso o que acontece quando seus pais so ex-ativistas 
hippie que trabalham com educao. Sorte deles que eu e Joelle no tenhamos nos transformado em delinqentes juvenis.
        Subimos as escadas nos arrastando e Joelle foi direto para o banheiro. Enquanto eu me esticava na cama, fiquei hipnotizada pelas luzinhas que piscavam na 
secretria eletrnica. Se eu fosse esperta, escutaria as mensagens enquanto Joelle estivesse com a torneira da pia aberta. Mas pelo menos duas das cincos luzes que 
piscavam eram mensagens de Heather, e eu no suportaria ouvi-la dizer como estava muito, muito feliz por mim.
        - Voc no vai checar as suas mensagens? - perguntou Joelle ao retomar para o quarto.
        - Est tarde - respondi -, muito tarde para retomar a ligao de algum. Ento, por que vou me incomodar com isso agora?
        - Mas esses recados parecem uma novela! Pensei que voc estivesse curiosa para saber como andam os seus amigos.
        Dei de ombros. Tirei o elstico do cabelo e comecei a desfazer a trana.
        - Heather est muito, muito... - ela comeou.
        - Eu sei - respondi, cortando minha irm.
        - E o Tim quer saber por que ele no recebeu mais notcias da Heather.
        - Bem,adivinha, Tim- disse.
        Os dedos de Joelle pairavam sobre a sua prateleira de cremes e vitaminas.
        - Na terceira mensagem, Heather est muito, muito...
        - Eu sei!
        - ...irritada com os telefonemas insistentes do Tim.
        - Bem feito para ela - resmunguei.
        - E,  claro, que ela tambm est muito "voc-sabe-o-que" - minha irm acrescentou,escolhendo um grande pote de creme de abacate.- Enquanto isso, Steve est 
bem confuso em relao a Heather. Ele disse que ela fica em cima do muro.
        - Boa sorte,Steve- disse,soltando a ltima volta da trana.
        - Depois vem a mensagem de uma certa Jill- continuou Joelle. Quem  esse tal de Jack?
        - Um amigo. Trabalho com ele.
        - Ele apareceu em outra mensagem tambm. A tal da Jill deixou o e-mail dela. - Joelle comeou a esfregar o creme de abacate na perna. Toda noite, ela verificava 
se no havia aparecido novas varizes. - Carly, por que  que, de repente, voc virou uma central telefnica de encontros amorosos?
        - Sei l. Foi por acaso - falei.
        - Carly,nada do que acontece com voc  "por acaso".Voc est aprontando alguma coisa.
        Peguei um grande pente de madeira para desembaraar o meu cabelo, que estava todo frisado.
        - Acho que tem alguma coisa a ver com o Belo Adormecido - disse Joelle. - Quer ouvir a minha teoria?
        -No.
        - Voc est a fim do Belo Adormecido. Isso  bvio. E voc acha realmente que pode manter Heather afastada dele - ela disse descrente, balanando a cabea.
        Como no reagi, ela continuou:
        - O Tim acha que descartou voc, mas foi voc que o descartou primeiro, pensando em deixar Heather ocupada.
        - Ningum descartou ningum - falei secamente. - Foi uma deciso conjunta.
        Ela no deu muita importncia para a minha colocao, acenando com o pote de creme.
        - Todos esses outros caras... de algum modo, voc conseguiu deix-los numa fila de espera para Heather. E, dessa vez - acrescentou com um sorriso sarcstico 
-, eu no acho que voc pretende sair com eles antes de sua amiguinha.
        Mordi os lbios de raiva.
        - Estou certa?
        - Se voc acha que sim...
        - O que ainda no entendi  como o Jack e essas outras garotas entram na histria - acrescentou Joelle.
        - As garotas no entram. Mas Jack pode ser o cara perfeito.
        - Carly, por favor, voc no est realmente achando que esse esquema vai dar certo!
        - O que eu acho  que Heather precisa encontrar o cara certo. E vou ajud-la nisso.
        - Ai, pelo amor de Deus! - Joelle comeou a afofar os travesseiros em cima de sua cama. Ela sempre teve alguns; agora ela tem muitos deles, uma coleo de 
travesseiros para confort-Ia 
noite. - O cara perfeito ser sempre aquele que estiver saindo com voc. J devia ter sacado isso. No sei por que voc largou o Tim. Devia ter largado a Heather.
        - Ela  minha amiga - disse com os dentes cerrados.
        - Ela est usando voc, Carly! A doce e tmida Heather est usando voc. Chama isso de amizade? Acho isso pattico. Heather  muito egosta. E voc acha 
que bancando a tonta est sendo uma amiga fiel. Bem, eu tenho pena de voc.
        - Bancando a tonta? Voc tambm devia se preocupar mais com isso, no , Joelle? - disse, pegando um de seus travesseiros e jogando-o com fora na cama dela. 
- Eu realmente espero que o Sam goste disso.
        Joelle arregalou os olhos. Ela nunca havia contado para ningum o nome do pai do beb.
        - Da prxima vez, lave a sua prpria roupa suja - falei a ela. - Eu vi o nome dele atrs de uma foto na sua gaveta de meias. Ele parece velho.
        - Ele  um pouco mais velho - explicou com a voz baixa. - Ele faz mestrado em antropologia.  um professor assistente.
        - Um professor? - exclamei. - Voc quer dizer que ele deu aula pra voc? Ah, no - disse, enojada. - Espero que ele tenha, pelo menos, dado um B pra voc. 
B de beb!
        Joelle puxou o lenol de sua cama e cuidadosamente arrumou os travesseiros. Era sempre assim quando ela no queria lidar com alguma coisa. Comeava a se 
ocupar, se fechando em seu mundinho. Fechava os olhos e desaparecia.
        - Joelle - falei, enquanto ainda tinha chance. - O Camarada  filho dele tambm. Ele deveria estar dando uma fora. Ajudando voc.
        - Ele no pode - disse e apagou a luz ao lado de sua cama.
        - Bem - eu falei, convencida, feliz de estar jogando em sua cara tudo o que ela havia acabado de falar para mim -, eu acho isso pattico. Sam  muito egosta.
        - Ele  casado.
        Por um momento, eu fiquei inerte, pasma.
        - Casado?
        Minha irm com um cara mais velho e casado? O que havia acontecido com a aluna exemplar que tinha entrado na faculdade cheia de sonhos, querendo estudar 
os povos da frica? Como foi que ela se transformou em uma me solteira, que s fica em casa, no subrbio de Baltimore?
        - E voc critica Heather por roubar namorados. Mas...voc deu em cima de um cara casado!
        - Eu no sabia. No no incio - retrucou Joelle, com a voz  abafada pelo travesseiro.
        - Mas depois voc descobriu.
         - Era tarde demais- ela disse.- J estava apaixonada por ele... muito apaixonada - ela levantou a cabea do travesseiro por um minuto, falando bem francamente.- 
Ainda estou.
        Balancei a cabea:
        - E ele?
        -  casado - falou categrica, ento, afundou a cabea na cama.
        -  por isso que voc est sempre rodeando o telefone, no ? Fica esperando uma ligao dele.
        - Ele j ligou duas vezes. Mas no atendi. Fiquei escutando ele falar e depois apaguei as mensagens.
        Inspirei profundamente e depois fui soltando o ar devagar.
        - Vai tomar o seu banho, Carly - disse Joelle, com uma voz cansada e aborrecida. - Est ficando tarde. Ns duas precisamos dormir. Ns trs precisamos dormir 
- e colocou a mo na barriga.
        Desliguei a luminria do meu lado e fui para o banheiro. Uns vinte minutos depois, quando voltei para o quarto, Joelle se virou rapidamente de costas para 
mim, fechando os olhos como se estivesse dormindo. Mas, graas ao brilho azulado da lua que entrava pela janela, eu j havia visto as suas lgrimas silenciosas.

        - Vai, trs!
        - Miguel, Miguel, no consegue bater nem em papel! - cantou uma vozinha.
        Eu me virei lentamente, com o meu olhar de rbitro mais austero, e dei de cara com uma fila de rostinhos sujos e suados. Tinha chegado para trabalhar na 
tera-feira de manh, exausta aps uma noite mal-dormida, pensando em Joelle. No estava com pacincia para as brincadeirinhas da segunda srie.
        - Algum falou alguma coisa?
        Uma fileira de carinhas inocentes me olhou do banco. Miguel, piscando os seus olhos rapidamente, tomou o seu lugar no canto do assento, deixando um bom espao 
entre ele e os seus colegas de time. '
        Tinha de ser cuidadosa com o que iria falar, cuidadosa para no humilhar Miguel mais ainda. Obviamente que a pequena palestra que eu havia dado no dia anterior 
sobre esprito esportivo
e trabalho em equipe no tinha surtido efeito algum.
        - Algum falou e eu quero saber quem foi.
        Metade das crianas olhou diretamente para mim, a outra metade olhou para baixo.
        - Est bem - disse. - Vamos continuar jogando, mas o time de vocs perdeu dois pontos.
        Agora, todas as crianas viraram-se e olharam com raiva a menina que havia cantado, mas eu sabia que ela no era a nica que vinha implicando com Miguel. 
Aquilo vinha acontecendo desde a semana anterior e estava me deixando desconcertada. Miguel parecia querer se enfiar debaixo de uma pedra.
        Fiquei feliz quando tivemos de parar o jogo para o almoo. Jack, Anna e eu estvamos dispensados naquele dia.
        - Eu no consigo entender - disse a eles, saltando para me sentar em cima de um murinho de tijolos. Eles tinham arranjado um lugar embaixo dos carvalhos 
do campus e levado o meu almoo e um refrigerante para mim. - Miguel  o meu grande lanador - continuei, abrindo uma latinha. - Semana passada, ele fez o melhor 
lanamento que eu vi por aqui. Mais forte e mais preciso do que qualquer outra criana da primeira, segunda ou terceira srie j fez. Quer dizer, eu percebi que 
no faltam oportunidades para elogi-lo e para deix-lo mais confiante.
        Anna concordava com a cabea enquanto me escutava. Jack olhava para mim, mas parecia no estar ouvindo nada do que eu falava.
        - Na ltima quarta, Miguel se atrapalhou todo durante um jogo. E,um pouco depois, se atrapalhou de novo. A, uma criana comeou a provocar ele, e mais outra, 
e mais outra. Eu sei que toda turma gosta de eleger um bode expiatrio. O que no entendo  por que o Miguel no revida.
        - Revidar, agora? - perguntou Anna.
        - . Ele  um atleta nato. Posso ver pela maneira como se move no campo - disse a ela. - J dei vrias chances pra ele mostrar pros outros o talento que 
tem. Mas ele sempre acaba fazendo
alguma coisa errada.
        Anna continuava concordando. Jack fitava o seu sanduche como se estivesse mergulhado em seus pensamentos. "Talvez eu aborrea tremendamente os homens", 
eu pensei. "Daqui a pouco,
ele vai estar dormindo que nem o Luke."
        - Acho que o Miguel  canhoto como eu - Jack disse baixinho. - Tenho quase certeza de que ele pinta com essa mo. Ser que ele est tentando praticar esportes 
com a mo direita?
        - No sei - respondi, tentando me lembrar de algo que provasse a teoria de Jack. - Mas agora que voc falou isso... ele  o tipo de criana que faz tudo 
exatamente como a gente pede. Pode
ser isso! Ele deve ser um atirador canhoto. Voc pode estar certo, Jack! - exclamei, sacudindo-o pelo brao, de modo que o sanduche que comia tremeu em sua boca, 
deixando cair uma folha
de alface. - Ai, desculpe!
        Ele sorriu para mim e deu uma mordida.
        - Espero realmente que voc esteja certo - continuei. - Eu sei que a gente no deve ter favoritos, mas eu gosto muito dele.
        - Bem,  impossvel no ter favoritos - disse Anna. - O fato  que as crianas so pessoas. Elas tambm tm personalidade. E ns vamos sempre ter uma afinidade 
maior com alguma criana.
Assim como ns temos com pessoas da nossa idade. S no podemos demonstrar isso.
        Ns trs ficamos um tempo mastigando em silncio.
        -  engraado, no ? - disse, olhando para Anna. - A maneira como a gente  atrada por algum. s vezes,  um estalo. Na mesma hora.
        Ela concordou.
        - Mas, s vezes, a pessoa vai chegando de mansinho. E, de repente, voc se d conta de que est pensando nela o tempo todo. Est sempre esperando, querendo 
encontrar aquela pessoa novamente.
        Anna fitou Jack.
        - Como o Ovos Mexidos?- sugeriu Jack.
        - Como o Luke - disse com teimosia.
        - E a? Como  que foi ontem  noite?
        Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele iria querer saber.
        -Bom.
        - Bom? - repetiu Jack. - Depois de correr pra casa, lavar, secar e passar sua roupa, e, provavelmente, tambm passar o cabelo, tudo o que voc consegue dizer 
 "bom"?
        - Bem, o que voc quer? - perguntei com raiva. - Uma descrio passo a passo?
        -  possvel - falou Anna, fechando a sua garrafa de gua.
        - O filme foi muito interessante - falei friamente.
        Jack abriu um sorriso:
        - No era aquele em que todas as criaturas parecem um monte de gelatina mole?
        - - respondi. - Pensei que um tipo como voc no gostasse de filmes assim.
        Eu no disse que no gosto. S estava curioso para saber a sua opinio.
        - Foi bom - retruquei, apertando a mandbula.
        - Acho que j chegamos  concluso de que o encontro e o filme foram bons - falou Anna.
        - Anna e eu estvamos atravessando o campus esta manh - continuou Jack -, e sabe aquela rea com grama perto do crrego e das rvores?
        - Sei - disse apreensiva.
        - Sabe aquela placa grande em que est escrito "Faculdade Kirbysmith"? Est derrubada. Algum dirigiu sobre a grama ontem  noite e deve ter passado por 
cima dela.
        - No  possvel que a gente tenha batido naquilo! - gritei.
        Jack e Anna se entreolharam, e, ento, comearam a rir descontroladamente.
        - Voc me deve uma, Anna - disse Jack. - Eu falei pra voc que aquelas marcas de pneu eram do carro dela.
        - Bem, mas voc est errado - eu o interrompi. - Minha irm estava dirigindo.
        - Sua irm? - seus olhos azuis ficaram ainda mais brilhantes com a gargalhada. - Quer dizer que existe outra como voc?
        - No, no existe. Ns no poderamos ser mais diferentes - disse a ele.
        -  voc que me deve, Jack - retrucou Anna, colocando a mo sobre a dele. Foi um gesto casual, mas chamou a minha ateno, porque ela no era o tipo de pessoa 
que toca os outros.
Parece que, em um curto perodo de tempo, ela e Jack haviam se tornado mais ntimos.
        Anna retirou a mo e amassou o saquinho de papel do seu sanduche.
        - Bem, h uma pilha de textos sobre educao esperando por mim na biblioteca - ela disse.
        - Precisa de ajuda para carreg-los? - perguntou Jack, arremessando o saco de papel que Anna acabara de amassar dentro da lixeira.
        - No, no - ela falou rapidamente. - Termine de almoar. Mesmo assim, obrigada, Jack - e abriu um lindo sorriso para ele. "Ser que estava acontecendo alguma 
coisa entre eles?", fiquei pensando.
        - Ela  legal- eu disse enquanto ela saa.
        -  mesmo - Jack concordou.
        - Est ficando com ela?
        Jack se engasgou com o sanduche.
        - Como?
        - Voc est ficando com ela?
        - Ela est no ltimo ano da faculdade - ele me lembrou. - Somos amigos. S isso.
        - Ah. Como voc e eu.
        Ele hesitou:
        - Mais ou menos.
        Comecei a balanar os ps, batendo os calcanhares contra o murinho de tijolos.
        - Quer dizer que eu e voc somos amigos? - perguntei.
        - Por que voc est perguntando isso?
        - Por que voc est sempre me perguntando "por que eu estou perguntando"?
        Olhamos um para o outro e, em seguida, nos viramos para o lado.
        - Certo - disse a ele. - Se somos amigos, eu quero pedir um favor pra voc. Na verdade - eu me corrigi -, vamos colocar desta maneira. Eu vou fazer um grande 
favor pra voc. Um favor fantstico. Tenho uma tima idia. Heather.
        - Heather, o qu?
        -Heather Larsson. Como voc pde esquecer? Eu acho que vocs fariam um par perfeito.
        - Voc acha?
        Parece que Jack no gostou muito do comentrio. Pude perceber o modo como ele apertava os lbios.
        - No precisa ficar nervoso.
        - No estou - ele disse, disfarando a tenso da boca. 
        -Ento, fique animado! - falei. - Existe um monte de carinhas que dariam a vida para conseguir um encontro com Heather. Ela  linda. S veste roupas sexies. 
E seus olhos cinza destroem qualquer corao. Ela...
        -Est bem- ele me interrompeu. - J ouvi tudo isso na festa do Steve.- Ele desceu do muro e parou na minha frente. - Sabe, Carly,voc acha que sabe muito 
mais sobre os rapazes do que
voc realmente sabe. Acha que ns somos todos iguais e que gostamos do mesmo tipo de garota. Talvez voc pense que somos todos estpidos. 
        - Mas voc no sabe...
        - E o pior - ele continuou, me encarando, apoiando as mos sobre o muro ao lado do meu corpo, chegando bem perto de mim -  que voc tem certeza de que pode 
manipular a gente.
Acha que sabe tudo sobre mim. Pensa que pode lidar comigo do mesmo modo que lida com os outros. E quer me usar para os seus propsitos pessoais. Eu odeio isso! Odeio!
        Eu engoli seco e fitei os seus olhos azuis.
        Ele deu um passo para trs.
        - Toda essa intriga, tentando juntar Heather e algum. Heather e eu. Se voc quer tanto o Ovos Mexidos,v atrs dele honestamente.
        -Mas voc no conhece Heather. Voc no sabe sobre Craig e Todd e Lenny e Taylor e Bo e Tim! Eu nem consigo me lembrar de todos eles. Mas eu sa com cada 
um antes de Heather. Eu no estou exagerando - acrescentei, quando ele me olhou surpreso.- Ela pega todos eles. Pergunte pra minha irm.
        - Ento, por que voc ainda  amiga dela? 
        - Porque sou uma idiota!- explodi.- No  bvio? Eu me preocupo com essa pessoa que se preocupa comigo, mas que se preocupa muito mais com ela prpria. Sou 
uma completa idiota! V em frente, sinta pena de mim. Minha irm sente... Mas eu acho que Joelle e eu temos de sentir pena uma da outra - acrescentei, mordendo os 
lbios.
        Eu no sei por que eu fiz aquilo. No costumo chorar facilmente e nunca choro na frente de outras pessoas, mas as lgrimas no paravam de cair. Estava me 
sentindo totalmente miservel e confusa sobre Heather. Estava extremamente irritada.
        - Carly - ele falou docemente, pegando com os dedos uma mecha de cabelo que caa no meu rosto. Fechei os olhos, mas meu nariz continuava escorrendo. Abaixei 
a cabea de modo que o
meu cabelo cobrisse o meu rosto. Comecei a vasculhar os bolsos da cala com as mos. E ele gentilmente puxou meu cabelo para trs e me deu um leno de papel.
        - Carly, escute - disse Jack, ajoelhando-se para conseguir ver o meu rosto. - Quando a gente se preocupa muito com uma pessoa, a gente acaba fazendo coisas 
que as outras pessoas acham uma bobeira.
        - Com certeza. Eu aposto que voc e Anna fazem isso o tempo todo.
        - No sei quanto a Anna, mas eu sou bom nisso: melhorar a cada dia - ele acrescentou secamente.
        - Isso  difcil de acreditar - eu disse, fungando. - Voc  do tipo centrado, que fica na sua.
        Ele fez uma careta.
        - Obrigado... se  que isso foi um elogio.
        Sorri um pouco.
        - Certo, e o que voc acha dessa idia? - perguntou Jack. - Eu vou sair com a Heather se voc realmente quer que eu faa isso, mas s se voc for junto. 
Assim, isso vira um encontro casual.
        - Na verdade, isso at seria melhor - considerei a proposta. - A Heather foge sempre que um cara chega muito diretamente nela.  melhor que ela no perceba 
que tem algo combinado.
        - Nada vai ser combinado - ele disse calmamente. - Carly, voc no pode tomar como verdade que eu estou a fim da Heather. Se isso acontecesse, eu no pediria 
a sua ajuda. Eu no
precisaria da sua ajuda - acrescentou confiante. - Vamos apenas sair e nos divertir, certo?
        -Certo - disse feliz. Mas eu j estava prevendo como seria isso e, mais tarde, naquele mesmo dia, eu chamei Harry para ir conosco. Era bom ter algum com 
quem conversar assim que Jack comeasse a olhar fixamente para os lindos olhos de Heather.

Nove

        - Ento, esse  o Jack - disse Joelle, na quinta  noite. Meu pai abriu a porta, trocou algumas palavras com Jack e Harry e, depois, foi para o quarto com 
sua revista Mac world.Naturalmente, minha irm se sentiu forada a assumir o papel de "avaliadora da famlia".
        Eu j havia tentado explicar a situao para ela, algumas horas antes:
        - No  um encontro de verdade, Joelle. Pelo menos no para mim. Portanto, voc no precisa analisar os rapazes.
        - S que estou acompanhando essa novela por uma semana e meia. No vou perder a oportunidade de conhecer um dos atores principais.
        Agora ela estava encarando os dois, olhando-os de cima a
baixo. Harry ficou vermelho de vergonha.
        - Ouvi muito sobre voc - Joelle disse a Jack.
        - Mesmo? - ele me olhou, sorrindo, meio incerto.
        - Bem, no da Carly, mas voc  muito popular na nossa secretria eletrnica - ela completou.
        - Ah, e voc deve ser aquela que entrou com o carro no bosque de Kirbysmith- falouJack.
        Joelle soltou uma gargalhada.
        - Ento a Carly te contou sobre o Belo Adormecido. 
        - BeloAdormecido?- Jack ficou intrigado.
        - Joelle!- eu disse num tom de advertncia.
        - Que cara... - Joelle continuou, balanando a cabea.
        Jack virou-separa mim, seus olhos brilhavam. Deve ter deduzido
que Joelle estava falando sobre o Ovos Mexidos.No recebia notcias de Luke desde segunda  noite e tinha escapado de todas as tentativas de Jack e dos outros monitores 
de saber como havia sido o nosso encontro.
        Olhei para Harry. Esperava que ele nos mantivesse animados durante a noite toda, assim como ele fazia no trabalho. Mas Harry tinha se transformado em uma 
outra pessoa. Em vez de bater
palmas e dizer "Certo, pessoal, vamos embora, e vamos fazer dessa a melhor noite de nossas vidas!", ficou parado no mesmo lugar desde que entrou na sala.
        - Joelle, este  Harry, o nosso destemido chefe - disse, tentando fazer com que ele mudasse de lugar.
        Harry sorriu, parecendo um pouco nervoso. Esperava que ele fosse estender a mo como sempre fazia, dando pra gente a impresso de apertar a pata de um urso 
amigo. Mas suas mos permaneciam cadas ao lado do corpo como se ele fosse um menino em seu primeiro baile de escola.
        - Muito prazer, Joelle.
        - Bem, a gente no quer deixar a Heather esperando.
        - Por que no? - perguntou Joelle.
        Jack soltou uma gargalhada.
        - Joelle - disse Harry -, voc gostaria de vir conosco?
        Minha irm o fitou, ento, ficou corada. Foi a primeira vez que a vi assim desde que veio grvida para casa.
        -  tudo o que eu precisava - ela disse acidamente -, chego a ficar enjoada s em pensar em parques de diverso.
        Harry olhou confuso para ela.
        - Eu acho que a Carly ainda no contou o pequeno segredo da nossa famlia. Mas eu tenho um beb aqui dentro - e tocou a barriga.
        - Ah...bem... que legal.Meus parabns!- disse Harry.
        Joelle esboou algo entre uma careta e um sorriso. Harry parecia querer escapar pela janela mais prxima. Sutilmente comecei a acompanh-lo at o hall de 
entrada.
        -  uma pena que no possa vir com a gente - disse Jack. - Gostaria de saber mais sobre o Belo Adormecido.
        - Ah, eu poderia te contar vrias coisas interessantes - falou Joelle, piscando o olho.
        Empurrei Jack pela porta e, finalmente, samos.
        Harry permaneceu calado durante todo o percurso at a casa de Heather. Eu me sentei no banco da frente do carro, ao lado de Jack, explicando-lhe o caminho 
e dando alguns conselhos sentimentais.
        - Carly - ele finalmente disse -, eu pensei ter dito a voc que este no seria um encontro amoroso. No  um encontro.  apenas um grupo de amigos saindo 
para se divertir.
        - Certo. E esta  apenas uma discusso terica. Estou lhe falando o que sei sobre encontros e sobre Heather caso voc ache que isso possa ser til no futuro.
        Ele suspirou.
        - Quer dizer, existem to poucas oportunidades para um cara... Vire  esquerda. Esquerda! -eu gritei.
        Jack puxou o volante, e o carro derrapou na esquina.
        - Da prxima vez - ele disse -, avise antes de atravessarmos o cruzamento, certo?
        - Por exemplo - eu continuei -, imagine que voc e uma garota esto vendo o pr-do-sol ou a lua cheia, ou as luzes da cidade, seja l o que for. Onde voc 
ficar em p?
        - Como assim "onde"? - perguntou Jack. - Isso  um teste?
        - S me fale onde.
        - Que tal uma mltipla escolha? - ele pediu.
        - A, em frente dela. B, ao lado dela. C, atrs dela.
        - B, ao lado dela - falou, dando de ombros.
        - Errado.
        - Bem, talvez seja errado para voc... - Jack comeou a falar.
        - Se voc fica em p atrs dela e faz tudo do jeito certo: tocando a levemente - falei, tornando a minha voz doce e suave - com seus braos, enlaando suavemente 
o corpo dela, as suas mos quase, quase tocando os seios dela, a sua bochecha roando a dela, sua boca chegando mais perto, to perto que a deixa louca pra... o 
sinal vermelho, o sinal vermelho! Pare, Jack! Nossa, voc no viu?
        - Voc est me dando vrias instrues diferentes ao mesmo tempo, Carly!
        - Tudo bem, Harry?- perguntei.- Talvez seja melhor voc apertar o cinto de segurana.
        Harry concordou, seu rosto estava rosado novamente.
        - Agora, onde  que eu estava mesmo... ah, , sua bochecha roando a dela...
        Jack deu uma olhada pelo espelho retrovisor.
        - Voc no precisa continuar. Acho que o Harry e eu j entendemos tudo.
        - timo. Estamos quase l. Vire  direita.  no final dessa rua escura. E como voc  novo por aqui, provavelmente deve querer saber onde ficam as ruas escuras. 
 uma sorte que Heather viva em uma delas. No que voc v precisar disso logo mais,  claro. Voc no quer ser precipitado.
        Jack entrou na rua escura, desligou o carro e, depois, as luzes.
        - O que voc est fazendo? - perguntei.
        Ele no me respondeu de imediato. Harry sussurrou do banco de trs:
        - O que est acontecendo?
        Jack curvou-se sobre mim. Mesmo na escurido, pude perceber quanto ele estava prximo. Aquele mesmo aroma agradvel, a longa linha do seu queixo e o seu 
maxilar forte. Quando falou, a voz soou profunda e tensa:
        - Repita depois de mim. Isto no  um encontro. Somos apenas quatro amigos nos divertindo.
        - Ns certamente vamos nos divertir - eu disse, sorridente.
        - Car1y- ele segurou o meu queixo com um dedo, um nico dedo, mas eu me senti completamente imobilizada. Aquela proximidade me mantinha esttica. - Repita 
depois de mim. Isto no  um encontro.
        E havia mais um conselho que eu queria dar. Quando a gente toca uma pessoa daquele jeito no escuro... mas, de repente, me dei conta de que Jack devia saber 
o que estava fazendo.
        - Tudo bem - eu disse, escapando dele. - J entendi a mensagem.
        -Bom.
        Continuamos a seguir com o carro.
        Embora estivssemos atrasados, Heather estava ainda mais atrasada, o que j havia se transformado em uma rotina dos nossos encontros duplos. Eu fiz o tour 
de sempre ao redor da piscina e do jardim da casa dela. Harry ficou impressionado. Jack, no entanto, continuava impassvel, at mesmo depois que Heather apareceu 
vestindo uma minissaia justa, os cabelos loiros caindo suavemente ao redor do rosto. Tudo bem. Heather adorou a falta de interesse dele. E quando Jack puxou o elstico 
que estava prendendo o meu rabo-de-cavalo, dizendo que ele estava escorregando, ela mal disfarou a inveja. Comecei a achar que Jack sabia exatamente o que estava 
fazendo. Quando samos para o parque de diverses, fiz com que Heather o guiasse, assim ela poderia vencer sua timidez.
        Sempre adorei parques de diverses. E l estvamos ns, perambulando entre carrinhos de vidro transparente com pipoca amanteigada, cachorro-quente e todos 
aqueles rolos coloridos de algodo-doce. Havia tambm cabines de arco e flecha, tiro ao alvo e arremesso de basquete.
        - Primeiro vamos andar, depois comer, que tal? - sugeriu Harry. Finalmente, ele havia se reanimado e retomado seu nimo habitual de lder de escoteiros.
        - A montanha-russa!- exclamei, quase disparando a correr.
        - Voc gosta?
        - Quando eu era criana - disse Jack, ao meu lado -, eu vivia pedindo para minha me colocaruma no quintal l de casa.
        - Esta aqui  pequena, mas a gente d trs voltas completas.
        - Talvez essa coubesse no meu antigo quintal - ele falou.
        Enquanto isso, os outros dois vinham correndo atrs de ns.
        Precisei fazer algumas manobras para que ficssemos nas posies certas: Harry e eu no assento da frente, que  o meu lugar favorito, Jack e Heather confortveis 
no segundo carrinho.
        Jack nos contou sobre um acidente que aconteceu na montanha- russa do Parque Hershey, que, tenho certeza, ele inventou.
        E eu contei a histria de um acidente com a montanha-russa do Busch Gardens, que, definitivamente, eu inventei. Continuamos fazendo essas provocaes enquanto 
espervamos que outras pessoas entrassem nos carrinhos. Heather ria educadamente.
        Ento, nossas cabeas caram para trs e comeamos a andar. Ah, no existe nada como uma montanha-russa! A subida lenta, a queda repentina, para cima de 
novo, ento a descida, curva fechada para a esquerda, curva fechada para a direita...
        - Sem as mos! - gritou Jack, atrs de mim.
        Levantei os braos e permaneci assim, tendo a sensao de que iria decolar a qualquer instante.
        - Sem os ps! - gritou Jack, de novo. O qu? - Eu me virei para ele rindo. O vento bateu em meus cabelos e a faixa de seda que o prendia escorregou. Jack 
pegou-a em pleno ar.
        Meu cabelo solto voava para todos os lados como se estivesse dentro de um furaco. Era impossvel segur-lo. Estiquei a mo por cima do ombro para pegar 
a faixa de cabelo. Jack se inclinou para a frente, mas nossas mos mal se tocavam. Virei-me para olh-lo. Ele estava morrendo de rir do meu cabelo "selvagem". Ento 
passou a sorrir para mim, seus olhos fixos nos meus, brilhantes com o vento. Ficamos assim, nos olhando, por um tempo, os trilhos passando por baixo de ns.
        Ento os carrinhos foram travados na parada final.
        - Fim da viagem - murmurei e pisei sem estabilidade nenhuma na plataforma. Harry me estendeu a mo, e Heather e Jack desceram pela rampa de trs. Vi que 
minha faixa estava presa firmemente nos dedos de Jack.
        - Precisa de um pente? - perguntou Heather, retirando a faixa dos dedos de Jack.
        - Tenho um, obrigada.
        Meu pente de madeira no conseguiu melhorar muito o desastre. Amarrei a faixa da melhor maneira que pude, amassando o cabelo para baixo.
        - Agora, a gente precisa de algo mais calmo - disse Harry.
        - A roda-gigante - sugeriu Heather, e ns andamos para l.
        Quando chegamos na frente da fila, Jack acelerou o passo e entrou no carrinho junto com Harry. Heather e eu ficamos ali paradas nos olhando.
        - Ele  meio diferente, no ? - comentou Heather.
        - Jack? .
        Entramos juntas no carrinho e o funcionrio do parque travou a barra de segurana.
        - O Luke sabe que o Jack est interessado em voc? - perguntou Heather.
        - Ele no est- repliquei rapidamente.- Bem, pelo menos eu acho que no - acrescentei, percebendo tarde demais que isso tornaria Jack mais interessante para 
a minha amiga.
        - Voc ainda est interessada no Luke?
        - Ainda estou esperando pelo primeiro beijo - disse.
        - Ah!
        Tive a sensao de que Heather estava se grudando em mim, ainda que estivssemos sentadas em lados opostos do assento acolchoado com um espao entre ns 
suficiente para uma outra pessoa. Andvamos nessa roda-gigante todo ano. Quando ramos crianas, sentvamos perto do centro com as mos dadas.
        - Bem, voc sabe Carly, eu estou muito...
        - Feliz por mim. Eu sei - quando ela me olhou desapontada, eu acrescentei: - Amigas podem ler os pensamentos. - E ento, mudei de assunto e perguntei sobre 
suas aulas de dana.
        Havia um rapaz na turma de Heather que ela achava bastante interessante.. Conforme girvamos o carrinho em crculos, ela me contou sobre ele. Comentou que 
ficava o tempo todo perto dela. Uma pena que eu no pudesse dar uns conselhos a ele; uma pena que eu no pudesse dizer a ele que sasse primeiro comigo.
        Quando descemos, Jack quis tentar o arremesso de basquete.
        - A cesta  pequena - avisei.
        - Ah, adoraria ganhar aquele urso!- falou Heather.
        Primeiro, Jack gastou trs fichas tentando, ento eu ganhei o urso para ela. Pensei que ele fosse ficar louco por isso, afinal, sabemos como os rapazes so 
machistas -, mas ele apenas sorriu.
        - Aqui - disse Harry, jogando umas fichas na minha mo. - Mais trs fichas. Veja se consegue ganhar um para Joelle e o beb dela.
        Olhei para ele, emocionada pela sua ateno.
        Ganhei na segunda tentativa, e ele escolheu um animal de pelcia: um urso panda de rosto redondo segurando carinhosamente um beb panda.
        Depois que colocamos os bichinhos de pelcia dentro do carro, Harry disseque queria experimentar a casa mal-assombrada. Naquele parque, ela era um dos lugares 
mais nojentos que eu j tinha visto. Bonecos de borracha espirrando sangue artificial, lobos sanguinrios com olhos vermelhos feitos com luzes pisca-pisca de Natal 
e uma trilha sonora horrvel. O legal  que no havia carrinhos, a gente andava pelo lugar. E, s vezes, eles colocavam algumas pessoas vestidas como fantasmas para 
assustar. As salas escuras - onde no havia nada, mas voc sempre pensava que haveria - eram provavelmente a nica parte realmente aterrorizante. Algumas pessoas 
sempre tinham dificuldade para achar a sada.
        Depois que passamos os lobos, o cemitrio e a sala dos fantasmas que flutuavam com o vento de pequenos ventiladores, ficamos numa fila e, ento, depois de 
atravessar uma porta, mergulhamos na escurido. Comeamos a tropear pelos cantos, tentando nos achar. Eu segurei uma mo bem grande, do Harry, esperava! Depois 
apertei a mo de Jack. Tinha certeza de que era a mo dele. No sei como, mas tinha certeza.
        Ento, algum que estava escondido no escuro veio grunhindo e correndo em nossa direo, dispersando o grupo. Fiquei um pouco perdida, mas j tinha estado 
naquele lugar antes para ter idia de onde era a sada. Ao me aproximar da porta, senti que Jack estava em p perto de mim. E estava muito perto. Pude sentir o seu 
cheiro.
        - Carly - ele sussurrou.
        - Desculpe, no... - sussurrei de volta, tentando disfarar minha voz.
        Ele riu baixinho
        - Acho que a porta fica nessa direo - e ele pegou a minha mo.
        Talvez devssemos ter chamado os outros, mas no chamamos. A sala seguinte era to escura quanto a anterior. Jack e eu nos agarramos e seguimos tateando 
as paredes para encontrar a sada. Toquei algo macio, mas no me lembrava de ter sentido nenhuma cortina ali nas minhas visitas anteriores. Ento um fantasma saltou 
e eu gritei. Jack agarrou a minha mo e me puxou para perto dele.
        Acho que nada anima mais uma casa mal-assombrada do que gritos de verdade. O fantasma puxou o meu cabelo e encostou seus dedos gelados na minha nuca. Na 
mesma hora, abafei meu berro no peito de Jack. Seus braos me envolveram. Ele me segurou to prximo do seu corpo que pude sentir a vibrao da sua respirao no 
meu rosto. Podia sentir os seus joelhos e suas coxas encostarem nas minhas pernas. Senti o calor que vinha de todo o seu corpo.
        E, pela primeira vez depois de vrios anos, eu me lembrei do monstro quente e ofegante que eu toquei curiosamente com os dedos, naquela sala escura da casa 
mal-assombrada. Pude entender agora o que no consegui compreender naquela poca, quando tinha apenas 7 anos: o monstro era um casal se agarrando! Eu me desvencilhei 
de Jack e quase cai dentro da cmara dos horrores.
        Foi um alvio entrar naquela sala mal-iluminada. Pelo menos ali no seria um problema se eu estivesse com o rosto vermelho, pois a luz vermelha do lugar 
fazia com que todos ficassem da mesma cor. Olhei para Jack, e me virei rapidamente para as cenas de horror: um soldado sendo esticado por uma mquina de tortura, 
uma mulher ao lado de uma guilhotina segurando a prpria cabea e um cara deitado em uma cama de pregos. Olhei fixamente para a cama de plstico como se estivesse 
fascinada por aquilo. Jack chegou por trs de mim e ficou parado bem perto. Movi meu corpo ligeiramente para o lado.
        Ento, ouvi a voz de Heather.
        - Eu disse para voc que sabia o caminho, Harry. Jack e eu nos viramos.
        - Oi, gente - Harry nos cumprimentou.
        - Mas voc no acreditou em mim - continuou Heather. - Agente podia ter ficado l para o resto da vida!
        Harry riu, sacudindo os ombros.
        - Gostaria de trazer as nossas crianas aqui - ele disse para mim e para Jack. - Seria muito assustador para eles.
        - Voc no escutaram algum gritando de verdade? - perguntou Heather em meio a risadinhas.
        - Fui eu - admiti.
        Ela me olhou surpresa.
        - Voc? Carly, voc nunca foi de gritar!
        Senti minhas bochechas ficarem quentes.
        - Talvez s agora ela tenha sentido medo de alguma coisa - disse Jack, enquanto me observava.
        Nesse momento, como vrias pessoas comearam a entrar na cmara dos horrores, andamos em direo  sada. Passamos por uma sala com teias de aranha e finalmente 
samos da casa mal-assombrada.
        Nos dois passeios seguintes, me sentei perto de Harry. Mas no foram necessrias muitas manobras. De qualquer modo, Heather tinha chegado  concluso de 
que Jack era intrigante. Na maioria das vezes, ela direcionava os seus comentrios para ele, e Jack a escutava da maneira de sempre: sorrindo o tempo todo e soltando 
algumas gargalhadas. Na volta para casa, eu fiquei no banco de trs, ao lado de Harry. Quando paramos em frente da casa de Heather, falei para Jack:
        - Por que no acompanha Heather at a porta?
        Ele me deu uma olhada feroz pelo retrovisor. S conseguia ver os seus olhos escuros.
        - Claro.
        O caminho at a porta da casa de Heather era ladeado por arbustos e um grande loureiro protegia a entrada. S era possvel enxergar uma luz que vinha da 
lmpada no teto e diversas folhas da rvore. No que eu estivesse tentando ver alguma coisa alm disso!
        - Carly? - chamou Harry, tocando o meu brao.
        - O qu? - disse, desviando o olhar dos arbustos.
        - Queria saber se voc acha... bem, queria ter certeza de que Joelle vai gostar de ganhar a mame ursa com o beb.
        Foi possvel identificar a preocupao em sua voz.
        - No sei a histria toda - continuou Harry - e no estou pedindo que voc me conte nada, mas pelo que pude perceber, ela no estava pulando de alegria por 
estar grvida.
        - Voc tem toda razo - disse, enquanto meus olhos caminhavam na direo dos arbustos e da luz que vinha do alto.
        - Acho que deve estar sendo um momento difcil para ela e no queria torn-lo pior.
        Tive que me esforar para olhar novamente para Harry:
        - Acho muito legal da sua parte se preocupar com Joelle, enquanto estamos aqui nos divertindo. E a verdade  que, hoje em dia,  impossvel saber o que vai 
deix-la feliz. Ento, a nica coisa que podemos fazer  algo legal assim... e desejar que as coisas melhorem para ela.
        Harry concordou com a cabea.
        - Ela ainda gosta dele - eu disse.- As pessoas ficam malucas quando se apaixonam.
        - Acontece com todos ns - Harry retrucou com um suspiro. - s vezes, quando menos esperamos.
        Dei uma espiada no relgio e olhei de volta para a porta. Eu j teria ido e voltado com Heather umas quatro vezes nesse tempo que ela e Jack estavam gastando. 
Ser que ela estava usando o velho truque da chave perdida, ou era Jack que no conseguia dizer adeus? Depois de uma noite com alguns olhares rpidos e umas poucas 
palavras, enquanto eles ainda se conheciam melhor, a fasca podia ter se acendido durante os dois ltimos brinquedos.
        Encostei os meus ps nas costas do banco da frente e comecei a mexer com a fivela do meu cinto de segurana. Fechei os olhos e tentei me lembrar do rosto 
de Luke. Mas toda vez que fazia isso, ele estava com os olhos fechados, usando o vestido da Bela Adormecida da Disney. Apertei mais os olhos e tentei imagin-lo 
me dando um longo e carinhoso beijo de boa-noite - da mesma maneira que Jack, provavelmente, estaria beijando Heather naquele momento.
        Ainda estava de olhos fechados quando Jack abriu a porta do carro. Ele entrou e se virou para ver como eu e o Harry estvamos. No conseguia pensar em nada 
para dizer; aparentemente, nem ele. E Harry estava em outro planeta. Fomos para casa em silncio. Chegando em casa, Harry me acompanhou at a porta, olhou para a 
nica luz que vinha de uma janela no segundo andar e, ento, colocou a mame ursa na minha mo. Ele foi embora, esquecendo de dizer boa-noite.
        "Talvez eu tenha pego isso do Harry", pensei enquanto abria a porta. "Ou quem sabe da Joelle?  Alguma coisa estava acontecendo e eu no estava gostando nem 
um pouco. Era uma pequena e estranha dor no corao.

Dez

        - Eugene, por favor, tire o garfo do cabelo da April e jogue-o no lixo - falei, no almoo do dia seguinte.
        - Por qu? - perguntou ele.
        - Porque ele vai ficar preso nas fivelinhas dela.
        - As pessoa sno param de criticar- sussurrou Jack.- Acho que ficou legal.
        - Ah - tentei sair andando, mas Jack me pegou pelo brao. Ele e eu tivramos pouco tempo para conversar naquele dia. De caso pensado, tinha chegado mais 
cedo, separado o equipamento que precisava e sado do escritrio antes que ele aparecesse. E estava evitando o Harry tambm. Nunca fui muito boa para mentir encarando 
uma pessoa, mesmo quando isso era a coisa mais educada a ser feita. Assim, deixei um bilhete para ele dizendo quanto Joelle tinha gostado dos ursinhos.
        A verdade  que Joelle havia olhado para os ursos como se eu tivesse levado um par de ETs para casa. E, logo em seguida, ela os enfiara na sua prateleira 
mais alta, onde os antigos livros de cultura africana estavam acumulando poeira. Ela me esperou acordada
na noite anterior, de modo que pudesse me entregar o seu relatrio telefnico.
        - Voc tem trs mensagens - ela anunciou assim que pisei no quarto.
        Depois de ter escutado duas garotas desesperadas por Jack, eu resolvi desligar a secretria.
        Mas Joelle ligou-a novamente. Havia uma mensagem de Luke. Ele estava triste pela segunda-feira. E queria saber se eu estaria livre no sbado  noite, se 
eu gostava de shows de humor. Ele gostava.

 "Que tal um jantar e um show de humor logo em seguida?" E deixou um telefone para contato.
        -  o que voc estava esperando, no ?
        - - eu disse. - Claro. No ?
        - E ento... - Jack falava para mim agora, sua mo em meu brao, me puxando de volta para o presente -, voc tem planos para esse fim de semana?
        - Ah, tenho. Mesa quatro, peguem a esponja. Vocs derramaram acar suficiente para atrair um batalho de moscas.
        - Com o Luke? - perguntou Jack.
        - Ovos Mexidos - eu disse, de to acostumada que estava a corrigi-lo.
        Ele riu:
        - Deixa pra l. Eu tenho uma idia - contou. - E se a gente fizesse um encontro duplo? Voc e Luke, eu e Heather.
        Cravei os olhos nele.
        - Era s uma idia - ele falou.
        - Acho que voc no entendeu - retruquei. - O motivo de eu querer encontrar o par perfeito para Heather  justamente mant-la afastada do cara com quem eu 
estou saindo.
        - Acho que  voc que no entendeu - retrucou Jack. - Luke e Heather nunca conseguiro ficar juntos. Ambos so muito egocntricos para ficarem mais do que 
um dia ou dois juntos. Pense sobre isso, Carly. Se os dois querem ser o centro das atenes, quem  que vai dar o brao a torcer?
        - Voc nem conhece o Luke - falei irritada.
        - Conheo o tipo dele.
        - Ele no quer ser o centro das atenes - insisti. - Ele no fica atrs disso. S se acostumou com essa situao. Se voc tivesse o corpo dele, tambm teria 
se acostumado.
        Jack permaneceu em silncio por um instante.
         - Provavelmente- ele disse,comum meio sorriso.- Ta bom... Qual  o telefone da Heather? - E me entregou uma caneta e um pedao de papel.
        - Eugene - ele chamou -, tire o garfo do cabelo da Janet. Combina perfeitamente com o vestido dela, mas ela no gostou.
        Escrevi o nmero de telefone no papel e passei para Jack.
        - Divirta-se com o Luke - disse ele, olhando dentro dos meus olhos e me segurando por um momento.
        - Obrigada - retruquei, me desvencilhando dele.
        Quer dizer, um encontro de verdade com Luke Hartly. Era o que eu estava esperando, no era?

        -O que voc est esperando? - perguntou o comediante com uma voz exagerada e Luke desatou a rir.
        Eu estava esperando um beijo dele. Sabia que um beijo longo e gostoso mudaria tudo. Acreditava nisso do mesmo modo que, na segunda-feira passada, havia acreditado 
que ficar a ss com ele mudaria tudo.
        Um pouco mais cedo, tnhamos jantado sozinhos em uma aconchegante mesa para dois. Uma pena que aquele restaurante natural tivesse um cheiro to estranho. 
Enquanto Luke me contava
sobre o treinamento da ltima semana e o da prxima - todos eles parecendo a mesma coisa para mim -, eu fitava fileiras e mais fileiras de frascos marrons de vitaminas. 
Resolvi cutucar
algumas couves-de-bruxelas que se escondiam embaixo de um tapete de alface orgnica e pareciam estar se reproduzindo ali. Daria qualquer coisa por um sanduche.
        - Achei que voc iria gostar desse lugar - disse Luke. - Voc  praticamente uma atleta.
        - Eu sou uma atleta - respondi.
        Acho que ele mal me escutou porque, uma hora depois,estava rindo exageradamente das piadas sobre mulheres esportistas que o comediante contava. Mas no riu 
tanto durante a apresentao seguinte: uma mulher usando botas e uma saia de oncinha que falava algumas coisas interessantes sobre os homens. Enquanto isso, eu me 
entupia de amendoins e pedaos de queijo, vida por alguma coisa muito salgada e com alto teor de gordura. Depois, ele me levou para casa.
        - Eu me diverti muito - disse Luke,enquanto me acompanhava at a porta. Tive vontade de olhar o relgio para ver se conseguiria fazer uma despedida to longa 
quanto aquela de Heather e Jack.
        - Gosto muito de conversar com voc, Carly- Luke continuou, seus olhos verdes brilhando.
        Eu sorri e esperei.
        - Sabe... voc  to bonita - ele acrescentou timidamente.
        - Obrigada, Luke - comecei a me derreter.
        Ento, ele me puxou para perto.
        - Carly- sussurrou.
        "Isso mesmo, isso mesmo", pensei, "o beijo!"
        E, ento, um pensamento me passou pela cabea: ele tem um cheiro estranho. Talvez tenha sido uma mistura do restaurante natural com a loo ps-barba, eu 
no sei, mas algo estava errado. De repente, os lbios dele tocaram os meus. Suas mos fortes agarraram os meus braos - como se agarrassem os arreios de um cavalo. 
Eu j estava esperando que ele comeasse a saltar a qualquer momento. Mas ele continuou firme e pressionou sua boca contra a minha, num beijo longo, extremamente 
longo. Foi como beijar uma boneca de plstico: eu e Heather j havamos feito muito isso quando tnhamos 12 anos.
        - Bem, obrigada - disse, dando um passo para trs.
        - Quer fazer alguma coisa no prximo sbado? - perguntou ele, um pouco sem flego. - Podemos ir ao restaurante natural novamente. E por que voc no vai 
me ver no ginsio esta semana?
        Eu assenti com a cabea, sem muito entusiasmo.
        - Eu te ligo.

        - Agora,voc no vai ter muitas chances, Steve- disse no domingo  noite. -  mesmo. Uma pena. Tchau.
        Desliguei o telefone sem fio e recoste ina cadeira da varanda.
        - Abra os olhos, Steve - murmurei. - Olhe para o seu vizinho - mas nem eu tinha imaginado que o par perfeito seria to perfeito.
        Telefonei para Heather no sbado  tarde, querendo saber se Jack j a havia convidado para sair, crente de que ela ficaria retrada em aceitar o convite 
dele. Mas ela j estava com ele!
        Eu esperava encontrar uma mensagem dela quando voltei para casa no sbado  noite. No havia mensagem alguma.
        Provavelmente porque eles ficaram fora at depois da meia-noite - a me dela havia me dito isso quando telefonei no domingo, na hora do almoo. Heather teria 
me contado isso pessoalmente, mas ela j tinha sado de novo com Jack. Sua me me disse que pediria para a filha me retomar a ligao assim que ela voltasse para 
casa.
        Agora, estava sentada com o telefone em meu colo, observando os vaga-lumes voarem sobre a grama escura. Este era um recorde absoluto para Heather. Ela nunca 
ficara tanto tempo com o mesmo cara, especialmente um que no havia sado comigo antes. O que eles estariam fazendo? Olhei para o cu estrelado, sentindo novamente 
aquela pequena e estranha dor no corao. Talvez estivessem olhando os vaga-lumes, fazendo pedidos para alguma estrela.
        Eu j nem sabia mais quais eram os meus desejos.
        Exceto que eu queria que Joelle tivesse viajado com meus pais para a conferncia deles de uma semana. Os dois haviam me deixado com uma lista de telefones 
de emergncia - mdicos,
vizinhos, parentes, o hotel deles, o centro de conferncias -, como se eu fosse a bab dela ou coisa parecida.  verdade que, durante a ltima conferncia de literatura 
de que haviam participado, minha irm conseguiu pr fogo na cortina da cozinha e ficou ligando desesperada para a emergncia. Mas Joelle j era quase uma me e eu 
estava cansada de ser responsvel por ela.
        Tinha comentado isso na noite anterior e ela no estava falando comigo desde ento. Talvez ficssemos a semana inteira sem nos falar. A minha sensao era 
de algum que havia brigado com o mundo inteiro.
        Ouvi o barulho de uma cadeira rangendo.
        - Voc continua suspirando - comentou Joelle.
        Virei ligeiramente a minha cabea.
        - S estou respirando. Se incomoda, v se sentar em outro lugar.
        - Como  que foi ontem  noite? - ela perguntou, puxando a sua cadeira para perto.
        - Bom.
        - Apenas bom?
        - Bom no  o suficiente? - retruquei asperamente.
        - Sabe, eu assei uma forma de brownies para a feira beneficente da igreja - era comum para Joelle pular de um assunto para outro.
        - Que bom. As pessoas compraram?
        - Voc comeu todos eles, Carly. Ontem  noite, quando chegou em casa.
        - Ai, Meu Deus! Desculpe... eu vou fazer uma doao.
        - Uma orgia de chocolates e suspiros - ela falou.- Eu diria que voc no est bem.
        - Voc no sabe do que est falando.
        Joelle recostou-sena cadeira, alongando os ps descalos.Ela tentava disfarar,mas j tinha adotado aquela rotina de "mos descansando-sobre-a-barriga".
        - Eu comi um pacote gigante de caramelos depois do meu primeiro encontro com Sam - ela me contou.
        - Bem, no tire nenhuma concluso, Joelle. No estou apaixonada pelo Luke.
        - Luke? Ah, eu no pensei que voc estivesse apaixonada por ele- retrucou. - Com certeza, minha irm gostaria de algo melhor que aquilo!
        Olhei para o lado. Joelle estava com aquela expresso de "sei de tudo", e eu com medo de que ela realmente soubesse da verdade que eu mal podia admitir para 
mim mesma.
        Ela sorriu.
        - Eu s no sabia quando  que voc iria sacar que estava a fim de outro cara.
        - Obviamente que tarde demais - suspirei.


Onze

        -Eles esto chegando na base. Esto chegando na base, na base! Vamos, Miguel! - gritei.
        Miguel se inclinava para trs e dava tudo o que podia. Todos os outros jogadores do nosso jogo do meio-dia eram imaginrios.
        -Fora! Cuidado com Ken Griffey Jnior - eu disse. - Ns temos um jogador de primeira linha bem aqui.
        O rosto de Miguel brilhava. Todo o dinheiro que eu havia gastado com aquela pequena luva de canhoto tinha valido a pena. Depois de conversar com Harry e 
Anna sobre a situao, comprei
a luva e levei Miguel para lanar algumas bolas no campo durante o intervalo de almoo da segunda-feira. Esperava aumentar a confiana dele, encorajando-o a explorar 
os seus talentos. Isso tornaria todo o resto mais simples para ele.
        Jogamos intensamente por trinta e cinco minutos. Olhei para o cu que ficava cada vez mais escuro, e acenei para ele. O vento estava aumentando e havia apenas 
um pedacinho de azul  esquerda.
        -Por favor - implorou Miguel-, mais uma bola.
        Lancei a bola e o observei correr ao longo do campo. Era rpido como um gato. Nunca tinha visto uma criana com tanta agilidade.
        - Por favor, tia Carly, s mais uma bola - ele me pediu novamente.
        Eu balancei a cabea:
        - Prometi ao chefo que voc iria almoar.
        Ele permaneceu no meio do campo por um momento, as pernas curtas plantadas firmemente no cho, esmurrando a luva com o punho - o primeiro sinal de resistncia 
que eu havia visto
 em Miguel.
        - Vamos, menino. Vai comear a chover.
        Ele veio andando relutante. Abri a sacola com os sanduches, e os guardanapos comearam a voar na nossa frente. Miguel se sentou perto de mim na arquibancada, 
devorando o po at que sobrasse apenas a casca. Ele a colocava de lado e pegava outro sanduche.
        - Sabe, Miguel, pode ser mais fcil comer se voc tirar a luva.
        Ele me olhou, os olhos escuros procurando os meus para saber se eu estava falando srio, ento, sorriu e continuou com a luva.
        - Como  que voc no fica irritada comigo quando eu fao alguma trapalhada? - ele perguntou com a boca cheia.
        - Irritada? Por que eu ficaria? - repliquei. - Eu me atrapalho o tempo todo. Ningum quer, mas todo mundo se atrapalha.
        - Jos no - disse Miguel firmemente.
        - Quem  Jos?
        - O namorado - falou.
        - Da sua me?
        Miguel fez que sim com a cabea.
        - Voc gosta do Jos? - perguntei.
        Miguel desviou o olhar.
        -Ah.
        No acreditei nele:
        - Ele mora com vocs?
        - s vezes. Onde  que voc mora? Voc tem um quintal?
        - A uns seis quilmetros daqui. Tenho, eu tenho um quintal.
        - Voc mora perto do tio Jack?- ele quis saber.
        - O tio Jack mora perto do clube de golfe, onde ns vamos nadar.
        Ele lambeu a pasta de amendoim de seus dedos.
        - Eu queria poder morar com o tio Jack.
        - Voc gostaria de poder jogar golfe?- brinquei com ele.
        - Ele  legal - Miguel disse casualmente.
        Concordei e fiquei desejando que ns no tivssemos que conversar muito sobre Jack. J tinha pensado muito nele no dia anterior e tentei evit-lo naquela 
manh. E Miguel havia me proporcionado uma boa desculpa para no almoar com ele e Anna.
        - Ele diz coisas legais.
        -  mesmo - concordei de novo. -s vezes, ele toca violo pra gente. E conta histrias,  vrias histrias sobre mgicas. Eu acho que ele acredita nisso. 
Acho mesmo. Voc acredita?
        -Costumava acreditar - disse, enfiando o meu sanduche de volta na sacola.
        - Voc no est com fome? - perguntou.
        -Acho que no. Comi um monte de brownies no fim de semana - contei a ele. 
        -? Tem algum aqui? - ele enfiou a mo dentro da sacola de papel. 
        - S biscoitos. 
        -T bom - o garoto sorriu e levantou seu brao de repente, apontando com a sacola ainda em suas mos. - Ei, olha l o tio Jack.
        Olhei rapidamente sobre o meu ombro. 
        -Quem ? - perguntou Miguel. - Quem  aquela garota com ele? 
        -Uma amiga do tio Jack. O nome dela  Heather.
        Por que eu no disse que era uma amiga minha tambm?
        Miguel e eu observamos os dois percorrerem o caminho que circundava o campo. No tinha certeza se haviam nos visto. Provavelmente estavam muito concentrados 
um com o outro.
        - Ela  namorada dele?
        - Parece que sim - disse.
        - Ei, tio Ja...
        -Shhh! No o chame. O tio Jack est conversando com a amiga dele.
        "E se ele beijasse a amiga dele?", pensei. Seria bom para Jack se as crianas da segunda srie parassem de fazer desenhos da monitora maluca de cabelos vermelhos 
e comeassem a desenh-lo ao lado de uma loira. Heather e Jack desapareceram atrs de uma rvore - "Meu Deus, eles gastam bastante tempo atrs de rvores e arbustos", 
pensei -, mas o caminho realmente seguia naquela direo para se chegar ao prdio em que Heather tinha aulas de dana. Alguns minutos depois, Jack reapareceu, sem 
a Heather, andando sozinho em nossa direo.
        - Ei, tio Jack! Ei, olha aqui! Olha o que a tia Carly me deu.
        Miguel correu para encontr-lo. Eu fiquei onde estava. O rosto de Jack se iluminou com um grande sorriso. Ele se curvou para falar com Miguel e examinar 
a luva. Ela no cabia na mo de
Jack, mas ele a prendeu com os dedos e fingiu que estava agarrando uma bola. Miguel o imitava. Ento Jack olhou para cima como se estivesse tentando pegar uma bola 
bem alta. Ele comeou a esticar os braos, dizendo:
        - Eu peguei! Eu peguei! Eu peguei! Eu no peguei...
        Miguel caiu na grama de tanto rir.
        Jack o puxou do cho, ento colocou a mo sobre o ombro do garoto. Senti uma ponta de inveja: queria ser algum que pudesse rir com Jack, algum que ele 
quisesse alcanar e tocar carinhosamente. Foi como ter visto ele junto da Anna, aquele cime idiota que senti quando vi a intimidade com que se tratavam.
        - Se segura, Carly- eu murmurei para mim mesma.
        Jack colocou a luva na cabea de Miguel, ento olhou para mim, sorrindo. Olhei rapidamente para ele com um sorrisinho, me levantei e comecei a pegar as coisas 
do almoo.
        - Oi, Carly.
        - Oi, Jack.
        - Parece que vocs dois andaram se divertindo.
        -  mesmo - disse, evitando olh-lo de frente. - Miguel  um astro. Espero que ele se lembre da gente quando ficar famoso.
        Miguel sorriu.
        - Como est a Heather?- perguntei.
        - Heather?
        - Sua namorada - disse Miguel.        
        Jack deu uma piscada.
        - Ah, certo. Sentimos sua falta durante o almoo. "Com certeza", eu pensei e olhei para o cu.A chuva chegaria tarde demais.
        - Acho que voc j deve saber que sa com ela no fim de semana - continuou Jack.
        "E saiu, e saiu de novo e saiu mais uma vez", eu pensei.
        - Ah. A me dela me contou - disse. Comeamos a andar juntos para o centro acadmico. - Isso  timo. Realmente timo.
        - Como foi o seu final de semana? - perguntou Jack.
        - Ah, foi timo tambm.
        - Ela comeu um monte de brownies- entregou Miguel. Jack riu:
        - Ovos Mexidos gosta de brownies?
        - No, eu gosto - respondi secamente.
        Jack inclinou-se um pouco para a frente, como se tentasse ler o meu rosto. Tentou fazer com que eu o olhasse de volta, tentou fazer que nossos olhares se 
cruzassem.
        - Se a gente no se apressar- falei -, vamos ficar encharcados.
        "Por favor, chova, por favor, comece a chover agora." Algum devia estar me escutando. Um relmpago tomou o cu. Agarrei a mo de Miguel. Ele gritava como 
um porquinho, e ns corremos para o centro acadmico. Miguel e eu no paramos at chegarmos perto das crianas que saam da lanchonete. Eugene puxou o meu cabelo 
molhado. Janet quis saber por onde eu tinha andado. Estava feliz por estar entre as crianas, que no paravam de rir e conversar. E, alm disso, eu me sentia aliviada 
por elas estarem aglomeradas ao meu redor, protegendo-me dos olhares questionadores de Jack.
        
         noite ainda continuava chovendo. Era possvel ouvir as gotas no telhado e o barulho de uma velha calha solta que no parava de sacudir. Joelle e eu estvamos 
sentadas no sof assistindo
a um dos seriados de TV mais idiotas que eu j vi. " assim que vamos terminar", pensei, " Joelle e eu, duas irms solteiras vivendo juntas, assistindo a seriados 
estpidos, cuidando do Camarada."
        - Devo assar uns brownies?- perguntou Joelle.
        - No- acho que eu tinha voltado a suspirar.
        - E a, o que  que o Luke disse quando voc falou que estaria ocupada no sbado  noite? - Joelle quis saber.
        Ele havia ligado logo aps o jantar, e ela ouvira a conversa at o momento em que eu peguei o telefone sem fio e entrei dentro do guarda-roupa. Mas eu fiz 
aquilo apenas para irrit-la. No fundo, no ligava se ela soubesse alguma coisa sobre Luke.
        - Ele perguntou sobre o domingo.
        - E voc falou? - disse, querendo que eu continuasse.
        - Que estava ocupada. - E ele?
        Apanhei o controle remoto e comecei a trocar de canal.
        - "Que tal segunda-feira?". Mas ele precisa dormir cedo, l pelas dez horas.
        - Sabe, Luke no deve ser esperto o suficiente para entender uma indireta - minha irm disse, colocando a mo sobre a minha.
        - No diga! - falei, "zapeando" ainda mais rpido. - Bem... eu acabei falando que no estava a fim de sair com ele.
        - Ele ficou destrudo?
        - Perguntou se eu gostaria de v-lo numa competio que est para acontecer.
        Ela chegou a se engasgar e tive de rir um pouco.
        - Ah, Carl - disse ela.
        - Ah, Joe. - Ns no usvamos esses apelidos h muito tempo.
        - E voc contou ao Jack que voc e o Belo Adormecido no esto mais juntos?
        - Por que eu deveria contar isso ao Jack? - perguntei, cida. Estvamos de volta ao seriado estpido. Olhava furiosa para os atores. - Pensei que estivesse 
acompanhando tudo o que est acontecendo, Joelle. J deveria saber que ele est saindo com a Heather.
        - Eu sei.Mas isso nunca foi um motivo para ela parar,no ?
        Levantei do sof. Talvez eu realmente precisasse de chocolate.
        - No, porque o cara sempre estava interessado nela. Mas Jack no est interessado em mim - minha voz tremeu. - Sorte da Heather.
        Joelle se levantou para me seguir,ento afundou o corpo de novo no sof.
        - T tudo bem? - perguntei.
        - T, com certeza - ela me dispensou com a mo.
        Ela no estava com uma cor boa desde que eu voltara para casa.
        - Voc est com uma cara estranha. O que h de errado?
        - Como vou saber? - ela balanou os ombros. - Eu no controlo mais o meu corpo. Parece que ele est possudo.
        Franzi as sobrancelhas e abracei o meu corpo. Sentia como se o meu corao estivesse possudo. "Primeiro, algum rouba o seu corao", eu pensei, "ento 
tudo comea a escorregar de suas mos."
        - Quer alguma coisa da cozinha?
        - O que voc for comer est bom para mim - ela respondeu.
        Eu voltei com um pacote de biscoito e leite. O rosto de Joelle estava com uns dois por cento de sua cor habitual.
        - Vamos ver um vdeo - sugeri.
        Abri a porta de vidro do armrio.
        - O que voc quer ver? - Eu sei, minha disposio estava incrvel. Eu estava realmente preocupada com ela.
        - Nosso amor de ontem. 
        - O qu? - Esse filme fazia parte da coleo dos meus pais e era um melodrama horrvel. - Por qu?
        - Assim a gente pode chorar e sentir pena de outra pessoa - Joelle sugeriu.
        - Mas eu odeio esse filme. Odeio a personagem da Barbara Streisand. Ela tem um cabelo seco,  incrivelmente teimosa. E se apaixona perdidamente pelo cara 
errado.
        - , bem... - minha irm deu de ombros.
        Fiquei surpresa que ela tenha se segurado para no fazer um comentrio maldoso do tipo: "Olhe-se no espelho, Carly". Devia estar se sentindo muito mal.
        Coloquei a fita no videocassete e fui pegar os lenos de papel.
        J estvamos na metade do filme, quando Joelle se curvou para a frente e apertou o boto para desligar o vdeo.
        - Acho que preciso dar uma ida ao banheiro.
        Ela ficou em p, imvel por um instante.
        - Joelle?
        - Estou bem.
        Quando olhei para a parte de trs do vestido dela, um arrepio gelado tomou conta do meu corpo. Havia uma grande mancha vermelha nele. Joelle virou o pescoo 
para ver o que era.
        - Ai- disse e sentou de volta no sof -, o que a gente faz agora? - Parecia que ela estava prestes a desmaiar.
        - Ligamos pro corpo de bombeiros?
        Ela franziu a testa.
        - Brincadeira - murmurei e corri para o telefone.

Doze

        - Eu no estou cansada - insisti para o Harry durante o almoo no dia seguinte. - Dormi um pouco no hospital- acrescentei. - No me faa voltar para casa. 
Eu e Joelle ficamos vinte
horas juntas. Isso  praticamente o mximo que conseguimos suportar.
        O mdico havia liberado Joelle s nove horas da manh, recomendando repouso absoluto. s dez, comeamos a nos irritar uma com a outra. s onze, Joelle teria 
dito "gostaria que voc fosse trabalhar". Brigamos por causa disso, e eu telefonei para a nossa vizinha de doze anos. Mandy ficou feliz de ganhar uns trocados para 
ir l em casa, ficar esquentando sopa e olhando Joelle.
        - Voc ligou para os seus pais? - Harry me perguntava agora, encostando-se em sua cadeira no escritrio.
        - Joelle no iria deixar. Eu no sabia o que fazer, Harry. Ela ficou triste, comeou a chorar e me implorou para no ligar pra eles. Eu no queria piorar 
as coisas. Quer dizer, sei que foi culpa minha. Eu fiz com que ela se sentisse como um grande problema.  tudo culpa minha.
        - No  culpa de ningum, Carly. E voc no pode exigir que Joelle seja racional num momento desses.  voc que precisa manter a cabea no lugar. O que o 
mdico disse?
        - Pra manter ela na cama. E ligar imediatamente se ela comeasse a sangrar de novo. Amanh ela vai voltar l.
        - Consegue segurar essa barra?
        Fiz que sim com a cabea.
        - Bom- disse Harry, e escreveu algo num pedao de papel-, aqui est o meu telefone. Pode me ligar a qualquer hora, por qualquer motivo, mesmo que voc s 
queira mais uma pessoa por
perto. Se voc me ligar s trs da manh, j estarei a caminho de sua casa um minuto depois. Levando uma pizza.
        Sorri um pouco, olhei o nmero, ento coloquei o papel no meu bolso.
        - Obrigada, Harry.
        - E no se preocupe com a noitada do acampamento na quinta. Eu arranjo uma substituio - disse ele. - Para onde eu devo mandar o Hau e as crianas hoje 
 tarde? - Ainda estava chovendo e o campo estava encharcado. - Para o antigo ginsio?
        Concordei, feliz porque teria a ajuda de Hau durante o turno.
        Hau chegou ao ginsio carregando um bolo de cartes feitos por suas crianas. Abri cada um deles. "Espero que fique melhor", eu li.
        - Obrigada, Tam. Obrigada a todos. Minha irm vai adorar esses cartes - ainda que Joelle enfiasse todos eles na prateleira mais alta junto dos ursos de 
Harry, os cartes desenhados j haviam melhorado o meu humor.
        Mais tarde, quando Harry trouxe o grupo da segunda srie, eles vieram marchando como anjinhos.
        - S para mostrar - sussurrou Harry - que, quando querem, conseguem se comportar.
        Nenhum deles implicou com Miguel naquele dia. No sei se foi o bom comportamento das outras crianas ou o treino do dia anterior que havia aumentado sua 
confiana, mas Miguel parecia mais feliz e fez duas cestas, o que  bastante para algum da altura dele. Trabalhar com as crianas do acampamento realmente me ajudou 
naquela tarde. Fiquei triste quando Harry voltou para lev-las para o nibus.
        De qualquer modo, Harry estava tornando as coisas mais fceis para mim, bancando o anjo da guarda. E eu ainda no tinha precisado encarar Jack. Ele j havia 
me visto com raiva antes; certamente, acreditava que eu era capaz de dizer coisas mesquinhas para Joelle e deix-la deprimida. Ele me lanaria aquele olhar de investigao; 
talvez percebesse quanto eu estava temerosa por ela e pelo Camarada. E eu no conseguiria suportar isso; no conseguiria lidar com algum que me deixasse ainda mais 
vulnervel.
        Eu me sentei na fileira mais baixa da arquibancada e comecei a desatar uns ns antigos no cordo da sacola da bola de basquete. Gosto de ginsios silenciosos. 
Consigo rezar melhor em velhos ginsios acinzentados de escola do que em igrejas. Curvei o tronco sobre a sacola da bola, segurando os ns da mesma maneira que minha 
av costumava segurar as contas do rosrio, e comecei a rezar por Joelle. E por mim tambm.
        - Carly? Voc t bem?
        A voz de Heather me assustou.
        - Claro, claro. S estou organizando as coisas.
        Ela cruzou a quadra, vindo em minha direo.
        - Como est a Joelle?
        - Bem.Vai voltar ao mdico amanh. Ela t um pouquinho balanada, mas acho que vai ficar bem.
        - E voc? - perguntou Heather, sentando-se ao meu lado.
        - Um pouco como a Joelle, eu acho.
        - Sinto muito. Deve t difcil para voc, n? Eu me lembro quando a minha me sofreu aquele acidente de carro. s vezes,  mais apavorante ser a pessoa que 
est tentando ajudar do que a que precisa de ajuda.
        Engoli seco.
        - Tentei te ligar ontem  noite. Eu estava muito preocupada - ela disse. Seus grandes olhos cinza mostravam isso.
        - Eu sei. Peguei as suas mensagens hoje de manh.
        - Liguei pro Jack. Ele tambm ficou preocupado.
        Eu me ergui para recolher as bolas de basquete. Heather andou para o canto oposto, para pegar uma bola desgarrada, ento fingiu que estava fazendo uma cesta. 
Deu um de seus saltos de ballet, alcanando uma altura incrvel para a sua estatura.
        - J te disse, o esporte teve uma grande perda quando voc resolveu se dedicar  dana - falei.
        - Eu estou amando - ela sorriu para mim. - Eu estou amando o que estou aprendendo aqui. E devo isso a voc, Carly. Por no ter me deixado desistir.
        - Voc  muito boa para desistir - sorri de volta.
        - Estava falando sobre isso, ontem  noite - ela disse -, sobre como voc me empurrou para fora daquela loja e me deu um sermo. Eu contei pro Jack.
        Desejei que ela parasse de mencionar o nome dele. Na primeira mensagem que Heather me deixou, antes de falar que estava muito preocupada comigo, ela havia 
dito que queria conversar sobre Jack.
        - Preciso de mais alguns conselhos - ela falou.
        Enfiei duas bolas na sacola e, ento, estiquei minha mo para pegar aquela com a qual ela brincava.
        -  sobre o Jack - acrescentou Heather.
        - E ele?
        - Eu realmente gosto dele, Carly- ela enrolava os seus longos cabelos loiros ao redor dos dedos. - Quero dizer, de verdade.
        Sacudi a cabea, concordando.
        - Mas ele no pra de querer me ver, e me ver de novo.  to estranho... - ela disse.
        De fato, essa era uma tpica reao masculina a Heather. A parte mais estranha disso tudo era que Heather continuava querendo se encontrar com ele. Eu tinha 
achado o Jack convencido quando ele me dissera que no precisaria da minha ajuda para ter um encontro, mas percebi que ele estava acostumado a conseguir as garotas 
que queria.
        - No sei o que fazer - suspirou Heather.
        Tive uma vontade inesperada de levantar a sacola das bolas acima da minha cabea, comear a gir-la pelo cordo e, ento, solt-la no ar.
        - Que tal aproveitar? - sugeri baixinho.
        - Eu gostaria de poder - ela me contou. - Se, ao menos, eu no estivesse tendo essas aulas com o Dan.
        - Dan? Quem  Dan?
        - Um outro aluno. Ele estuda em Kirbysmith e  um excelente bailarino. A professora diz que ns somos perfeitos juntos. Ele namora firme com a mesma garota 
desde o primeiro ano do segundo grau e sempre achou que fossem ficar juntos para o resto da vida. Mas agora que a gente se conheceu, ele no est mais to certo.
         claro. Um cara com uma namorada. Um aluno de faculdade que est comprometido com a mesma garota desde o segundo grau. Eu tive vontade de berrar e sair 
correndo por entre os bancos de madeira.
        - Voc acha que tudo bem se eu sair com Jack e Dan ao mesmo tempo? Eu contaria a eles,  claro. No os enganaria com falsas expectativas. E mostraria que 
cada um deles  nico para mim.
        - Isso seria legal da sua parte - eu disse.
        Ela percebeu o tom da minha voz e me olhou rindo.
        - Entendi. Voc no acha que seria legal.
        O que  que eu podia falar? Que eu a achava uma safada por ficar correndo atrs do namorado de outra? Para tirar as mos do Dan? Se eu dissesse isso, eu 
a empurraria mais ainda para perto do Jack. O que,  claro, seria a coisa certa a fazer porque, assim, ela no partiria o corao de outra garota. Pelo menos no 
da namorada do Dan.
        Tentei lhe dizer isso. Para no deixar Jack escapar. Mas no consegui.
        - No posso ajudar - disse, por fim. - Voc precisa se decidir sozinha.
        Ela me olhou como se eu a tivesse abandonado.
        - Bem, acho que voc est com muitas coisas na cabea agora - falou, tentando ser compreensiva.
        - Com certeza - estiquei o brao por entre os bancos, dando um tapinha numa bola de modo que ela rolasse para a beirada da arquibancada. - Talvez a gente 
possa se falar mais tarde.
        - Est bem - concordou disposta, virando-se para sair.- Preciso ir pra casa e me arrumar pra hoje  noite.
        "Se arrumar para quem?" Fiquei imaginando por alguns minutos, enquanto retirava a bola debaixo da arquibancada. Eu a peguei e arremessei violentamente contra 
a parede. Peguei de volta e lancei de novo.
        Corri com a bola, quicando-a por toda a quadra, driblando, trocando de mo, correndo em direo  cesta. Lancei. Cesta.Lancei de novo. Cesta. Lancei. Cesta.No 
errava uma. Dei um salto: cesta! Agarrei a bola e corri para o meio da quadra, lanando violentamente contra uma pilastra, quer dizer, uma pessoa ao lado da quadra.
        - Falta - disse Jack, agarrando a bola. - Tenho direito a um lanamento.
        - No disse que voc podia jogar - peguei a bola de volta.
        - Tudo bem, eu s vim para conversar- retrucou.
        Exatamente o que eu no queria fazer. Desviei dele e fiz outro lanamento. Cesta. Estava com tudo hoje. Pelo menos no basquete eu estava com tudo. 
        -Como est a sua irm? - perguntou ele.
        - Bem, est em casa - falei, quicando a bola e a lancei sobre a minha cabea. Cesta. 
        -Harry disse que os seus pais esto fora essa semana. E que voc teve de lev-la de carro para o hospital.
        -Foi timo ter uma desculpa para correr no trnsito - retruquei, lanando a bola. Cesta.- Fiquei um pouco desapontada porque ningum me parou. 
        - Mesmo?
        Na verdade, eu estava to nervosa na noite passada que no conseguia engatar a marcha certa.
        -Voc parece estar bem calma com isso tudo.
        -Ah. No foi nada demais - disse, fazendo mais uma cesta. -Faz parte da gravidez. Joelle tambm estava tranqila - menti.
        - Bem, se tiver alguma coisa que eu possa fazer por voc - ele ofereceu -, qualquer coisa que possa ajudar...
        "V embora", pensei. "Isso vai ajudar." Errei a cesta.
        A bola ricocheteou diretamente em Jack, e ele no iria desistir dela.
        -Posso pegar outra bola na sacola - disse a ele.
        -Poderia, mas voc  muito orgulhosa para desistir dessa aqui - falou, quicando a bola longe de mim.
        Olhei de cara feia para ele. 
        -Vinte e um pontos - ele me desafiou. - E como eu sou um cara gentil, deixo voc comear.
        - Eu no preciso de nenhuma vantagem.
        - Est bem - retrucou. - Ento, comeo eu - ele passou por mim e lanou a bola facilmente.- Dois a zero.
        - Sortudo.
        Jack arremessou a bola para mim. Corri, mas ele tambm foi rpido, e tive que recuar um pouco. Enganei-o com um drible, apenas um movimento pequeno com os 
ombros. Ele seguiu. Dei a volta pelo outro lado e lancei.
        - Dois a dois - gritei.
        Ele trouxe a bola para o centro da quadra e eu esperei, sabendo que ele nunca conseguiria acertar a cesta daquela distncia. Cesta. 
        - Quatro a dois - ele olhou para mim.
        - Ento - falei -, como sua me no pde colocar uma montanha-russa no seu quintal, ela comprou uma cesta de basquete. Toda a sua vida voc passou praticando 
e esperando por este momento, no ?
        Ele sorriu e veio andando me trazer a bola. Parou bem perto de mim. Muito perto:
        - Toda a minha vida eu esperei por este momento.
        Eu dei um drible e sa correndo. Dois passos depois, ele conseguiu me alcanar.
        Quanto mais jogvamos, mais geis e mais perto um do outro ficvamos. Numa marcao cerrada, os corpos se batiam, os braos suados se encostavam. Eu me mantinha 
atenta a todos os movimentos de Jack. Ele j estava me deixando maluca. Parecia estar em todos os lugares para onde eu seguia. Eu ganhava de 12 a 8, mas era como 
se estivesse perdendo.
        Saltamos para disputar uma bola. Demos um encontro no ar e camos esparramados no cho, como um polvo, dois corpos esmagados um contra o outro, com oito 
braos e pernas.
        Eu estava por cima dele, atordoada.
        - Voc est bem? - ele perguntou.
        Tentei sair de cima dele, mas Jack me segurou por um momento. Sem nenhuma segunda inteno. Da mesma maneira que ns seguramos uma criana com a qual esbarramos 
acidentalmente.
        - Estou bem - respondi. - E voc?
        - timo.
        Eu me desvencilhei dele e sa engatinhando para o lado.
        - Eu, h, no quero mais jogar.
        - Eu te machuquei - ele disse, sentando-se silenciosamente.
        - No.  s porque eu tive um dia longo. De quarenta e oito horas. Na verdade, o dia de ontem ainda no acabou pra mim.
        Ele observou o meu rosto. Ambos estvamos um pouco sem flego.
        - Voc tem mesmo certeza de que no h nada que eu possa fazer? Eu poderia ir at a sua casa e fazer um pouco de companhia pra Joelle, caso voc quisesse 
sair. Quer dizer, voc pode querer se encontrar com o Ovos Mexidos- acrescentou.
        - Obrigada, mas no. Obrigada. Meus pais vo voltar no sbado.
        Ele continuou me observando com aqueles intensos olhos azuis. Seu cabelo escuro estava encaracolado e mido de suor. Prestei ateno quando ele levantou 
a camiseta para tirar o suor do rosto. Eu estava querendo tocar o seu cabelo molhado, espiar o seu peito.
        - E a, como vai indo com a Heather? - perguntei.
        - Tava indo bem, mas acho que ela t comeando a perder o interesse - ele sorriu um pouco. - Voc sabia que isso iria acontecer. V em frente, diga, Carly. 
Voc j havia me falado.
        - Escute - eu disse -, voc est sendo um zilho de vezes melhor do que os outros. A Heather nunca passou dois dias e duas noites com o mesmo cara. No desista 
agora.
        Ele olhou para mim e por um momento os seus olhos pareciam ter mudado de cor. Pareciam to tristes, to desapontados.
        - No fique chateado com isso, Jack. Eu sei de uma coisa que pode te dar uma ajuda - ento, contei a ele sobre a idia de Heather de sair com dois caras 
ao mesmo tempo, ele e Dan.
        - Imagino que isso provavelmente tenha te deixado triste, mas se voc mantiver a calma, se peg-la de surpresa... se disser primeiro a ela que voc gostaria 
de sair com outras pessoas, bem, ento: Hah! - falei cheia de satisfao.
        - Hah... - ele repetiu devagar.
        - Voc vai conquistar ela! Ela pode at sair com o outro cara, mas no vai conseguir parar de pensar em voc.
        De repente, pareceu que o sol estava nascendo dentro dos olhos de Jack.
        -  uma boa idia - ele disse, finalmente. - Que tal sbado  noite?
        - Bem, se eu fosse voc diria isso para Heather hoje mesmo. Mas acho que pode esperar at o fim de semana para sair com algum.
        - Mas  disso que eu estou falando - ele disse. - Est livre?
        - O qu?
        - Voc pode sair comigo no sbado? No se preocupe. Eu explico tudo para o Ovos Mexidos. Ele provavelmente vai achar engraado.
        Mas aquilo no era nem um pouco engraado. A idia de passar uma noite inteira com Jack, ajudando-o a conquistar Heather, fazia com que eu me sentisse miservel. 
Levantei do cho, peguei a bola de basquete e comecei a andar em direo  sacola.
        - No sei. No acho que  uma boa idia.
        - Carly - ele falou, me seguindo -, voc sabe que assim que a Heather descobrir que eu estou com voc ela vai ficar incrivelmente enciumada e interessada.
        Larguei a bola dentro da sacola.
        - Eu te ajudei quando voc estava atrs do Ovos Mexidos -ele me lembrou. -  apenas por uma noite, ou duas ou trs, o tempo que for necessrio. Eu levo voc 
para uns lugares divertidos - Jack colocou a mo sobre o meu brao. - Voc no conseguiria fingir que existe algo entre ns?
        Eu sabia que tinha uma dvida para com ele. Atravessei a quadra com dificuldade, arrastando a sacola com as bolas atrs de mim.
        - Claro. A gente sempre consegue fingir.

Treze
       
        Joelle pediu que eu colocasse os cartes das crianas na prateleira junto dos ursos de Harry, exatamente como eu esperava. De qualquer modo, ela olhou cada 
um deles antes e sorriu pelo menos uma ou duas vezes. 
        Depois do jantar, enquanto ela estava hipnotizada pela Roda da Fortuna, eu transferi os ursos para uma prateleira mais baixa e coloquei os cartes ao redor 
deles, da maneira mais decorativa que consegui. Tambm peguei trs livros sobre antropologia e cultura africana, enfiando-os no meio da pilha de revistas que ficava 
ao lado da cama dela.
        Pela manh, deixei Joelle como uma princesa: caf da manh no criado-mudo, um frigobar cheio de suco e comidinhas, um monte de livros e revistas, o controle 
remoto da TV;papel de carta
e canetas coloridas, um walkman, pilhas, o telefone sem fio e uma lista de telefones - tudo ao seu alcance. Nossa vizinha, Mandy, deveria chegar s onze e meia.
        Estava atrasada para o trabalho exatamente no dia em que sairamos para um passeio. Quando eu finalmente entrei no nibus, as crianas comearam a bater 
palmas e a gritar o meu nome.
        - Eles gostam mesmo de voc! - comentou Pamela. Ela estava sentada no primeiro banco, ao lado de Jack.
        Cumprimentei e sorri um pouco.
        - Oi, Carly - Jack sorriu para mim. Eu acho que, assim como as crianas, ele devia estar feliz em ver a garota que podia tornar seus sonhos reais.
        - Ol, Jack - respondi, indo me sentar com a Anna. Hau seguiria o nibus da escola com o seu prprio carro, de modo que ele pudesse dar uma carona at o 
campus para os monitores, depois que envissemos as crianas para casa ao final do dia.
        O passeio ao Museu de Arte de Baltimore foi idia do Harry. Ele achava que as escolas s levavam as crianas para lugares como o Aqurio Nacional ou o zoolgico, 
onde as atraes so fascinantes e as crianas normalmente se comportam bem. Portanto, ns devamos oferecer a eles um pouco de cultura. Obviamente, Harry havia 
ficado em Kirbysmith, recebendo os sacos de dormir, emprestados por tropas de escoteiros, para a noite do dia seguinte, quando as crianas dormiriam l na faculdade. 
Fomos ns que tivemos de informar os guardas do museu sobre os banheiros entupidos, nos desculpar pelos alarmes que dispararam, e dar explicaes sobre arte e boa 
educao toda vez que as crianas apontavam e faziam piadinhas dos nus artsticos.
        Mas o dia foi melhor do que o esperado. Depois de um tour com dois guias do museu, que afirmaram gostar de desafios, as crianas brincaram de "Caa ao tesouro". 
Jack e Anna haviam elaborado uma lista de pessoas e objetos para serem encontrados nos quadros do museu, e as crianas procuraram avidamente em todas as salas. Ento, 
almoamos num parque lindo que ficava do outro lado da rua da entrada principal. Depois, deixamos as crianas correrem e gritarem a plenos pulmes por uma hora. 
Quando j estavam mais calmos, retomamos ao museu para que desenhassem o que os havia inspirado.
        Depois que colocamos todas as crianas de volta ao nibus, com o nosso motorista superconfivel, ns cinco partimos para Kirbysmith no carro de Hau. Aps 
percorrermos uns dois quarteires, eu mal conseguia manter os olhos abertos. Minha cabea balanou e bateu contra o vidro da janela. "Isso deve ser contagioso", 
pensei. "A sndrome da 'Bela Adormecida'." Pmela me perguntou alguma coisa, ento eu ouvi Jack falar baixinho, "Shhh. Ela est dormindo".
        Acordei uma hora depois, quando chegamos no campus e pude ver a mensagem deixada para mim na porta do escritrio do acampamento.
Carly,
A Joelle ligou.Fui para a sua casa.
No sepreocupe. J chamei o mdico.
Vou ficar com ela at voc voltar.
Harry
        - Eu te dou uma carona - disse         Jack, lendo o bilhete por cima do meu ombro.
        - Obrigada, mas eu estou com o carro esta semana.
        - Mesmo assim, pode ser bom ter algum com voc.
        Olhei para ele.
        - Quer dizer, se voc dirige da mesma maneira que anda de bicicleta - ele acrescentou, tentando transformar sua oferta em uma piada. 
        - Eu dou conta disso sozinha.
        "Talvez eu no desse", eu pensei, assim que cheguei em casa e vi minha irm dormindo entre os travesseiros,plida e aparentando ter muito menos que 19 anos. 
Harry estava esparramado
na minha cama, lendo um dos livros de cultura africana. Sorriu, deu uma olhada em Joelle, e ento me levou silenciosamente para o andar de baixo.
        - O mdico disse que est tudo bem que ela poder ficar de p em uns dois dias, se repousar - ele me contou.
         Por que ela ligou? Onde est a menina que ia tomar conta dela? - perguntei.
        - No havia ningum aqui quando eu cheguei- falou Harry, me fazendo sentar no sof. - Ela ligou para o escritrio por volta das onze horas e disse que tinha 
cado. Estava um pouco assustada.
        - Como  que ela caiu? Desmaiou?
        - Disse que escorregou em um tapete.
        - Um tapete? - Eu pensei por um momento, saltei do sof e corri para a porta. - No existem tapetes no segundo andar - falei ao Harry, que tinha me seguido. 
Apontei para o pequeno tapete no piso de madeira do hall de entrada.
        - Ela sabia que no podia descer as escadas! - disse furiosa.
        - Sabia que devia ficar l em cima!
        - Voc no acha melhor eu ficar um pouco por aqui?- sugeriu Harry. - Estou gostando mesmo desse livro.
        Encostei minha cabea no batente da porta:
        - No se preocupe.Vou ficar mais calma antes que ela acorde. S no sei o que fazer com ela, Harry. T cansada de agir como a irm mais velha nesta casa!
        - Talvez ela esteja cansada de agir como a irm mais nova - ele arriscou -, mas no sabe como mudar o papel. Talvez seja por isso que esteja fazendo as coisas 
do jeito dela, ainda que no seja a sada mais inteligente.
        - Talvez - eu disse, mas ainda estava me sentindo irritada por me preocupar com ela.
        Harry ficou mais uma hora, e ns conversamos sobre as crianas do acampamento. Deixei que ele levasse o livro de Joelle emprestado. Antes de ir embora, me 
deu o seu nmero de telefone novamente.
        Quando Joelle acordou, eu j estava com o jantar pronto. Ela me contou a mesma histria que Harry havia me relatado. Depois, jantamos juntas, em silncio, 
assistindo s reprises na TV.
        Eu estava me mantendo bem calma. Sabia que no podia deix-la triste. Cheguei a me lembrar da vez em que jogara um partida de basquete com uma canela machucada 
sem dizer ao tcnico que havia passado a noite anterior numa clnica, onde havia sido diagnosticada uma microfratura. Realmente, teimosia que vira estupidez  algo 
que corre em nosso sangue.
        Ento, o telefone tocou. Era Mandy, a vizinha, ligando para agradecer Joelle por ter deixado ela ir ao shopping e querendo saber se gostaramos que ela viesse 
no dia seguinte.
        - Eu te ligo depois - disse.        
        - Quem era? - Joelle perguntou inocentemente.
        - Mandy.
        - Ah...
        - Ela agradeceu por ter sido dispensada hoje. Queria saber se precisamos dela amanh.
        - O que voc achar melhor - falou ligeiramente.
        - O que eu achar melhor? - repeti. - Eu acho que teria sido melhor se ela tivesse ficado aqui hoje. Mas  claro que voc tinha uma opinio diferente.
        - Assim que ela chegou aqui, me disse que a me dela a havia obrigado a vir.No achei justo - replicou Joelle. - Ela tinha combinado de encontrar as amigas 
no shopping. 
         - No me importaria se ela tivesse combinado de encontrar o papa!
        - No quero que as pessoas fiquem ocupadas por minha causa, Carly - insistiu Joelle. - O mdico assegurou que eu estava bem - disse, ajeitando-se entre os 
travesseiros. - No preciso de ajuda. Voltarei ao normal em breve.
        - Voltar ao normal? Voltar ao normal? - eu me esforcei para no berrar. - Acho que voc ainda no entendeu, Joelle. Ns nunca voltaremos ao normal. Isto 
 um beb, este  o Camarada. No  um daqueles gatos perdidos que voc trazia para casa. No  o passarinho com a asa quebrada.
        Ela mordeu os lbios.
        - No  to simples como aliment-lo e esperar que, um dia, ele saia voando - continuei. - Voc vai precisar de ajuda. E de tempo. Portanto, acostume-se 
com isso.
        Ela pressionava os lbios com fora. Era como se eu estivesse olhando para um espelho.
        - No consigo imaginar o que era to incrivelmente importante pra fazer voc descer as escadas - resmunguei.
        - O lbum de fotos. Eu queria ver. Eu... eu tava tentando imaginar como o Camarada vai ser.Queria ver nossas fotos, quando ramos bebs.
        Os lbuns ficavam no armrio do hall de entrada. O mais antigo ficava no alto de uma pilha de livros.
        - Voc t querendo me dizer - falei pausadamente - que estava em p naquela cadeira, aquela que j t desmontando, sobre aquele tapete escorregadio?
        Ela no respondeu.
        - Joelle! - eu explodi. - Voc vai ser uma pssima me! No consegue nem tomar conta de voc. Como  que vai tomar conta de uma criana?
        - Est se preocupando com o qu, Carly? - ela berrou de volta. - Voc nunca quis o meu beb aqui. Admita! Ficou horrorizada na primeira vez em que falei 
sobre ele. O Camarada atrapalhou todos os seus planos. E voc est louca por causa disso. Agora, deixe a gente em paz.
        Fiquei calada. Ns duas estvamos com os olhos vermelhos de raiva.
        - Vou ligar pra mame.                
        - No, Carly, espere. No. Por favor, no - ela tentou puxar o papel com a lista de telefones da minha mo. - So apenas mais dois dias.
        Mesmo assim, comecei a discar. Eu podia estar confusa sobre diversas coisas, mas de uma coisa eu tinha absoluta certeza: havia perdido toda a minha pacincia 
com Joelle.

        Meus pais fizeram reservas para um vo pela manh, bem cedo, e chegaram em casa na quinta-feira por volta do meio-dia. Eu joguei o meu saco de dormir e a 
minha mochila dentro do carro e parti para Kirbysmith. Anoitada no acampamento no poderia ter acontecido num momento melhor. Queria poder acampar fora durante todo 
o final de semana e cancelar o meu "encontro" com Jack tambm.
        Quando eu cheguei, Harry revisou as estratgias bsicas para o dia. As crianas da primeira srie iriam embora s 3:15, como sempre. Depois disso, eu teria 
de coordenar jogos e atividades com os grupos da segunda e da terceira srie para deix-los completamente exaustos.
        Amei isso. Fizemos todos os tipos de corrida. Tivemos competies de saltos a distncia e corridas num p s. Perseguimos bolas e bales. Depois que fizemos 
o nosso piquenique noturno, vrios jogos aconteceram simultaneamente: caa ao tesouro, esconde-esconde e dana das cadeiras.
        Eu estava correndo de um jogo para outro, quando Jack me agarrou pelo brao.
        - So as crianas que precisam dormir cedo, no voc - ele disse.
        - Bem, vamos ver qual de ns dois vai dormir primeiro hoje  noite - retruquei.
        - Quer apostar?- perguntou.
        Eu hesitei.
        - Quem cair no sono primeiro, paga o jantar no sbado - ele deu um largo sorriso e estendeu o dedo indicador.
        Eu sei, foi um gesto idiota, mas encostar os nossos dedos indicadores teve um efeito to devastador sobre mim quanto da vez em que Jack aproximou o rosto 
do meu dentro do carro. Parecia que um feitio havia sido lanado, como se o tempo parasse por um instante. Desencostei meu dedo do dele e corri para o prximo jogo.
        Quando os jogos tinham finalmente terminado, era a vez de Anna e Jack comearem a mgica deles. Sentamos em um crculo no bosque da faculdade, perto das 
rvores e do crrego. Infelizmente no pudemos fazer uma fogueira, mas a noite estava iluminada pelos vaga-lumes e pela lua quase cheia. Para as crianas que moravam 
na cidade infestada de nons e luminosos, s a chance de sentar na grama perto das rvores e ver o brilho das estrelas j era algo incrvel. Anna contou-lhes histrias 
e Jack pegou o violo.
        As crianas cantaram com ele algumas canes engraadas que j haviam aprendido durante a semana. Harry batia palmas e os ps no cho, marcando o ritmo. 
Enquanto isso, comecei a me lembrar dos ursinhos de pelcia e do modo como Harry ficara tomando conta de Joelle, enquanto deveria estar resolvendo diversas coisas 
no acampamento. Se ao menos Joelle tivesse se apaixonado por um cara to legal quanto ele. Mas o corao  um traidor.  capaz de fazer uma garota trair a sua melhor 
amiga e um homem trair a sua prpria esposa: pode fazer com que voc traia at mesmo quem voc ama.
        Jack cantou uma balada que as crianas no conheciam, uma cano judaica de amor sobre duas pessoas em lados opostos do mar. Dobrei os meus joelhos e descansei 
os meus braos sobre eles, deixando minha cabea cair para a frente. Senti uma pequena mo nas minhas costas. Era April, a menina das presilhas.
        Ento Jack partiu para uma msica mais animada, depois uma linda cano de ninar. Ela era reconfortante e sua doura me fez doer por dentro. As crianas 
sentadas perto dele se aproximaram ainda mais.
        Logo j tinha chegado a hora de organizar as crianas em filas para o banheiro e coloc-las nos sacos de dormir. Havamos agrupado os quarenta sacos de dormir 
em um grande quadrado na grama, a cu aberto, com uma cerca ao longo de um dos lados. Harry queria que trabalhssemos em times, dois de ns parados em cada uma das 
laterais. Assim, se um dos dois tivesse de acompanhar uma criana at o banheiro, o outro monitor ficaria no mesmo lugar. Harry resolveu fazer dupla com sua irm 
Pmela, talvez porque ela no fosse totalmente confivel.
        - Certo - eu disse -, eu e Hau vamos para o lado oposto.                
        - Desculpe, mas Hau j est comigo - disse Anna.
        Olhei para ela surpresa.
        - Mas Hau e eu trabalhamos bem em dupla.
        - bom trocar de vez em quando - Anna retrucou sorrindo, mas firme.
        - No fique to preocupada - Jack falou. - Eu prometo roncar baixinho. E, alm do mais, voc vai cair no sono bem antes de mim - ele acrescentou, lembrando 
da aposta.
        - Perfeito - disse Harry, batendo palmas. - Bem, pessoal, boa sorte e espero que todos tenham pelo menos meia hora de sono ininterrupto.
        Jack e eu andamos at o nosso lado do quadrado e esticamos os sacos de dormir a uns quatro metros das crianas. Elas ainda conversavam e riam, mas suas vozes 
j comeavam a baixar. Eugene,  claro, continuava a falar bem alto. E Janet falava mais alto ainda, como se estivesse competindo com ele.
        Tive a sensao de que perderia a aposta com Jack, e que todas as quarenta crianas teriam de pular sobre as minhas costas antes que eu ficasse acordada 
o suficiente para lev-las ao banheiro. Retirar os sapatos e abrir o saco de dormir tinha se transformado num grande esforo. Soltar a trana gastava uma eternidade. 
Como no escutava nenhum movimento ao meu lado, olhei sobre os ombros para saber o que Jack estava fazendo. Estava me espreitando soltar o cabelo.
        - Alguma coisa de errado? - perguntei.
        - No - ele sorriu e deitou em seu saco de dormir, que estava a uns trinta centmetros do meu.
        Desembaracei os cabelos, ento deitei de bruos, virando a cabea para o lado oposto ao dele.
        - Se eu no posso ver os seus olhos, como  que vou ter certeza de que ainda est acordada? - perguntou.
        - Voc ganhou. Eu pago o jantar. Boa noite.
        - Carly, voc est chateada comigo?
        - Eu s estou muito cansada - minha voz tremeu.
        - Est bem - disse ele, esticando o brao e dando uma puxadinha no meu saco de dormir, sem me tocar. - No se preocupe com as crianas. Eu dou conta delas. 
- Durma bem.
        No me lembro de escutar as crianas ficarem em completo silncio. Ouvi uns barulhos da noite e os sussurros das crianas, ento tudo ficou meio nebuloso, 
as vozes pareciam vir de uma fita que no girava direito. Rostos, espectros de pessoas que eu conhecia, flutuavam diante de mim. Minha me e meu pai, com a roupa 
com que chegaram da viagem, minha irm em uma pequena camisola que costumava vestir na escola primria, um beb enrolado num lenol. No consegui ver o rosto do 
beb.
        - Camarada- disse em voz baixa. - Camarada, escute. Tudo vai ficar bem. Voc no precisa de um pai. Eu vou te ensinar a lanar e a pegar. Tia Carly estar 
l em todos os jogos.
        Ento, Heather apareceu ao meu lado. Virou os seus grandes olhos cinza para mim, cheios de lgrimas.
        - O que , Heather?
        O rosto dela desapareceu e eu devo ter cado num sono mais profundo. Mas, algum tempo depois, os rostos voltaram a aparecer. Os olhos de Heather brilhavam 
com as lgrimas.
        - Eu sinto muito, Carly.Eu sinto muito, mesmo - ela disse.
        Olhei em volta para ver onde estvamos. Um lugar cavernoso, com uma cesta de basquete em uma das extremidades e um crucifixo na outra. Todos estavam vestidos 
de preto. Era um funeral. Minha me, meu pai e eu estvamos sentados num banco. Minha me, meu pai e eu.
        - Joelle? Joe?
        Abaixei os olhos para o caixo. A verdade surgiu lentamente. Joelle e o Camarada estavam l dentro. No conseguia respirar. Senti como se algum tivesse 
pego uma faca e rasgado o meu corpo ao meio.
        No podia ser verdade. Cada parte de mim dizia que no podia ser verdade. Mas Heather estava chorando ao meu lado.
        - Joelle? Joelle,  voc? Joe! - gritei. - No!
        - Carly. Carly,quieta. Est tudo bem.
        Senti uma mo sobre a minha boca, e outra no meu ombro. Jack estava curvado sobre mim, me sacudindo para que eu acordasse:
        - Est tudo bem.
        - Ai, no.
        - Foi s um sonho - ele disse.
        Meu corpo inteiro tremia. O caixo era to real. A viso de Joelle dentro dele havia sido mais real do que a sensao de Jack me sacudindo. Olhei para ele, 
mas continuei mergulhada nas imagens do sonho.
        Jack me colocou sentada:
        - Venha, acorde.
        Seus braos enlaaram meu corpo e me apertaram.
        - Voc est bem? - ele sussurrou.
        Eu balancei a cabea.
        - Est sim. - Seu rosto estava colado ao meu e pude sentir as palavras sendo faladas em minha bochecha.
        - Ela...ela no est bem - eu mal podia me mexer.- Joelle no est...
        - Joelle est em casa com os seus pais- Jack falou num tom calmo, mas firme. - Foi um sonho.
        Mesmo assim, eu no conseguia parar de tremer.
        - Sonhos sempre querem dizer alguma coisa.
        - s vezes - disse Jack, acariciando o meu rosto -, s querem dizer que estamos com medo.
        Afundei o rosto no peito dele e comecei a chorar. Ele me segurou firme. Comecei a soluar e ele comeou a me embalar lentamente.
        E se o sonho fosse um aviso? E se eu perdesse Joelle? Eu perderia uma parte enorme de mim, que no poderia ser substituda nunca mais.
        - Eu pensei... que ela estava morta - disse.Jack ainda me segurava com fora. Mas os soluos pioravam e meu nariz no parava de escorrer.
        - Preciso de um leno - disse a ele, estendendo a minha mo.
        Ainda abraando o meu corpo, ele alcanou a minha mochila. Talvez soubesse que, se me largasse, eu teria despencado no cho.
        - No sei lidar com ela, Jack. Quando ela no escuta o mdico, eu comeo a gritar, dizendo que ela vai ser uma pssima me. O tempo todo eu fico falando 
coisas que a deixam triste. Tenho sido horrvel com ela.
        - Talvez voc no seja uma santa - ele disse. - Mas  uma situao difcil.Nem mesmo Joelle sabe direito como agir. Ela andou cometendo uns erros, no foi?Ento, 
por que voc tambm no pode?
        - Porque eu sou a mais forte! - disse rapidamente.
        A mo dele tocou a minha boca e eu abaixei a voz, olhando para as crianas. Todos estavam dormindo como gatinhos.
        - Sempre fui a mais resistente - falei baixo. - Devo ajud-la. E no ficar com um monte de pensamentos egostas.
        - Acho que voc a ajuda de um jeito que voc nem percebe - retrucou. Com uma mo, ele esfregou vagarosamente as minhas costas. - Do pouco que eu vi de Joelle, 
posso dizer que ela  bem atenta a tudo. Eu acho que ela saiu da faculdade e ficou em casa perto de voc porque percebeu que voc estava l pra ela. Muito mais do 
que voc pensa.
        - Talvez - disse e enfiei a mo na minha mochila. S havia trs lenos no pacote de plstico. Sa de perto dele e comecei a procurar dentro da bolsa.
        - Eu posso rasgar a minha camisa e fazer um torniquete de nariz - sugeriu Jack.
        Eu ri, ento ele tirou um pacote de lenos da sua mochila e me deu.
        Quando finalmente terminei de assoar o nariz, deitei sobre o meu saco de dormir. Estava com medo de fechar os olhos.
        - E se eu voltar a sonhar e te acordar novamente?
        - Tudo bem - falou gentilmente.
        - E se isso ficar acontecendo a noite toda?
        - A, quando forem umas quatro horas, eu peo para o Hau trocar comigo - ele sorriu para mim e se deitou.
        Fechei os olhos, tentando guardar a imagem dele deitado ao meu lado. Tentando manter aquela sensao de que tudo daria certo para Joelle, para o Camarada 
e para mim. Ficamos em silncio por um minuto. Escutei a respirao profunda de Jack e pensei que ele j estava dormindo. Uma lgrima perdida escorreu pelo meu rosto.
        Jack esticou o brao e segurou minha mo. Apertou-a fortemente. Eu no sei por quanto tempo ele ficou daquele jeito, porque alguns minutos depois eu j estava 
dormindo.

Catorze

        No sbado  tarde, parecia que a casa inteira estava espremida em apenas um quarto. Joelle j tinha permisso para subir e descer as escadas duas vezes ao 
dia, mas como todas as coisas que
ela pudesse precisar estavam ao redor de sua cama, passou a maior parte do tempo dentro do quarto.
        - Por que a gente tambm no leva o microondas e a torradeira para l? - disse para o meu pai.
        - Bem, gatinha,  uma idia. Talvez o microondas.
        Coloquei a mo na testa e sa andando.
        E agora eu estava contribuindo para a baguna, aps ter tirado do armrio quatro shorts, trs tops, vrios pares de sapato, caixas com brincos e faixas de 
cabelos. Fiquei em frente ao espelho e estiquei o meu cabelo para cima, depois para baixo.
        - O que voc est escolhendo? - Joelle falou como se no soubesse, mesmo depois de ter me perguntado duas vezes quando  que Jack chegaria.
        Mas eu respondi tranqilamente. Estava decidida a mudar de comportamento.
        - Que roupa vestir. E no sei se fao uma trana no cabelo.
        - Em outras palavras - ela observou -, se d ou no em cima dele?
        - No foi o que eu falei, Joelle.
        - Voc teria coragem? - ela perguntou.
        Comecei a escovar o cabelo.
        - Teria coragem de se arriscar mais uma vez?
        Comecei a escovar com mais fora.
        - Por que voc no d o troco na Heather?- persistiu.
        - Quantas vezes eu vou ter de te explicar? - retruquei. - Jack me pediu ajuda para conquist-la.  esse o propsito do encontro de hoje.
        - Tudo bem, tudo bem.  s uma saidinha.
        Passei a escovar furiosamente o cabelo.
        - Carly, pare! - ela gritou, segurando a minha mo. - Desse jeito, vai acabar ficando careca!
        Sentei na cama, com o meu couro cabeludo formigando, e. olhei para as minhas opes de roupa.
        - Calma, vou te dar uma ajudinha - disse Joelle. - Eu arrumo o seu cabelo e escolho as suas roupas.
        - Joe, no...
        - Ah, vamos... vai ser legal.
        Joelle no quis ouvir o meu protesto e se aproximou de mim rindo.
        - Seja uma boa menina e deixe eu fazer alguma coisa. Vai ser como quando ramos crianas e brincvamos de salo de beleza!
        - No, quem sabe outro dia... - disse, ento vi a expresso em seu rosto. Aquele tdio costumeiro havia desaparecido por completo. - Est bem, madame Esmeralda! 
- Era este o nome que ela sempre escolhia.
        Naquela tarde, madame Esmeralda se superou.
        - Casual, mas elegante - ela disse. E prendeu o meu cabelo com um n frouxo no alto da cabea, de modo que fiquei parecendo uma daquelas mulheres romnticas 
em algum anncio de revista de 1910.
        Ento, escolheu uns brincos simples de pingente e me emprestou uma blusa que ela ainda nem havia usado. Era justa e fiquei com um visual bem legal, totalmente 
diferente das camisetas
largas que costumava usar. Joelle insistiu para que eu vestisse uma minissaia; depois de muito tempo aceitei colocar um short que eram mais alinhados do que os habituais 
shorts esportivos. Ela comeou a me maquiar e, quando terminou, ainda que eu estivesse vestida para um jogo de beisebol, parecia pronta para um baile de formatura.
        Descemos. Meu pai passou por mim, ento, virou o pescoo para me olhar:
        - Nossa, voc est linda, gat...
        - No me chame de gatinha!
        Passaram-se anos at que eu arranjasse coragem, mas finalmente eu havia dito. Por um momento, meu pai pareceu ter sido surpreendido, depois sacudiu a cabea 
e escapou para a cozinha.
        - Ela est menstruada? - escutei ele perguntar para minha me.
        Ento a campainha tocou. Meus pais saram rapidamente da cozinha para as formalidades. Joelle estava inacreditavelmente simptica, respondendo a cada uma 
das perguntas de Jack. Por
fim, samos.
        - Vamos jantar em algum dos bares perto do parque - disse Jack - e, depois, vamos andando para o estdio.
        - Acho que vamos assistir a um grande jogo. Randy Johnson dos Orioles tem um lanamento... - comecei a tagarelar,usando todo o meu vocabulrio de beisebol. 
No fechei a boca durante todo o trajeto at a cidade, com medo de que ficssemos em silncio por muito tempo ou, o que seria pior, que comessemos a conversar 
sobre Heather. Vinte e cinco minutos depois, quando j havia esgotado todas as minhas histrias fascinantes sobre beisebol, Jack entrou em um estacionamento no centro 
da cidade.
        - O que  que est diferente em voc hoje? - ele perguntou, logo que entramos no elevador do estacionamento.
        Dei uma olhada na minha roupa.
        - Joelle estava entediada. E resolveu escolher minhas roupas. Penteou, maquiou, fez tudo.
        - Como vocs esto indo?
        - Melhor - de repente, o cho do elevador tremeu. Havamos chegado no trreo. Fui saindo, quando Jack agarrou o meu brao.
        - ... h... bom ter os meus pais por perto e no ser a responsvel pela casa.
        - Voc est bonita - ele me falou.
        "Bonita."
        Bem, bonita queria dizer bonita. No vou mentir que esperava "algo mais", afinal estava bem mais produzida do que de costume. Mas a questo era como um cara 
que vinha saindo com a Heather poderia me chamar de algo mais que "bonita".
        - Obrigada - disse. - Voc tambm est bonito. Jack soltou uma de suas gargalhadas.
        Fomos jantar no Balls, que estava apinhado de gente comendo, conversando e rindo com um dos olhos fixos no jogo de futebol transmitido pela ESPN. Era mil 
vezes melhor do que o Rita's Health Bar.
        Estudei o cardpio, mudando o meu pedido diversas vezes, ento levantei os olhos para Jack.
        - O que  que voc est olhando? - perguntei.
        - A mesma coisa que o carinha l na frente est olhando.
        Virei a cabea e encontrei os olhos do rapaz. Ele lanou um sorrisinho de paquera para mim e, depois, comeou a conversar com os seus amigos.
        Corei. Jack deu uma gargalhada maliciosa, esticou o brao e, naturalmente, acariciou a minha mo.
        - Voc deveria estar fazendo isso? - perguntei.
        - Fazendo o qu?
        Por um momento, eu me senti uma idiota. Provavelmente, aquilo tinha sido acidental. Mas, ento, sua mo acariciou a minha de novo.
        - Isto.
        - Eu achei que devia praticar um pouco. At porque, na ltima vez que tivemos um encontro...
        - Aquilo no foi um encontro - eu o corrigi.- Foi apenas um grupo de pessoas se divertindo juntas.
        - Certo - disse com um sorriso bobo. - De qualquer modo, voc me deu vrios conselhos naquela noite. Deve ser porque eu sou um amador. Bem, essa  a minha 
chance de praticar com uma profissional, ento, eu estou praticando. Tudo bem?
        - Claro. Tudo bem. Estou pronta para pedir - respondi, acenando para a garonete.
        Eu no diria que estava "tudo bem". Na verdade, toda vez que Jack comeava a praticar suas lies de paquera, eu acenava para a garonete. Depois de vrias 
rodadas de salgadinhos e refrigerantes, a mulher deve ter pensado que era eu quem iria pagar tudo aquilo e a conta foi colocada do meu lado da mesa.
        Jack esticou o brao e tirou o papel da minha mo.
        - Eu pago. Dormi primeiro -lembrei, pegando a conta de volta.
        - Eu sei, mas eu te devo uma - disse, colocando a mo sobre a minha. - Voc tem me ajudado muito com a Heather.
        - E voc tem me ajudado muito com o Luke.
        Ficamos nos olhando por um instante, ento, dividimos a conta e samos.
        - Voc tem certeza de que no quer que eu explique nada ao Luke sobre hoje? - perguntou, enquanto espervamos para poder atravessar a rua.
        Jack olhava atentamente para o meu rosto. Fiquei me perguntando se ele suspeitava que j no existia mais nada entre mim e Luke.
        - Obrigada, mas eu resolvo isso. Olha, fechou! - falei, e fui a primeira a atravessar a rua.
        Eu adoro toda aquela confuso que se forma do lado de fora dos estdios em dia de jogo: as pessoas gritando, os vendedores de amendoim, de pipoca, as barracas 
com bandeiras e camisetas. E amo comer cachorro-quente, sentindo o cheiro daquele molho apimentado. Jack agarrou a minha mo, to logo acelerei o passo. Eu praticamente 
o arrastei pelas escadas.
        No h nada como subir as escadas, ouvindo a multido barulhenta a sua volta, e finalmente emergir no alto do estdio com a viso daquele campo verde e brilhante 
abaixo de voc. Cheguei a ficar sem flego.
        - Quando eu era criana - contei ao Jack -, eu sonhava em ser duas coisas: uma princesa e um lanador do Oriole.
        - Com o que voc sonha agora? - perguntou.
        Desviei o olhar e sentei na cadeira.
        - Com nada. Nada demais - eu no me permitia mais ficar sonhando, fosse com rapazes, ou com a faculdade. Para que correr o risco de me desapontar?
        Jack colocou o brao ao redor do meu ombro.
        - Praticando de novo - eu disse.
        - No - retrucou. - Apenas sendo um amigo.
        Ele me deu uma palmadinha, ento tirou o brao e comeou a olhar para o gigantesco marcador de pontos da Liga de Beisebol.
        Ficamos de p durante o hino nacional, Jack cantava e eu grunhia, tentando me lembrar da letra. Depois, voltamos aos nossos assentos para assistir a um fantstico 
duelo de lanamentos. Foi o mximo ficar ali com o Jack, comendo amendoim e assistindo ao jogo. Conversamos sobre beisebol e sobre as crianas. Falamos um pouco 
sobre Joelle, sobre uns desenhos que Jack estava fazendo em sua casa e sobre a sua escola na Pensilvnia. Parecia que ramos amigos havia muito tempo.
        O jogo continuava e, algum tempo depois, foi dado o intervalo. Levantamos das cadeiras para esticar o corpo quando Jack virou para mim e perguntou:
        - Qual o melhor lugar para dar um beijo numa garota?
        Eu pisquei.
        - Voc quer dizer... sem ser na boca?
        Jack soltou uma gargalhada.
        - No, eu queria saber qual  o melhor lugar,o mais romntico: no alto de um monte, perto do mar, dentro do carro...
        -Ah!
        - Mas deixa pra l. A sua pergunta  mais interessante - ele disse com os olhos brilhando de curiosidade. - Diga. Onde?
        - No pescoo.
        - Por qu?
        Uma mulher bem gorda vestindo uma cala laranja e a camisa dos Oriole virou a cabea e olhou para ns. Acho que ela tambm queria saber por qu.
        - Sei l. Eu acho que um beijo na testa significa que voc  uma criana. Beijo na bochecha  para parentes e polticos. Um beijo na mo pode ser charmoso, 
mas  antiquado e formal demais. J no pescoo...  outra coisa, talvez porque o pescoo seja um lugar muito vulnervel.
        Ele fitou o meu pescoo e, num gesto automtico, coloquei a mo direita sobre a garganta.
        - Certo - ele disse. - E o lugar? Qual o lugar mais romntico?
        - A Heather diria que  qualquer lugar perto da gua. A piscina da casa dela, um porto, at mesmo uma fonte.
        - E o que voc diria?
        Peguei a lata de refrigerante que estava debaixo da minha cadeira, voltei a ficar de p e bebi um longo gole com o canudinho.
        - Eu no sou a pessoa mais indicada para responder essa pergunta. E, se eu fosse voc, no prestaria tanta ateno  minha teoria do pescoo. Eu j no tenho 
mais tanta certeza sobre as coisas.
        - Quer dizer que voc j no  mais a guru das paqueras? -ele comeou a debochar de mim. - Voc no  mais expert em conquistas amorosas?
        - Acho que no.
        - Quando voc chegou a essa concluso?- perguntou interessado.
        - Tarde demais - respondi.
        - Senta!- berrou uma torcedora atrs de ns, me deixando feliz por ter que voltar para a minha cadeira.
        Nos mantivemos ocupados assistindo ao resto do jogo e, finalmente, os Orioles venceram com uma larga vantagem.
        - Bem,foi timo - disse a ele, assim que samos do estdio.
        - S espero que a gente consiga achar o carro agora.
        - Eu gostaria de passear at o porto - ele disse.
        Eu devo ter demonstrado a minha relutncia.
        - Vamos l, Carly. Seno o que ns vamos contar para a Heather? - perguntou. - Quer dizer,  por isso que estamos aqui, no ?
        - Claro - disse.
        - E eu no acho que um jogo de beisebol faa parte da lista de encontros inesquecveis da Heather.
        Eu tinha certeza que no.
        - J um longo passeio, perto do mar, como voc disse...
        - Est certo. Vamos.
        - A Heather falou alguma coisa com voc? Sobre ns dois estarmos aqui hoje? - ele me perguntou enquanto andvamos para o porto.
        - No. Eu no tenho notcias dela desde tera-feira. Acho que ela deve estar furiosa.
        E o mais estranho era que eu no estava nem um pouco preocupada com isso. Era um alvio no ver a luz da secretria eletrnica piscando e ouvi-Ia dizer que 
precisava muito conversar comigo sobre Jack, o bailarino Dan ou quem quer que fosse.
        Quando eu e Jack chegamos ao porto, seguimos o caminho de tijolos ao redor do grande aqurio da entrada e ficamos um tempo admirando os peixes. Ento, circundamos 
por trs das lojas, dos quiosques e do carrossel colorido. Eu j tinha estado ali diversas vezes, mas hoje tudo parecia diferente. Andamos silenciosamente e paramos 
na margem do porto, de onde podamos enxergar o mar e a cidade ao fundo. Os prdios eram grandes retngulos de luz piscando com uma lua enorme pairando sobre eles. 
Barcos balanavam na gua, prximos ao porto, e era possvel escutar as vozes distantes das pessoas que conversavam nos quiosques. Uma fila de bias coloria a boca 
escura da enseada com luzes vermelhas e verdes.
        Permanecemos em silncio, mas eu fiquei imaginando como Jack se sentia diante daquela paisagem, se ele a percebia como msica ou como formas a serem desenhadas. 
Senti a presena dele atrs de mim e instintivamente virei meu rosto em sua direo. Ele estava bem perto, quase me tocando. Abaixou o rosto, quase tocou o meu, 
e sua boca permaneceu a poucos centmetros da minha. Ele mal respirava.
        - Est praticando - eu falei.
        - Isso. Isso mesmo. Como estou me saindo?
        - Acho que est pronto para os campeonatos - retruquei, dando uns passos para o lado. - E eu estou pronta para voltar para casa.
        Ele me olhou surpreso.
        - Voc quer ir embora?
        -Ah.
        Jack me olhou intrigado com as mos pendendo ao lado do corpo. Ento, ele colocou-as no bolso e disse:
        - Tudo bem.
        Retomamos pelo mesmo caminho e percebi que a cidade no estava piscando tanto quanto eu havia pensado. Uma terrvel teoria comeou a se formar em minha cabea. 
Jack no era, de fato, um cara legal. Ele no queria apenas a minha ajuda para conquistar Heather; ele estava fazendo um jogo duplo, um com ela, outro comigo, e 
aproveitando cada minuto disso. Talvez ele soubesse que eu estava sendo fisgada. Talvez estivesse se esforando ao mximo para me conquistar, um tipo de vingana 
por todo aquele tempo em que eu mal olhava para ele. Doa muito pensar nisso.
        "Bem, cresa", eu falava para mim mesma. "Tambm di muito para Joelle saber que o pai do filho dela no  um cara legal."
        O caminho de volta foi longo. A uns dois quarteires de casa, atravessamos uma estreita avenida cercada de rvores que escureciam o caminho.
        Jack desacelerou o carro, quase parando.
        - Eu ainda no havia encontrado as ruas escuras - ele falou.        
        - Bem, depois que voc me deixar em casa, pode vir aqui dar umas voltinhas - disse, rspida.
        Ele me deu uma espiada de canto de olho e aumentou a velocidade. Finalmente, chegamos. Sa do carro primeiro, mas ele me alcanou no caminho at a porta.
        Durante os dois ltimos anos eu vinha reclamando do modo como meus pais deixam as luzes da entrada de casa acesas, sempre que eu tenho um encontro. Toda 
vez que um cara me d um beijo de despedida, eu fico esperando um diretor gritar "corta". Mas hoje  noite eu estava agradecida por toda aquela luz.
        - Imagino que seus pais querem ter certeza de que voc chegar com segurana at a porta - observou Jack, olhando as lmpadas dos postes.
        - . E assim  mais fcil para o meu pai ficar me espiando de dentro da casa escura sem ser visto.
        Era mentira, mas me deu uma injeo de coragem para terminar o que eu havia comeado.
        - Boa noite - eu disse alegremente e fiquei nas pontas dos ps para beij-lo no rosto - bem longe da boca - na verdade, quase no seu ouvido. Ento as luzes 
se apagaram.
        Todas elas: as luzes da varanda, dos postes, a luz do porto. Congelei, pega de surpresa, parada muito perto dele no meio da escurido. Ele me abraou e 
me puxou contra o seu corpo. Jack estava prestes a me beijar. E eu no conseguia pensar em nenhum comentrio inteligente para faz-lo parar. Para falar a verdade, 
eu nem queria pensar em comentrios inteligentes.
        Lentamente, ele inclinou a cabea, mas sua boca no tocou a minha. Percebi que ele havia mudado de idia. Ento senti seus lbios sobre o meu pescoo. Em 
minha garganta, pude sentir um beijo longo e quente, suave como uma noite de vero.
        - A gente se v, Carly - ele disse e me deixou sozinha ali, diante da porta, tremendo.

Quinze

        Parecia ter sido um terremoto, mas eu acho que foram apenas os meus joelhos que balanaram. Pelo menos, a casa continuava de p e as folhas da nossa antiga 
macieira mal haviam se mexido.
        Minhas mos trmulas no conseguiam girar a chave de casa. Ento, descobri que a porta da frente estava destrancada. Virei a cabea e vi Jack parado no carro, 
se assegurando de que eu entraria. Bem, agora ele tinha muitas coisas para contar  Heather. Ela correria
para os seus braos exatamente como ele havia planejado. Exatamente como ns havamos planejado.
        Abri e empurrei a porta.
        - Espero ter desligado as luzes na hora certa - disse Joelle.
        Ela estava sentada no topo da escada, j de camisola.
        Acendi a luz do hall de entrada.
        -Perfeito - falei com uma voz monocrdica. Eu havia passado do terremoto para a completa paralisia. Subi os degraus lentamente.
        - Voc est bem? - perguntou Joelle.
        - Claro.
        Fui direto para o banheiro antes que ela comeasse a fazer muitas perguntas. Lavei o rosto com a porta do armrio da pia aberta, de modo que no precisasse 
ver no espelho a maquiagem
perfeita voltar a ser um rosto comum. Tudo o que eu queria era subir na minha cama, puxar os lenis sobre a cabea e dormir. Mas, quando entrei no quarto, vi uma 
forma de brownies e um copo de gua esperando por mim sobre a mesa entre as nossas camas. 
        -No posso mais descer as escadas hoje, por isso, se voc quiser leite, vai ter de ir at a cozinha pegar - falou Joelle, de sua cordilheira de travesseiros.
        Eu realmente no estava com fome, mas ela havia se esforado para fazer aqueles brownies para mim. E s havia um quadrado faltando na forma, o que significava 
que ela os havia defendido at mesmo de papai.
        - Parecem estar deliciosos - falei, tentando mostrar algum entusiasmo enquanto eu os cortava.
        - Carly, sinto muito que as coisas no tenham sado como voc esperava.
        - Eu sabia que acabaria dessa maneira - sacudi os ombros. - Eu sabia onde estava me metendo, mas eu devia uma a ele.Bem... tambm no era s isso - falei 
em voz baixa, enquanto cutucava alguns pedaos com a faca.Eu sei que vai parecer maluquice, mas eu quero mesmo que Jack seja feliz.Ainda que ser feliz signifique 
ficar com a Heather. Ento, resolvi ajud-lo. Doido, no ?
        - A insanidade corre na famlia- disse Joelle, jogando uma perna sobre um lado da cama. - Mas escute, um dia voc ainda vai ter uma surpresa. Eu gostaria 
que Jack a tivesse surpreendido... mas se no foi ele, vai surgir outro cara.  verdade - ela falou, balanando os ps. - Carly, se tem uma coisa que eu aprendi 
nas ltimas semanas,  que as pessoas sempre nos surpreendem. Elas sempre descobrem pequenas maneiras de estarem l para voc, de te fazer sorrir mesmo depois que 
voc j havia decidido que no iria sorrir de novo. E isso te toca - ela disse, fitando a prateleira onde estavam os ursinhos de Harry e os cartes das crianas.
        Eu mastigava pensativa.        
        - Vo aparecer outros - ela repetiu. - Confie em mim.
        Eu no iria me comprometer.
        - Voc no quer nem um brownie?
        - J comi. Papai e eu dividimos um pedao.
        - , mas voc est comendo por dois, Joe. E tambm deveria pensar mais seriamente se quer que o Camarada seja um choclatra. No sei quanto a voc, mas eu 
j estou contando com isso. J fiz at planos: toda Pscoa, eu vou fazer com que papai e mame comprem uns coelhos de chocolate enormes, que o Camarada ir dividir 
alegremente com a tia Carly. E, quando o Camarada j estiver andando, ir sair fantasiado no dia das bruxas pedindo doces. Cada mo segurando uma sacola, uma para 
ele, outra pra tia Carly. Depois, no Natal... bem, digamos apenas que eu tenho grandes planos pra esse garoto.
        Joelle soltou uma gargalhada e cortou um pedao de brownie para cada uma. Comemos em silncio, mas num silncio confortvel. E ela ainda estava sorrindo 
um pouco. Logo depois, apagamos as luzes.
        Mas a dor no havia sumido. Quando fechei os olhos, imaginei Heather deitada ao lado da piscina falando com Jack pelo telefone, enquanto ele corria pelo 
quarto, colocando a sunga e a toalha na mochila. Seja l como for, a dor estava ainda mais profunda.
        Mas as pequenas surpresas tambm estavam l. Os brownies.  Joelle sorrindo.
        No dia seguinte, eu iria encontrar maneiras de me manter ocupada. Talvez pintasse a antiga escrivaninha que seria do Camarada.  E a chegaria a segunda-feira, 
com um nibus repleto de crianas agitadas cheias de surpresas. Isso me faria bem.

        -  difcil entender por que a tia Madeleine resolveu pintar uma escrivaninha de roxo metlico - disse, dando uma olhada nos meus braos. A tinta lixada 
tinha se misturado com suor e minha pele estava ficando violeta brilhante. - Ela no foi pro convento uma vez?
        - Deve ser esse o motivo do roxo metlico - retrucou Joelle. Ela se reclinou em uma espreguiadeira a uns trs metros de onde eu estava trabalhando no quintal. 
Sobre o seu colo estava um dos livros de antropologia que eu enfiara em sua pilha de revistas. Ela apenas o folheava, dando uma espiada nas figuras,mas j era um 
comeo.
        Pode parecer estranho, mas eu estava feliz de ter a companhia de Joelle enquanto raspava a tinta da escrivaninha. O sol do domingo  tarde queimava em um 
crculo amarelo ao redor de nossa rvore. Recuei um pouco, enxugando o suor da minha testa, para admirar a superfcie ultralisa da escrivaninha.
        - Oi, Heather - disse Joelle.
        Eu me virei. Definitivamente, aquele no era o tipo de surpresa que eu estava desejando.
        Ela estava linda. Como  possvel algum estar sempre linda? Por que eu nunca consegui flagrar a Heather suada, usando uma camiseta velha e furada, uma trana 
desgrenhada, com sardas e p roxo por todo o corpo?
        - Heather, e a? - perguntei, pensando se ela havia notado a falsa alegria da minha voz. - Quanto tempo!
        - Faz tempo que voc no me liga- replicou. Notei uma mgoa em sua voz. Se era verdadeira ou no, eu no sabia.
        - Pegue uma cadeira da varanda - disse a ela.
        Enquanto ela se afastava, Joelle me perguntou baixinho:
        - Quer que eu saia?
        - No - a resposta saiu num tom furioso. Na verdade, eu estava apavorada. Queria que o sarcasmo da minha irm mais velha ficasse por perto servindo como 
uma espcie de escudo.
        - Pra que a escrivaninha? - perguntou Heather, colocando sua cadeira entre eu e Joelle.
        - Pro beb. Vou pintar de amarelo e fazer uns desenhos, depois que descobrirmos se o Camarada  menino ou menina.
        - Como voc tem se sentido, Joelle? - perguntou Heather. - Melhor?
        - Radiante com a condio feminina - respondeu Joelle.
        Heather concordou seriamente com a cabea e eu, tentando engolir uma gargalhada, coloquei a mo sobre a boca, deixando meu rosto cheio de poeira de tinta.
        - Imagino que tenha andado ocupada ultimamente - falou Heather delicadamente -, com o beb chegando e tudo mais.
        Comecei a me sentir culpada. Devia ter me esforado mais para ligar para ela.
        - Com certeza, me deixa ocupadssima - replicou Joelle. - Eu preciso ficar o dia inteiro sentada.
        - A gente costumava se falar todos os dias pelo telefone, Carly - continuou Heather -, e se via todos os fins de semana.
        -  - balancei a cabea -, eu acho que as coisas tm sido um pouco diferentes ultimamente - comecei a lixar uma das gavetas.
        - Eu acho que voc tem sado muito - disse Heather.
        Levantei os olhos para ela.
        - Um pouco.
        - Quando Jack e eu decidimos sair com outras pessoas, apesar de continuarmos saindo juntos - ela acrescentou rapidamente -, ele me contou que te chamaria 
pra sair.
        Continuei lixando.
        - Eu fiquei... bem... surpresa.
        - Por qu? - perguntou Joelle. - Pra mim, isso faz multo sentido.
        Heather olhou Joelle de relance e puxou sua cadeira para perto de mim.
        - Antigamente, a gente mal conseguia esperar pra contar sobre os nossos encontros. Como foi ontem? Voc se divertiu?
        - Ah. Eu me diverti, sim. E voc? Foi divertido com o Dan?
        - Foi bom. Ele tem uma namorada, voc sabe. Eles namoram h muito tempo.
        - H pelo menos trs anos, eu me lembro - eu disse, concentrada em uma das quinas da gaveta.
        - Dan  muito legal - continuou Heather. - Ns combinamos perfeitamente... quando danamos. Mas  s isso, eu acho.
        - Ah - por um momento desejei ter o monte Everest inteiro para lixar, assim eu poderia gastar toda a minha energia.
        Heather balanou os ombros e sorriu.
        - Mas acho que foi bom. Talvez j seja hora de eu parar de me apaixonar por caras que pertencem a outras garotas.
        Joelle virou os olhos para o alto.
        - Engraado, no ? - continuou Heather. - Vrios caras interessantes aparecem na minha vida, completamente solteiros, e eu tenho que me apaixonar justamente 
por ele.
        - No  s com voc que isso acontece - falei.
        - O que voc quer dizer? - Uma linha de tenso franziu-lhe a testa.
        - Bem... bem, voc viu aquelas garotas na festa do Steve respondi rapidamente. - Todas estavam malucas por ele.
        - Ento, eu acho que tenho bastante sorte - ela disse.- O Jack  meu. Ele  meu, Carly.
        Fiquei em silncio. Uma bola, que talvez fosse um tumor de p de tinta, se formou em minha garganta.
        - Voc contou isso pro Jack? - perguntou Joelle em voz alta. Muito alta, eu pensei.
        - Contar o que pro Jack? - ele repetiu.
        Aparentemente, minha irm o havia visto contornando a lateral da casa. Ele atravessou o gramado a passos largos. Fiquei atordoada. Por que ele tinha vindo? 
Por que no me avisou que faria uma visita? E eu estava com uma aparncia horrvel, especialmente ao lado de Heather.
        - Bem, acho que voc ainda no est totalmente pronta, Carly - ele falou.
        "Pronta?", pensei.
        - No, depois disso a gente tem de pintar o bero do Camarada. 
        Ele riu:
        - Quero dizer,pronta para mim - ele me fitou seriamente.
        - Voc esqueceu?
        Eu me virei para Joelle, que estava gargalhando atrs do seu livro. Grande ajuda.
        - Voc esqueceu do nosso encontro?
        Dei uma rpida olhada para ele, ento abaixei a cabea e vi os meus braos. Eu parecia ter escapado de um aqurio de peixes tropicais.
        - Ns amos ao zoolgico - disse Jack. 
        O zoolgico!
        Heather olhava de l pra c entre a gente, sua boca permanecia em uma linha reta. Se ela comeasse a tremer, como sempre acontecia antes de comear a chorar, 
eu no suportaria. Mas, ento, Jack tambm no suportaria, e se voltaria carinhosamente para ela e a levaria dali, terminando com esse msero impasse. Ele estava 
jogando com a sorte, me arriscando muito. Se continuasse jogando dessa maneira, Jack terminaria com duas garotas histricas nas mos.
        Eu olhei diretamente nos olhos dele, usando toda a minha coragem.
        - Voc cometeu um engano - disse firmemente. - Um grande engano.
        Ele piscou. A expresso em seu rosto permanecia impassvel, mas eu diria que por um momento ele no estava mais to confiante. Jack franziu a testa. Eu franzi 
a minha de volta. Heather,  lgico, estava ocupada fazendo um beicinho de choro.
        - Eu acho que  isso que acontece quando voc joga - falei. - Voc no consegue se lembrar com quem marcou um encontro, nem quando. A essa hora, o Dan provavelmente 
est na casa dele se perguntando por que a Heather ainda no apareceu. Enquanto isso, Jack, voc est na casa errada.
        Ningum, incluindo eu, conseguia acreditar que estivesse realmente falando aquilo. A verdade  que eu no tinha a menor idia do que Jack estava fazendo 
ali na nossa frente. Ao menos que a senhora Larsson tenha contado a ele que Heather estava aqui em casa e ele quisesse marcar mais alguns pontos. Eu realmente no 
suportava mais aquele joguinho.
        Heather continuava a ensaiar um incio de choro.
        "Ah, engole isso!" Era o que eu queria dizer a ela. Voc ganhou.
        - Querem brownies?- perguntou Joelle.
        - Quero - disse Jack.
        Assisti a ele comer trs pedaos.
        Heather pegou algumas casquinhas da frma, lambendo delicadamente os dedos, depois falou num tom casual:
        - Foi um grande jogo o que vocs assistiram.
        Olhei espantada para ela. Heather nunca havia demonstrado qualquer interesse por beisebol.
        - Dois dos melhores times da Liga Nacional- ela continuou.
        "Americana" - eu a corrigi silenciosamente.
        - Que duelo de lanamentos!
        "Duelo?" Ela deve ter lido aquela frase no caderno de esportes.
        - E aquele lanamento final do Randy Johnson? - ela continuou. - Foi realmente incrvel.
        Quase soltei uma gargalhada. Mais um pouco e ela estaria dando um tapa nas nossas costas, dizendo: "E os Orioles!".
        Heather continuou fazendo uma srie de observaes sobre a partida de beisebol que parecia ter sado da boca de algum comentarista esportivo. Era bvio que 
ela s estava falando aquilo tudo para que eu e Jack contssemos sobre o nosso encontro da noite passada. Por isso, ignorei os seus comentrios esportivos e continuei 
lixando a segunda gaveta. Jack tentou mudar de assunto. Ele provavelmente gostaria de contar para ela as partes romnticas do nosso encontro, quando eu no estivesse 
por perto, exagerando um pouco. Ou talvez ele estivesse muito ocupado enchendo a boca com brownies. 
        Quando eu j estava exausta daquilo tudo, disse:
        - Bem, pessoal, vocs esto perdendo uma tima tarde.
        - Tambm acho - murmurou Jack, olhando bastante aborrecido para mim. - Ento, Heather, quer ir no seu carro ou no meu?
        - Se a gente est indo pro Zoolgico, eu tenho de passar antes em casa pra trocar os sapatos - ela replicou.
        - Tudo bem. Eu te sigo.
        E eles saram, mas antes Jack se virou para mim e lanou um olhar que me atravessou como um raio.
        Permaneci olhando para ele o mais firme que pude.
        - Eu estava errada sobre voc - falei calmamente. - Voc sabe exatamente o que est fazendo.
        Ele abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, ento, pegou mais brownie e saiu.

Dezesseis

        No foi difcil evitar Jack na segunda-feira de manh porque ele j estava me evitando. E, por sorte, era o nosso dia de monitorar o almoo das crianas. 
Fiquei pensando se Jack teria contado
alguma coisa para Anna ou se, instintivamente, ela havia resolvido ficar circulando entre ns dois. Pensei que estivssemos disfarando bem a tenso, at que Eugene 
perguntou:
        - Voc e o Jack brigaram?
        O garoto fez a pergunta da maneira que sempre falava - berrando - e Jack acabou ouvindo. Ele chegou perto rapidamente.
        - A Carly  minha amiga - ele disse. - S que agora estamos trabalhando. Mas, quando no estamos ocupados, a gente conversa e se diverte muito. Agente tem 
um monte de coisas em comum.
        "Como, por exemplo, a Heather", pensei.
        - Ns fomos ver o jogo dos Orioles neste fim de semana - Jack contou a ele, colocando a mo nas minhas costas.
        - , foi divertido - falei.
        Permanecemos lado a lado, sorrindo para Eugene, como se estivssemos posando para uma foto de formatura. Ento a Heather apareceu e seguiu diretamente na 
nossa direo.
        - Quem  essa patricinha? - perguntou Eugene, sabendo que eu teria alguma reao a sua pergunta.
        -  a minha amiga Heather - respondi. - E eu no quero que voc a chame desse jeito - acrescentei, ainda que, bem no fundo, eu pensasse "isso mesmo, garoto!".
        Pelo jeito que Heather estava vestida, imaginei que estivesse a caminho de sua aula de dana. Mas algo me chamou a ateno: ela usava um collant que eu no 
conhecia. E sempre amos juntas ao shopping e eu a via experimentar tudo o que comprava. Isso pode parecer um detalhe pequeno, sem importncia, mas mostrava como 
as coisas entre ns duas haviam mudado.
        - Oi, Carly. Oi, Jack - sua voz se derreteu quando pronunciou o nome dele. Eugene deu uma espiada nela, ento olhou para mim.
        Ela se grudou a Jack, e ns ficamos ali parados por um momento, como os trs mosqueteiros. Jack tirou lentamente a mo das minhas costas.
        - Acabei de encontrar o Harry - ela falou ao Jack. - Ele vai aproveitar o feriado de amanh para fazer uma reunio na casa dele. Disse que convidou uns amigos 
e o pessoal do acampamento.
        "Pessoal do acampamento... esses eram os meus amigos, no os seus", pensei. "No fale de Harry e dos outros monitores como se fosse ntima deles!"
        - Eu disse a ele que a gente ainda no tinha nada planejado - ela continuou. - Falei que ns dois iramos.
        Ns. Ns dois. Dei as costas para o casal feliz.
        April, a menina das fivelinhas, acenou com sua mo melecada de pasta de amendoim:
        - Sabe aonde eu vou no dia da Independncia?
        - Aonde? - perguntei.
        - Na parada que vai acontecer aqui perto. Minha tia vai me trazer de nibus.
        - Mesmo?! As tias so o mximo, no so? - eu disse, e decidi que Joelle e eu iramos a todas as liquidaes da cidade e voltaramos para casa carregadas 
de coisas para o Camarada.
        Ao final do almoo, quando Harry me convidou para a reunio em sua casa, eu j estava com uma desculpa pronta. Ele pareceu terrivelmente desapontado.
        - Acho que  melhor no convidar a Joelle, ento - disse ele. - Ela provavelmente no vai querer ir sem voc.
        - Bem, nunca se sabe. - "Sair seria bom para Joelle", eu pensei, "e Harry tomaria conta dela." - Por que voc no liga pra ela e pergunta?
        - Voc no pode perguntar para mim? - ele retrucou.- Diga a ela que  uma repblica de estudantes, mas que estou sozinho neste vero. E tem um banheiro no 
primeiro andar, que vai estar bem limpo, e tm tambm vrias cadeiras para sentar, e eu posso arranjar qualquer coisa que ela queira comer.
        - Eu falo.
        E falei naquela tarde, enquanto ela preparava um molho de macarro e eu lavava alguns legumes.
        - Que horas as pessoas vo chegar l? - perguntou Joelle.
        Fiquei surpresa por ela no ter rejeitado o convite imediatamente.
        - s seis horas. Harry disse que, do quintal dele, a gente consegue ver os fogos de artifcio que soltam l da prefeitura.
        Ela mexeu o molho mais algumas vezes e, depois, espiou o reflexo do seu rosto no alumnio da torradeira.
        - O que voc vai vestir? - perguntou.
        - Eu no vou.
        - O qu? Por que eu vou se voc no vai?
        - Para se divertir - eu disse.
        - Mas eu no conheo ningum.
        - Vocvai encontrar o Harry e o Jack -lembrei. - E a Heather.
        - Ah- ela disse com uma voz maliciosa. -  por isso que voc resolveu ficar em casa. Vai curtir uma fossa.
        - No vou curtir fossa nenhuma.
        - E eu no vou se voc no for.
        Depois disso, liguei pro Harry. Disse-lhe que eu havia desistido da "outra festa" e perguntei o que eu e Joelle poderamos levar para a reunio.
        - Uma sobremesa - respondeu ele. - Brownies. Ou qualquer outra coisa com chocolate. Eu tenho tido desejo de comer chocolate ultimamente.
        "Isso est virando uma epidemia", pensei.
        No dia seguinte, eu e Joelle aparecemos l e encontramos um batalho de pessoas. Eu devia ter imaginado que Harry tinha muitos amigos da faculdade. A casa 
antiga de madeira, de paredes descascadas, no ficava muito distante do campus. E tinha um quintal grande, com plantas que pareciam ter sido podadas naquele dia, 
e onde vrias cadeiras de alumnio estavam espalhadas para quem quisesse se sentar. E, num dos cantos, havia uma poltrona que Harry separara especialmente para Joelle. 
Quando ele nos avistou entrando no quintal, seu rosto inteiro brilhou.
        Fomos as primeiras pessoas do acampamento a chegar, e ele nos apresentou aos seus amigos. Estava feliz de poder me integrar um pouco, antes que Jack e Heather 
chegassem. Harry apresentou um estudante de antropologia para Joelle e, para mim, arranjou duas meninas que competiam pelo time de basquete de Kirbysmith.
        Ele estava sendo o bom e velho Harry, andando entre as pessoas, rindo e balanando os braos. Exatamente como no acampamento: sempre atento, tentando deixar 
todos o mais  vontade possvel.
        Anna chegou um pouco mais tarde, abraada com um cara lindo. Depois Hau apareceu sozinho. Pmela chegou com duas amigas risonhas. Eu j estava ficando feliz, 
achando que Jack e Heather tinham arranjado algo melhor para fazer, quando eles chegaram, logo depois que a primeira leva de hambrgueres saiu da grelha.
        Anna os avistou primeiro e comentou com o namorado, Chuku. Todos ns os olhamos ao mesmo tempo.
        - Bem,  praticamente impossvel que Jack fuja daqui - comentou Joelle. - Pelo menos no do jeito que a Heather est agarrando ele.
        - Talvez seja ele que esteja agarrando ela.
        - Eu duvido - disse Anna, levantando o brao cheio de pulseiras e acenando para Jack.
        Os dois se juntaram ao grupo e, durante os primeiros vinte minutos, Jack conversou e brincou com todos, exceto comigo. Heather permanecia ao seu lado, atraindo 
os olhares de diversos amigos de Harry. "Deve ser o mximo pra ele", eu pensei, "vir numa festa com uma garota que  desejada por todos os outros caras." Ento percebi 
Jack espiando o meu cabelo, que eu havia penteado para baixo naquele dia. A noite estava mida e imaginei que, provavelmente, ele deveria estar arrepiado, com aquele 
visual "eltrico".
        Heather passou a explicar movimentos de bal para Anna, dando uma pequena demonstrao. Ento Jack chegou mais perto de Joelle e de mim.
        - Quando seu cabelo fica... fica assim... ele no foi passado a ferro, foi? - perguntou Jack.
        - Claro que no - retruquei. - Eu apenas me penteei com um ancinho de jardim!
        Um canto de sua boca se levantou, num meio sorriso.
        - Como foi o zoolgico? - perguntei.
        - Legal. Divertido. Pena voc no ter ido.
        - Sabe, Jack, s vezes voc tem de parar de jogar.
        - Jogar o qu?
        - Ah, d um tempo! - falei irritada.
        Jack saiu de perto e, depois disso, procuramos manter distncia um do outro. No olhei mais para ele at a hora dos fogos de artifcio.
        As pessoas tinham esticado lenis e cobertores velhos sobre o gramado, mas eu j havia encontrado um lugar nos degraus da escada da varanda. Joelle deixou 
os outros para se sentar perto de mim.
        - E a, t se divertindo? - perguntei. Mas pude ver a resposta para minha pergunta no seu rosto corado. Por algumas horas, pelo menos, ela tinha voltado 
a ser uma aluna de faculdade com 19 anos.
        - T, bastante. E voc?
        - Podia ter sido pior - disse, dando de ombros. - Ah, olhe!
        Ela virou os olhos pro cu e comeamos a soltar "ohhhs" e "ahhs" para cada uma das exploses de cores dos fogos.
        - Eu gosto dos verdes.
        - Os roxos.
        - O azul e o rosa juntos.
        - Ah, a gota! O seu favorito, Carly, em formato de gota!
        Mas, nesse momento, eu tinha comeado a assistir a outros fogos de artifcio.
        Heather e Jack estavam sentados juntos sobre um cobertor. Ela colocou um brao ao redor dos ombros dele e, com a outra mo, virou o seu rosto para o dela. 
Ele inclinou a cabea e ficaram se olhando. E permaneceu assim, por um tempo que pareceu uma eternidade. "Ele vai beijar ela", pensei, "ele vai beijar ela no pescoo 
da mesma maneira que me beijou." E isso tinha sido um conselho meu,  claro.
        Mas ele foi na direo da boca. Pude sentir a minha prpria boca amolecendo. Eles se beijaram e se beijaram. Eu no conseguia parar de olhar para o ponto 
em que os lbios deles se encontravam. Aquela pequena e estranha dor estava ficando mais intensa. De repente, tive a sensao de que no conseguia mais respirar.
        - Mantenha os olhos no cu - disse Joelle.
        - No consigo.
        - No d tanta importncia pra isso, Carly. Voc viu que foi ela que comeou.
        - E ele est acabando - falei. - Queria estar em casa.
        - Logo, quando os fogos terminarem.
        Ento Joelle fez algo engraado: como estava sentada no degrau abaixo do meu, ela esticou a mo e tocou a minha canela. Na nossa famlia, nunca tivemos o 
hbito de nos tocarmos. E Joelle e eu no nos abravamos ou dvamos as mos desde que ramos crianas. Acho que foi por isso que ela no sabia exatamente o que 
fazer e resolveu segurar minha canela. Meus olhos comeavam a se encher de lgrimas, mas eu quase soltei uma gargalhada.
        - Pronto - ela disse -, acho que agora terminou.
        "Sim, agora terminou mesmo", pensei. Logo que reacenderam as luzes da casa, ns duas encontramos Harry, agradecemos pela festa e fomos embora.

Dezessete

        - J  hora de acordar? - perguntei algumas horas depois, tateando no escuro e procurando meu relgio. - Est chovendo?
        - So quatro horas ainda. Volte a dormir - Joelle falou antes de sair do quarto.
        Virei para o outro lado. Mais cinco horas antes que eu precisasse me transformar numa campista feliz. Mais cinco horas antes que eu tivesse que grudar um 
sorriso no rosto e dizer ao Jack como eu estava feliz pelas coisas estarem dando certo com a Heather.
        Virei de novo e notei uma luz acesa. Joelle sempre ia ao banheiro no meio da noite no escuro total. Mas havia uma luz acesa agora. E continuou acesa. Por 
muito tempo.
        Pulei da cama.
        - Joelle?
        Bati na porta do banheiro e, como ouvi resposta, entrei. Ela estava em p, enrolada numa toalha, tremendo e olhando para sua camisola na pia. A torneira 
pingava, pingava, pingava sobre a mancha de sangue.
        - Est tudo bem, Joelle - eu disse. - Est tudo bem. Vou pedir ajuda.

        A grande janela da sala de espera do hospital dava para o leste. Eu havia assistido ao sol nascer, depois fiquei observando os carros entrarem no estacionamento 
do hospital; apenas alguns no incio, seguidos de uma fila ininterrupta depois das sete horas. Um cheiro de caf subiu da lanchonete do primeiro andar, me deixando 
enjoada. Mesmo assim, s oito horas, desci com meus pais para tentar comer alguma coisa. Sentamos em silncio, diante da comida.
        - Joelle vai ficar bem - minha me falou. - Ela  forte. Aprendeu a ser forte com voc.
        Deixamos a comida de lado e voltamos para o andar onde estvamos. Foi a primeira vez que vi meus pais de mos dadas.
        s oito e meia meu pai ligou para o Harry e disse que eu no iria trabalhar. Eu no conseguiria falar com ele. Parecia que minha voz estava presa no estmago.
        Mais tarde, uma enfermeira apareceu e chamou meus pais. Fiquei olhando mais um pouco atravs da janela. Comecei a pensar em Sam. Imaginei ele dizendo bom 
dia para a esposa, sorrindo para ela, e saindo tranqilamente para dar aulas num curso de vero. Ele no tinha a menor idia do que Joelle estava passando. O sol 
estava bem alto agora.
        Meu pai retomou e me tocou no brao.
        - Carly - disse gentilmente -, Joelle quer ver voc.
        Eu no me lembro quem foi que me disse, se  que realmente me disseram alguma coisa, mas eu sabia, antes de entrar no quarto, que Joelle havia abortado. 
Sabia que o Camarada havia partido.
        - Joelle?
        Ela estava apoiada nos travesseiros com os lenis puxados  at o peito. Seu rosto se virou para a janela. Eu no sabia se andava para o outro lado da cama 
ou se ficava onde estava, permitindo que ela continuasse sem me ver.
        Era muito tarde para dizer que eu pretendia ensinar beisebol ao [i]Camarada[/i]. Era muito tarde para dizer que eu seria uma supertia, e que ela no criaria 
o seu filho sozinha.
        - Sinto muito.
        Ela no respondeu.
        - Sinto muito pelo Camarada... E eu te amo, Joelle, se  que isso ajuda em algo.
        Por um momento, ela no se mexeu. Ento, pude v-la fechar os olhos, espremendo-os com fora. Ela se virou para mim.
        - Engraado... ajuda em tudo.
        Coloquei os meus braos ao redor dela e a segurei. Ou talvez ela tenha me segurado. De qualquer modo, arranjamos fora para ficarmos sentadas na cama.
        - Sabe - eu disse, alguns minutos depois, me esforando para falar claramente em meio s lgrimas -, a gente t ficando muito certinha. Acho melhor uma das 
duas comear a ter um ataque de nervos.
        Ela abriu a boca como se fosse rir, ento soluou contra o meu ombro.
        Ao meio-dia, o mdico lhe deu alta.
        Foi estranho voltar para o nosso quarto. Estranho porque agora s havia ns duas. O Camarada j tinha se tornado uma presena at mesmo para mim. Mal podia 
imaginar como era isso para Joelle, tendo carregado o beb por tanto tempo.
        Assim que ela pegou no sono, fui na ponta dos ps at a prateleira e retirei os ursinhos de Harry. Deixei os cartes das crianas, assim Joelle no iria 
notar exatamente o que eu havia feito. Ela dormiu durante toda a tarde, enquanto eu e meus pais nos revezamos para tomar conta dela.
        Harry telefonou depois que as crianas deixaram o acampamento. Contei-lhe as novidades. Ele disse que o grupo da terceira srie havia feito algo pra Joelle 
e perguntou se ele deveria trazer hoje ou esperar at o dia seguinte. Ainda teriam mais dois dias de acampamento, e eu pretendia trabalhar na manh seguinte, mas 
disse para ele vir se quisesse. No sabia se Joelle gostaria de v lo. Eu com certeza queria. Mesmo que no falasse nada com ele sobre ter perdido o Camarada, o 
seu rosto amigo e a sua firmeza seriam reconfortantes.
        Ele chegou por volta das cinco e meia com um tubo de papel que, desenrolado, virava um grande retngulo de dois metros e meio de comprimento pintado com 
tinta grossa. As crianas tinham criado um auto-retrato. Cada uma pintou a sua prpria figura numa multido sob a tenda de um circo. Alguns desenharam uns bales 
saindo de suas bocas e escreveram mensagens para mim e para Joelle. Meu pai reconheceu Eugene imediatamente. Minha me leu os bales e percebeu logo quem era Janet. 
Eu amei o desenho de April, que no perdeu tempo desenhando todas aquelas presilhas de cabelo, mas simplesmente besuntou o seu cabelo de purpurina.
        - Jack os ajudou - disse Harry. - Aqui est o rascunho que ele fez.
        Abri um pedao de papel dobrado no qual Jack havia feito um esquema mostrando os lugares de cada criana no desenho. Junto do rascunho, ele tinha grampeado 
uma pequena tira de
papel com um recado: "Existe algo que eu possa fazer? Ligue".
        Eu gostaria muito de ligar para ele. Gostaria muito que ele me confortasse. Queria ter Jack como amigo, se era s assim que podia ser, mas no agora, ainda 
no. Prometi a mim mesma: s depois que eu superasse tudo o que eu sentia por ele. Afinal, como poderamos nos tornar amigos que assistem a jogos de beisebol juntos, 
se eu no conseguia parar de olhar para os seus lbios e imaginar como seria dar um beijo nele?
        Respirei profundamente. Harry colocou uma mo em meu ombro. Meus pais continuavam admirando o desenho.
        - Vou subir e perguntar a Joelle se ela quer receber visitas - falei a ele. - Mas no fique chateado, Harry. Talvez ela no queira.
        - Tudo bem, eu venho outra hora - ele falou, pegando as chaves do carro.
        - Espere a Carly perguntar. s vezes, a Joelle surpreende - minha me falou, pegando-o pelo brao.
        Ela nos surpreendeu dessa vez. Subi as escadas com Harry e o acompanhei at a segunda porta  direita, ento, fui com meus pais para a cozinha. Jantamos 
uma mistura das sobras que havia na geladeira. De vez em quando, os olhos da minha me se enchiam de lgrimas e ela dava umas piscadinhas. Pude ver meu pai segurando 
a mo dela por baixo da mesa.
        Harry ficou por uma hora e meia. Eu tentava imaginar sobre o que tanto eles conversavam. De qualquer modo, se estavam tanto tempo juntos era porque Harry 
devia estar fazendo bem a ela.
        Depois que Harry saiu, mame e eu colocamos o jantar em uma bandeja para Joelle. Os olhos de mame estavam ficando cor-de-rosa novamente, e eu no sabia 
o que fazer.
        - V sozinha - ela disse docemente -, leve a bandeja para Joelle. Se eu conseguir chorar bastante lavando a loua, vou me sentir bem melhor.
        Segurei minhas prprias lgrimas e levantei a bandeja. J estava no meio da escada quando a campainha tocou. Meu pai foi atender.
        - Ol, Heather - ele disse.
        Tudo o que eu mais precisava: o consolo da Heather. Mas ela estava sendo legal, eu disse a mim mesma com firmeza. Ela se importava comigo!
        - Heather e Luke - meu pai falou. -  Luke, no ?
        J estava no meio da escada quando me virei.
        - Jack - ele disse e olhou para mim.
        - Oi, Heather. Oi, Jack. - Eu mal conseguia abrir a boca.
        - Deixe que eu levo isso, Carly - meu pai se ofereceu. - Fique com seus amigos.
        Depois que papai pegou a bandeja, eu me juntei a eles no primeiro andar. Permanecemos em silncio no hall. Estvamos nos sentindo to confortveis com aquela 
situao quanto trs estranhos num funeral. A ltima coisa que eu queria era ficar perto deles.
        Heather estava segurando um buqu de flores e apoiava a outra mo na cintura de Jack.
        - Trouxemos umas flores pra Joelle - ela disse. - Eu no sabia qual a flor preferida dela. Ento, o Jack me perguntou qual era a sua flor predileta. Espero 
que ela goste.
        - Margaridas - falei, evitando olhar para Jack. - So lindas. Joelle vai adorar. Obrigada.
        - Harry me contou o que aconteceu- disseJack.- Eu sinto muito.
        - Obrigada.
        - Como ela est?- perguntou ele.
        Aproximei meu rosto das flores - como se margaridas tivessem cheiro.
        - Fisicamente, est bem. Mas vai precisar de um tempo at as coisas voltarem ao normal.
        - Existe alguma coisa que a gente possa fazer? - perguntou Heather.
        "Agente. Ns." Eles realmente eram um casal agora.
        - Acho que no, mas foi legal vocs terem vindo trazer as flores - minha voz tremeu.
        - Ah, Carly, eu sinto muito - disse Heather. E me deu um abrao apertado. Foi como nos velhos tempos.
        Eu queria que fossem os velhos tempos. Queria que ns duas fssemos as melhores amigas para sempre. Queria estar de volta aos namorinhos bobos, quando eu 
conseguia controlar os meus
sentimentos. E queria mais do que tudo que Joelle conseguisse ser como ela era antes de ter sofrido por causa do Sam, e depois por causa de seu beb.
        Heather me soltou. Jack permaneceu imvel, observando. O que ele estaria pensando? Eu queria saber. Se ao menos pudesse tocar a sua mo.
        Ento Heather apoiou-se nele e o olhou.
        - Vamos, Jack. A Carly parece cansada. Eu disse que devamos ligar antes de vir.
        Ela andou em direo  porta.
        Jack no a seguiu. Ele me lanou um olhar to intenso que tive a sensao de que podia ler todos os meus pensamentos.
        "Mas ele no pode", eu me lembrei. "E isso  bom."
        - Obrigada por ter vindo - eu falei.
        Jack abaixou lentamente a cabea.
        Heather o puxou para perto dela e eles saram, de mos dadas.
        Permaneci na escada, admirando as margaridas no meu colo. Tentei recordar a letra de uma das canes de ninar que Jack havia cantado no acampamento. Lembrei-me 
de como ele tinha me
segurado perto dele e como, quando eu pensei que j estivesse dormindo, ele segurou minha mo. No fim das contas, eu sabia que alimentar essas pequenas lembranas 
s me deixaria mais deprimida. Mas eu estava no fundo do poo. E no conseguia abandonar o conforto da lembrana daquela noite em que Jack chegou perto de mim.

Dezoito

        Jack e eu mal nos falamos na quinta-feira; encontramos maneiras de permanecer ocupados. Agora eu s precisaria atravessar a sexta, que seria o nosso ltimo 
dia no acampamento. Para celebrar isso, Harry havia organizado um dia de jogos e competies envolvendo as crianas. Ele tinha comprado sacolas cheias de prmios 
especiais.
        - Nenhuma criana pode voltar pra casa de mos vazias - ele nos disse pela manh. Ns premiamos vrios sextos, stimos e oitavos lugares naquele dia.
        Na hora do almoo, as crianas viram os seus prprios desenhos numa exposio de arte organizada por Jack do lado de fora da lanchonete. Os artistas no 
escondiam o orgulho, especialmente quando outras pessoas da faculdade paravam e admiravam os trabalhos.
        Eu estava observando uma das pinturas feitas pelas crianas do Hau, em que se viam pessoas e animais com uma mistura de palavras em ingls e em vietnamita, 
quando uma outra pessoa parou logo atrs de mim. No era Jack. Eu sabia que ele estava mantendo distncia, ficando do outro lado da exposio.
        - Esses so demais, no so? - falei, virando a cabea.- Luke! - exclamei.
        - Oi, Carly - ele olhou para mim com aqueles suaves olhos verdes.
        - Est gostando das nossas obras de arte? - perguntei.
        - Elas so bem coloridas - ele replicou, sorrindo.
        "Se algum dia ele vencer as Olimpadas", pensei, "vai se tornar o sonho dos anunciantes."
        -Mas algumas das cores no esto certas - ele acrescentou.
        - Como aquela rvore azul.
        - Eu amo aquela rvore azul.
        -Parece que existem vrias garotas de cabelo vermelho nesses desenhos- ele continuou.
        - Percebeu, ?
        - Elas me fazem lembrar de voc - ele disse.
        - Mesmo? Obrigada.- Tem um com uma garota de cabelo vermelho vestindo uma camiseta cheia de coraes.
        Sorri. 
        - Foi o Miguel, o meu lanador de beisebol, que fez. Voc se lembra? Eu te falei sobre ele.
        -Escute, Carly, eu tenho uma apresentao de ginstica olmpica amanh  tarde no ginsio Canton. Comea s duas horas. Vai ser bem legal de assistir.
        -Ento, espero que voc tenha uma platia bem grande - falei. - Boa sorte. Tenho certeza de que voc vai se dar super bem, Luke.
        -Comea s duas, mas talvez voc tenha coisas pra fazer - ele continuou. - Mas os meus exerccios mais importantes s vo acontecer depois das trs e meia. 
Ento, voc pode chegar mais tarde. Eu sei que vai gostar. 
        -  uma pena, mas tenho umas coisas pra fazer. De qualquer modo, foi muito legal voc ter me convidado - falei com toda sinceridade. O ideal de namorada 
do Luke era uma f extremada, mas, mesmo assim, o seu convite inflou o meu ego.
        - Eu...eu acho que devia ter te convidado antes - ele disse, olhando para baixo, e foi embora. Mas a desolao no durou muito: j no meio do saguo Luke 
havia retomado sua postura de heri.
        Depois que o corpo maravilhoso de Luke havia deixado de bloquear a minha viso, eu percebi que Jack e Anna estavam me observando do outro lado da exposio. 
Fiquei tensa. Se Jack fizesse alguma gozao sobre o Ovos Mexidos, eu perderia a cabea, pensei. Mas Anna disse alguma coisa a ele e Jack se virou de costas.
        s trs horas, as crianas fizeram a ltima fila para o nibus, segurando orgulhosamente seus prmios e desenhos. Foi uma despedida com muitos abraos e 
olhos vermelhos de choro. Parecia que aquela era a semana das despedidas difceis.
        Quando o nibus finalmente partiu, eu e os outros monitores ficamos parados acenando para as crianas. Mas depois de percorrer uns seis metros, o nibus 
parou de repente e deu marcha
a r. Por um momento, ficamos todos curiosos para saber o que estava acontecendo. E ento, a porta se abriu. Miguel saiu e, com o seu desenho na mo, correu at 
onde eu estava.
        - Pra voc.
        - Pra mim? Quer que eu fique com ele? - perguntei, olhando a menina com a camiseta de coraes.
        Ele sacudiu a cabea, mantendo os lbios fechados.
        - Quando voc for um jogador famoso, eu posso levar esse desenho pro estdio e pegar um autgrafo?
        Miguel me abraou, depois correu para o nibus.
        Voltamos em silncio para o escritrio. Era a hora de colocar as coisas no lugar, e eu acho que todos estvamos felizes de ter algo para fazer enquanto pensvamos 
nas crianas.
        Peguei um equipamento que havamos tomado emprestado e levei para o ginsio. No demorou muito tempo para guardar as bolas e as redes nos armrios. Era tentador 
ficar ali e fazer algumas cestas, esperando que todos fossem embora e evitar, assim, mais uma seqncia de despedidas. Escolhi uma bola de basquete e fui para a 
quadra. Na linha de arremesso, quiquei-a algumas vezes e me preparei para arremessar.
        - Fora!
        Virei a cabea para encarar Jack.
        - Quando eu arremesso, eu no perco.
        Ele ergueu as sobrancelhas.
        - Joguei. Perdi.
        Ele agarrou a bola e passou por mim driblando.
        - Preciso guardar a bola agora - falei, estendendo a mo.
        - Eu preciso conversar - ele retrucou, quicando a bola perto de mim.
        - Ento, fique aqui e converse, se voc quiser. Eu vou guardar essa bola - roubei a bola dele, mas, na mesma hora, ele agarrou meu brao.
        - Ns temos que conversar.
        - Eu no consigo achar uma boa razo pra isso.
        - Carly, voc tem andando to triste. E eu no sei o que fazer pra te ajudar - ele disse. A expresso de seu rosto era mesmo de preocupao, o que quase 
partiu o meu corao.
        - Por favor, no faa nada - disse a ele, passando os dedos pela bola de basquete. - No  um problema seu,Jack.
        Sa de perto dele.
        - As coisas no andam muito bem,  verdade, mas fui eu que me meti nessa.
        - No - ele retrucou. - Fui eu que coloquei a gente nessa. Quando eu comecei a fazer o jogo da Heather com voc.
        - Desculpe - argumentei -, voc at poderia ter conquistado qualquer uma daquelas garotas da festa do Steve. Mas quanto a voc e Heather, vamos deixar isso 
bem claro, fui eu que planejei esse romance.
        - Voc est certa disso?- ele perguntou, os olhos brilhando de raiva. - Eu gostaria de saber o que faz voc ter tanta certeza disso.
        - Dois pontos. Sem bater no aro - eu anunciei. E me preparei para lanar a bola. Arremessei. Cesta. 
        Jack recuperou a bola e fez um drible atrs do crculo amarelo.
        - Trs pontos - ele anunciou, ento enterrou a bola na cesta.
        Ele se virou para mim. - Voc realmente no tem a menor pista do que eu estava tentando fazer.
        - Tenho uma pista, sim - eu o interrompi. - Voc est tentando me derrotar no meu prprio jogo.
        - De qual jogo voc est falando, Carly?
        Eu recolhi a bola.
        - De qual jogo? - ele insistiu.
        Girei rapidamente ao redor dele e tentei lanar com a mo esquerda. Estava furiosa. Poderia at perder no amor, mas no seria derrotada nos arremessos.
        Ele me alcanou e fez um bloqueio perfeito. Corremos em direo da bola perdida e acabamos nos atirando violentamente contra a parede.
        - Sabe, quando eu vi voc pela primeira vez - ele comeou -, naquele dia que voc quase me atropelou, achei que era meio maluca. E deveria estar sempre com 
seu capacete na cabea.
        - Mesmo? Obrigada pelo elogio - falei, tentando desvencIlhar o meu corpo do dele. Era doloroso ficar to perto de Jack. Sua voz, seu cheiro, sua pele me 
cercavam por todos os lados.
        - Mas eu acho que fiquei ainda mais maluco...
        - No vou discutir isso - escapei e fui atrs da bola que rolava para longe de ns.
        - ...querendo voc.
        Virei a cabea para olh-lo.
        - O que voc falou?
        - Eu queria voc. E voc queria o Ovos Mexidos - ele soltou uma gargalhada. - Quando eu me lembro disso agora, chega a ser hilrio.
        Eu estava perplexa. Por que era engraado?
        - Fiquei to maluco - continuou Jack - quando voc pensou em me usar pra conquistar o Ovos Mexidos. Mas eu concordei em sair com voc e Heather, esperando 
que, se voc me
conhecesse melhor, acabaria mudando de idia. - Ele me olhou com aqueles incrveis olhos azuis. - Em alguns momentos, como na casa mal-assombrada, eu pensei que 
teria uma chance.
        Ento ele balanou os ombros e sorriu, como se aqueles momentos no tivessem sido importantes.
        - Mas voc continuou me "treinando" - ele continuou _ e deixou claro que estava a fim do Ovos Mexidos. Eu teria que agentar isso at que a Heather ficasse 
cansada de mim. Ento
passei a v-la o mximo que pude. Achando que ela se enjoaria rpido. E ela se enjoou. Ento eu tive uma idia brilhante.
        Agora o sorriso desapareceu. E Jack balanou a cabea como se tivesse vergonha de si mesmo.
        - Qual? - perguntei com a voz rouca. - Qual foi a idia brilhante?
        - Tentar o seu jogo... ainda que eu o achasse ridculo. No incio, eu odiei a maneira como voc levava os seus joguinhos de conquista. Mas parecia to fcil! 
Se eu fingisse que precisava manter a Heather interessada em mim, eu teria uma desculpa para sair com voc, uma desculpa para voc ficar comigo.
        - Ah, no!
        - Agora, eu me sinto pssimo.No importa se a Heather costuma usar os outros... mas eu a usei... isso foi pssimo! E o que  pior, eu arranjei tudo to perfeitamente 
que no podia nem ser mais seu amigo. Quarta-feira  noite, na sua casa, tudo o que eu queria era abraar voc.
        Ele deu um passo  frente. Eu peguei a bola de basquete e a agarrei como uma bia salva-vidas. Ser que ele tinha notado que eu no parava de tremer?
        - Voc pode largar essa bola agora - ele falou em voz baixa.
        - O jogo acabou.
        - Acabou? - eu murmurei - Quem ganhou?
        - Ningum.
        - Ningum?
        - Obviamente - ele falou de modo brusco -, nem voc, nem Heather, nem eu - ele se virou e foi embora.
        Fiquei olhando fixamente para ele, sem acreditar em tudo aquilo. Ele estava falando srio. Havia realmente acabado. Sem que eu soubesse, ele tinha se apaixonado 
e desistido de mim. No havia durado mais do que o perodo do acampamento. Agora, tudo o que restava era raiva.
        Fiquei ali mais um minuto, observando-o de costas, ento, sa correndo e, do meio da quadra, arremessei a bola em direo  cesta na outra extremidade. Eu 
queria estourar aquele vidro de proteo em mil pedaos.
        Mas a bola atravessou tranqilamente a cesta.
        Jack parou e esperou a bola rolar at ele.
        - Sabe, se voc praticar um pouco - ele disse, com um sorrisinho -, pode se tornar uma grande jogadora.
        - Eu sou uma grande jogadora.
        Ele deu uma olhada na cesta e jogou a bola para mim, como se a estivesse lanando para um companheiro de time. Mas logo depois que eu a peguei, ele veio 
correndo impedir a minha passagem. Passei por ele, driblando. Ele permanecia emparelhado. Tentei ir pela esquerda, depois pela direita. Ele marcava cada passo meu. 
Recuando, dei a volta e corri para a linha de arremesso. Dei-lhe uma leve cotovelada nas costelas e saltei bem embaixo da cesta. Colidimos no ar.
        - Falta! No brao - eu gritei.
        - Voc t falando srio? - exclamou Jack.
        Permanecemos ali, suados, nos encarando.
        - Carly - ele disse com uma voz baixa, to sem flego que eu mal conseguia escut-lo. - Eu te amo. No acabou pra mim. Eu no consigo deixar de gostar de 
voc e eu no sei o que fazer com isso.
        Eu engoli seco. Meus sentimentos eram to fortes que eu estava paralisada. Tentei soar leve e calma:
        - Pelo jeito, voc no escutou aqueles conselhos todos que eu te dei.
        Ele me olhou espantado, depois esperanoso. Seus olhos azuis brilhavam.
        - Eu... eu escutei alguns deles - disse, e colocou levemente os braos em torno de mim, se inclinou e me beijou no pescoo, uma, duas, trs vezes, beijos 
quentes e macios.
        Depois, se afastou e me olhou.
        - Voc est arrepiada! - Estou.
        Jack me puxou contra o seu corpo, seus braos me envolvendo como se nunca mais fossem me soltar.E abaixou a boca em direo a minha.
        - Carly, feche os olhos.
        Fechei os dois. Depois abri um.
        Jack soltou uma gargalhada. Pude sentir o seu corpo inteiro rindo. E ele me beijou levemente. E mais uma vez, levemente, esperando por mim.
        - Carly - ele falou numa voz grave.
        Quando o beijei, foi com todo o meu sentimento. Jack parou de sorrir; pude sentir todo o seu corpo tremendo.
        Ginsios vazios e cinzentos so bons lugares tanto para beijar quanto para rezar. Eu no sei quanto tempo permaneci envolvida em seus braos. Mas, finalmente, 
eu disse:
        - Eu... acho que a gente devia voltar pro escritrio.
        Jack concordou e me soltou.
        Mas, assim que guardei a bola de basquete, ele me puxou para perto dele novamente e continuou me abraando durante todo o caminho at o centro estudantil.
        - Minhas bochechas esto to vermelhas quanto eu imagino? - perguntei.
        - Como duas mas - ele respondeu sorrindo.
        - Todos vo ficar surpresos quando virem a gente, no acha?
        - Bem, a Anna talvez no - ele disse -, mas os outros com certeza ficaro. Eu no acho que o Hau tenha percebido alguma coisa, muito menos o Harry. Ns fingimos 
muito bem - acrescentou,
enquanto atravessamos o corredor. Um bilhete estava fixado na porta do escritrio. Jack me beijou mais uma vez antes de lermos o recado.

Caros Jack e Carly,
No pude esperar mais. Todo mundo vai se encontrar no
Pizza Palace s 6:30, para comemorar.Vejo vocs l.
                                                                              Harry.

P.S.l: Hau disse a Heather que vocs foram no nibus com
as crianas e que demorariam para voltar.
P.S.2:No me decepcionem, meninos.Eu amo finais felizes. 

__FIM__


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Comunidade: Digitalizaes de livros
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